11 de junho de 2017

Elogio do X9


Ser chamado de cagueta, na minha infância, era algo depreciativo. O dedo-duro, o X9, coisas desaprovadas num grupo social. Se você dedurava alguém, estava traindo uma pessoa ou o coletivo, não sendo leal. Tornava-se um ser indigno de confiança. Não caguetar alguém era um código de honra. Num Brasil atual de delações premiadas é com receio que devemos receber as inúmeras denúncias das rotineiras Lava-Jatos e CPIs? Por alguém voltar-se, sob a pressão da justiça, contra uma conduta tão instituída e estabelecida socialmente? Mas e os desmandos e a corrupção por trás disso? E os acordos que se conseguem por revelar nomes, falcatruas, esquemas, propinas? E as consequências para os envolvidos? E chegamos ao momento em que delatar é bom, pois a sujeira é mostrada, mesmo sabendo que ela sempre esteve ali oculta porcamente por debaixo do tapete, numa absurda redundância. Nem podemos nos enganar com as boas intenções de quem aponta os dedos, pois quem faz as tais delações acaba se beneficiando com as regalias e atenuações de penas que o ato e o judiciário incentivam e garantem, quase numa espécie de elogio do X9. As delações não agregam novidade, afinal o clima é de um salve-se quem puder e como puder, não importa quem caia nesse momento. Agarra-se ao bote durante o naufrágio e larga-se o restante em meio ao oceano congelante. Devemos ficar contentes quando estas notícias expõem o fedor da política brazuca? Essas citações que pululam e crescem como fermento no pão e no bolo e parece que apenas servem para pôr mais lenha à fogueira, que logo será apagada por uma chuva providencial, mantendo as coisas como estão. Afinal a justiça é cega e manca, unilateral, protecionista e aliada daqueles que circulam onipresentes entre as inúmeras denúncias insolucionáveis que esbarram na má vontade e burocracia e nos interesses além da nossa compreensão. Delações estanques que revelam o podre, mas nos forçam a conviver com o odor insuportável do chorume até o tornar-se costume, até tudo parecer normal.

28 de maio de 2017

Na Estante 74: À espera dos bárbaros (J. M. Coetzee)



Um Magistrado responsável por um vilarejo pertencente a um Império sem nome definido. O Magistrado tem contato com o Coronel Joll, que surge para investigar uma possível ameaça de um ataque dos bárbaros. Esse militar utiliza-se da violência e da tortura contra as pessoas levadas presas para arrancar informações importantes e úteis (muitas vezes com resultados pífios ou fatais). O Magistrado tem sua rotina de simples afazeres abalada ao abrigar em sua casa uma mulher bárbara que mendigava pelas ruas da vila, cuja perna está deformada devido às sessões de tortura que sofreu outrora. Logo os dois se envolvem num jogo sensual-afetivo pouco definido e concretizado entre eles.
A oposição barbárie-civilização é um tema recorrente na obra de J. M. Coetzee. À espera dos bárbaros explora a problemática da colonização europeia, o preconceito contra a população nativa dos países invadidos/governados pelas metrópoles. Coetzee situa a narrativa do romance num país não identificado, mas que guarda semelhanças com muitos dos locais dominados à força bruta e ao custo de muito sangue derramado pelas mãos das nações ditas civilizadas, numa simbologia da própria África do Sul e do continente africano em si. O escritor sul-africano borra as fronteiras da realidade numa escrita quase alegórica refletindo o drama das nações espoliadas e da população original dizimada pela ação dos colonizadores  e expulsa de seu próprio território.
J. M. Coetzee dá voz a esse magistrado, que vê-se estupefato e impotente em relação aos desmandos do Império cujas leis ele próprio defende e representa, diante da maneira arbitrária e despótica com que trata a população bárbara, uma inversão de lógica e valores. Quem é o verdadeiro bárbaro naquele cenário? O que não adquiriu determinada cultura ou pertence a uma elite ou potência? Que vive primitivamente ou alimenta hábitos rudimentares? Ou aquele que recorre à selvageria da tortura, do mau julgamento, que se põe acima dos demais? Que mata grupos inteiros, estupra e invade terras alheias? À espera dos bárbaros (cujo título evoca um famoso poema do poeta grego Konstantinos Kaváfis) é antes de tudo uma denúncia contra a prepotência humana e suas atitudes atrozes em nome de uma expansão territorial e da manutenção do poder.


7 de maio de 2017

Do lado de fora


Entre a esquerda e a direita, um abismo. Depressão que se expande e traga. Traga uma cerveja, um champanhe, para celebrar este nada, este zero! Traga tudo para dentro de si, imploda aquilo que ainda resta como alicerce. Se quisesse iria para Cuba ou Miami? Se pudesse me estabeleceria na balbúrdia, já que o elitizado é só repudio e desaprovação. Fora! Tem! Ermo! Dentro! Livro! Me! Um bocado de cultura, um pouco de vergonha pelo entorno brasil. A realidade é surreal, inacreditável é a notícia disseminada, os planos do planalto, assalto do direito pelo destro e o canhoto. Capiroto solto, louco pelo descrédito do inferno diante do que aqui faz-lhe concorrência, com o despótico da história, o arbitrário do estabelecido. Como os livros contarão esses dias? Restarão livros para tamanha ignorância? Ignoro os avisos e aceito convite para bares e afins, para dar um trago. Trago comigo o embargo, aquele amargor que não é o da cerveja trincando. Amargor de fim de festa a qual sequer fui convidado. E que eu seja assim persona non grata, nem penetra, nem VIP. Só aquele que assiste a tudo bebericando um café, tomando umas com a maldita companhia, apenas observando... do lado de fora...