13 de julho de 2017

A culpa

Marcos Oliveira/Agência Senado

Não culpem os patos, não culpem as panelas. Não culpem o PT. Nem Dilma e nem Lula. Não culpem a esquerda e nem a direita. Nem Temer, nem Maia e Renan, nem Cunha. Não é responsabilidade sequer do Senado ou da Câmara. Vamos isentar nossos governadores e prefeitos também. Da mesma forma não vamos apontar os dedos para a elite e nem para os pobres (e a classe média que transita física e psicologicamente entre os dois extremos). O motivo dessa bagunça toda é mais ancestral, mais arraigado do que imaginamos. Impossível não vislumbrar o hoje sem olhar retrospectivamente. Não me proponho um estudo histórico-sociológico para não gerar bocejos, já basta a educação básica que causa essa reação, além da pior indiferença. Sugiro esta viagem no tempo para que juntos pensemos em que momento da vida brasileira tudo se perdeu inexoravelmente. Não, não foi com o pedido de impeachment, como os esquerdistas pretendem afirmar. Não, não foram as marchas de junho de 2013 que a direita cooptou. FHC, Itamar, Collor, Sarney, Diretas Já, Ditadura? A quem responsabilizamos este verdadeiro imbróglio político de consequências catastróficas? Quem, meu Deus? Jesus Cristo? Noé? Adão e Eva? O Big Bang? Onde estou querendo chegar? Nada mais original que a própria explosão que deu início ao que somos (nada mais propício do que um meteoro para dar fim aos dinossauros que ainda restam aqui no planeta Terra). Pois ela permitiu a criação do universo e, consequentemente, o homem em meio de sua vastidão, e em meio ao homo sapiens, o brasileiro, com seu jeitinho, seu sorriso inatingível, sua mania de rir da própria desgraça e continuar seguindo com a sua existência como se nada tivesse acontecido. Hum, avancei bilhões de anos novamente... Recuar mais para quê? Se em meu país, voltamos no tempo através das leis e das medidas provisórias? Leis que logo nos reduzirão novamente aos nossos antecessores, às gerações anteriores, até virarmos átomos, nêutrons e outras partículas ainda menores, nos recolherão cativos das nossas próprias necessidades de sobrevivência. De quem é a culpa? Pergunta retórica que aponta para múltiplas direções às quais é inevitável não ficarmos desnorteados. Distribuamos a culpa então, inclusive um pouco para mim e para você. O problema é saber o que faremos daqui para frente...

10 de julho de 2017

Por quanto tempo?


Por quanto tempo eu tenho que esperar a poeira baixar para as coisas melhorarem ou simplesmente mudarem de forma? Por quanto tempo eu tenho que esperar a revolução acontecer e, se eu mesmo faço a minha própria rebelião, de onde devo arrancar tanta coragem para tal? Por quanto tempo eu tenho que esperar a brisa ir embora, e tudo ao meu redor parar de girar em torno do meu próprio eixo, sou planeta Terra em translação ou rotação? Ainda há tempo para aguardar? O relógio prossegue na sua contínua tortura psicológica. Amanhece e anoitece, faz um frio e não sei se é possível esquentar-me por dentro.  Nada, nem sequer a vodka com sua chama temporária. Por que tanta pressa, tanta urgência? Os dias passam, as férias acabam e o ano se encerra, tanto por fazer, tanto por querer, muito por adiar. E lá fora? Ainda o gelo, ainda a indiferença, espero o momento certo para sair. Por quanto tempo eu tenho que esperar para sair? Mesmo que eu tenha que congelar ao frio, mesmo que tenha que apenas contemplar a paisagem. Gris cenário, monocromática fauna, arquitetura plana, elevada poeira para ânimos rasteiros, poeira assentada por ânimos inflados. Respostas escondidas. E as perguntas impunemente soltas no contexto. 

5 de julho de 2017

Na Estante 76: A comédia humana - Vol. 4 - Estudo de costumes - Cenas da vida privada: O pai Goriot, O coronel Chabert, A missa do ateu, A interdição, Contrato de casamento, Outro estudo de mulher (Honoré de Balzac)


Livro: A comédia humana - Vol. 4 - Estudo de costumes - Cenas da vida privada (O pai Goriot, O coronel Chabert, A missa do ateu, A interdição, Contrato de casamento, Outro estudo de mulher)
Autor: Honoré de Balzac
Editora: Globo
Ano: 2012
Páginas: 768

É inquestionável a importância de Honoré de Balzac para a literatura universal e ao gênero romance em particular. O romance realista tal e qual nós conhecemos é credor das contribuições de Balzac que ainda hoje faz escola e influencia diversos escritores. Cheguei a esse quarto volume de A Comédia Humana por intermédio de um texto de Roberto Schwarz sobre o livro O Pai Goriot. Schwarz ressalta, no ensaio Dinheiro, memória, beleza (O Pai Goriot), que, antes de tudo, a personagem principal de todas as histórias de Balzac é a própria Paris do século XIX, uma entidade viva e onipresente nas obras escritas pelo francês. Paris, como toda grande capital do mundo, traga os seus moradores ao meio do seu redemoinho social, corrompe, retira quaisquer resquícios de inocência que impede a possibilidade de integração total. Sendo o dinheiro também um elemento unificador de todas as histórias desta série. O ensaio despertou a minha curiosidade e como um Balzac só não é suficiente (a minha intenção era ler apenas O pai Goriot), acabei sucumbindo às outras narrativas que compõem o volume 4  da Comédia Humana.
Por ser um escritor prolífico (Balzac redigiu dezenas de livros ao longo de sua vida) é natural que nem todas as narrativas atinjam um grau de perfeição e este volume também não escapa à irregularidade das histórias. Claro, O Pai Goriot se destaca como uma das maiores obras-primas balzaquianas. A triste e trágica história do Sr. Goriot, um ex-empresário que mora numa pensão decadente, vive num mundo recluso e abnegado, dedicando-se com cega devoção a suprir os caprichos das suas duas filhas, Delphine de Nucingen e Anástacia de Restaud, que estão ascendendo socialmente com bons casamentos, mas exploram o pai financeiramente e o apartam de seu círculo. Na Casa Vauquer circulam os mais diferentes tipos, entre eles, Eugène de Rastignac, jovem que veio do interior para cursar medicina e sente um desejo irrefreável de adentrar na alta sociedade parisiense e acaba tornando-se amante de uma das filhas de Goriot.
Destacam-se também neste livro O Coronel Chabert, onde um oficial dado como morto retorna e percebe que sua presença, ao invés de despertar comoção e felicidade, torna-se um grande problema e incômodo, principalmente à esposa dele. Melancólica, A missa do ateu é uma história curta e comovente sobre fé, respeito e a luta diária de quem busca viver e sobreviver e vencer numa metrópole como Paris.
Balzac é necessariamente cruel ao não abrir concessões no retrato destas personagens às voltas com o egoísmo, a mesquinhez, a ambição, dispostas a tudo para conseguir o que desejam e assim conquistar espaço na já tão disputada alta sociedade, dos quais poucos de fora adentram e resistem, conseguir essa passagem consentida pelos aristocratas significa abrir mão de muitos valores como o próprio Eugène de Rastignac, de O Pai Goriot, o faz.
Em A Comédia Humana muitas personagens aparecem em outras histórias, cruzam-se, citam umas às outras , como velhos conhecidos e acabam o sendo de alguma forma para o próprio leitor que diante do vasto painel de uma sociedade entre fascinante e decadente precisa tomar cuidado para não se perder e ser também corrompido. A Paris de Balzac tem esse poder revelador, Paris que Balzac, num misto conflituoso e contraditório de sentimentos, tanto amou e imortalizou com a sua pena.