26 de março de 2017

Poema espinhoso



cavuco
futuco
rompo
abcessos
mancho
epidermes
expilo
protuberâncias
amareladas
desbotadas
botões de
apertar
espremer
sinal
gritante
na cútis
agredida
por ecos
adolescentes
apesar da
balzaquiana
idade
que nem
flor viça é
é flor baça
sem graça
tez não
uniforme
não conforme
ao padrão
homogêneo
se me aguarda
retrato de
Dorian Gray
aflige-me
a face
Doriana
oleosa
como a
margarina
no porão
deve ser
o rosto
límpido
enquanto
aqui o
exato
oposto
antiestético
espinhoso


19 de março de 2017

Na Estante 71: A bolsa amarela (Lygia Bojunga)


Livro: A bolsa amarela
Autor: Lygia Bojunga
Editora: Casa Lygia Bojunga
Ano: 2013
Páginas: 135

Uma bolsa que cabe tudo, o mundo, dentro dela cabem todas as vontades da protagonista, protagonista que almeja aquilo que é oposto dela ou que é esperado ao gênero o qual ela pertence. Raquel quer ser adulta, ser menino, pois eles têm mais privilégios do que as meninas, ela deseja ser escritora, mas suas histórias não são bem recebidas ou compreendidas pelo grupo familiar.
Ao ganhar de presente uma bolsa amarela, grande demais para o tamanho de Raquel, mas o suficiente para carregar os seus sonhos e suportar o peso de sua imaginação. Ela convive com personagens como um guarda-chuva, um alfinete, um galo oriundo de uma das estórias que ela criou. Ao mesmo tempo convive com a mãe, o pai e os irmãos, de origem pobre, e suporta a caridade de sua tia que tem uma situação financeira melhor e se desfaz das muitas coisas que ela compra e que não usa mais, entregando-as para a família de Raquel.
Em A bolsa amarela, temos uma protagonista criativa, escritora, dona de si e de suas opiniões, com uma imaginação em franco crescimento, que percebe o mundo ao redor e projetando o seu próprio universo para atenuar a sua realidade e sua condição. O livro utiliza-se de uma linguagem coloquial com termos como “Aí”, “tô”, interjeições e outros recursos, etc. e reforça a proximidade com a oralidade das crianças da mesma idade da protagonista.
Passados 40 anos da sua publicação, A bolsa amarela dialoga com temas urgentes da atualidade como a questão de gênero e o feminismo, além de, como é comum em grande parte da produção literária infanto-juvenil, exaltar a importância da leitura e da escrita como formas de libertação e de afirmação no mundo.

5 de março de 2017

Multas linguísticas

       As pessoas têm uma ideia equivocada de que todo profissional formado em Letras é alguém que vai monitorar a fala do mundo inteiro e encontrar os erros existentes nela, como se a língua oficial do nosso país se resumisse a uma questão gramatical-ortográfica.
E sempre quando descobrem que você trabalha nessa maravilhosa área das linguagens, surgem as dúvidas mais corriqueiras: “Quando eu uso onde/aonde?”, “E os porquês?”, “Tal palavra é com s ou ss?” e assim por diante. Isso quando não aparecem comentários do tipo: “Vamos falar direito que temos um professor de português ao nosso lado.”, “Ele já deve ter notado um monte de erros no que a gente falou...”, como se, antes de tudo, nós fossemos fiscais da fala alheia a pontuar as inadequações. Não que nós, de vez em quando, não reparemos os momentos em que alguma frase foge daquilo que se estabeleceu como norma-padrão, mas não saímos com um bloquinho de anotações distribuindo multas linguísticas por aí.
O que a população ainda não entende é que existem vários modos de fazer o uso da nossa língua materna, depende da situação (e o grau de formalidade e informalidade que ela vai exigir) em que você se encontra. E que ela não se restringe apenas à norma-culta de comunicação (tanto na oralidade quanto na escrita, apesar de alguns puristas desejarem assim). A língua portuguesa pode ser até uma (no nome), porém são muitas as ditas pelo mundo afora.
Nós, profissionais de Letras, cometemos os nossos errinhos (acredito até que o Bechara, Celso Cunha e o Pasquale também) e, se somos exigentes, é apenas com a própria fala ou escrita. Não dá para ser 100% o tempo todo e nem carregar uma gramática e/ou um dicionário inteiro na cabeça. A memória falha, o esquecimento vem...
O que importa então é a expressividade da língua e também a capacidade e responsabilidade de comunicar uma informação para evitar mal entendidos. Pense sempre onde você está (numa palestra, num boteco, numa reunião da empresa?) e quem é o seu interlocutor (o chefe, o melhor amigo, um recrutador de RH?) e, se for necessário, procure utilizar o máximo daquilo que você conhece sobre a língua em sua forma padrão.
Já a escrita possui uma rigidez maior e nela, na maioria das vezes, você terá que redigir um texto seguindo as normas ortográficas, além de se ocupar com a coesão e a coerência de suas ideias e outros aspectos textuais. No texto escrito um “erro” não tem como ser consertado e fica registrado aos olhos do receptor da mensagem (a não ser que ocorra uma revisão rigorosa anteriormente).
Então, caros leitores, relaxem conosco e consigo mesmos. Para evitar qualquer constrangimento, não custa nada recorrer a um velho hábito que ajuda bastante a melhorar nosso convívio com a complexa língua portuguesa e a dominá-la, além de ampliar o conhecimento de mundo e das pessoas ao redor: o hábito da leitura. Aposto que as dúvidas e o receio de usá-la de uma maneira plena vão diminuir consideravelmente a partir do contato frequente com os livros.