25 de setembro de 2016

A (des)esperança que vem das urnas


Vote na mudança. Para a cidade melhorar. Um candidato honesto. Escuto estes e outros chavões nos carros de som que proliferam nas ruas carapicuibanas e na propaganda eleitoral obrigatória da televisão. Todos os candidatos vendendo-se como o novo, usando, para tal, discursos requentados que datam dos tempos de Pedro Álvares Cabral. Talvez os nossos descobridores tenham dito isso aos indígenas que encontraram: “Nós somos uma nova esperança para a terra de vocês. Chegou a hora da mudança para a sua tribo melhorar, somos uma alternativa para tudo que está aí!!!”, pena que não constam estes diálogos nos autos, nas cartas e crônicas oficiais daquela época para confirmarmos esta minha teoria esdrúxula. E dá-lhe bordões que não colam, jingles chupinhados de hits populares do sertanejo universitário ou da música brega que por si só já são bem ruinzinhos. Desde quando eu era pequeno ouço meus pais reclamarem dos políticos, vibrei com o impeachment do Collor sem ter a menor noção do que era. Lamentei o impeachment de Dilma compreendendo a sujeira das engrenagens que conduziram o país a esta decisão. Cresci e as queixas em relação à política continuam. Parece que política e corrupção são palavras-irmãs-gêmeas, estão intrinsecamente unidas e não há nada a fazer para sanar esta situação, nem ninguém que queira alterar o status quo, pois uma vez dentro do jogo terá que seguir as regras escusas. A raiz está podre e o que brota de podridão não pode ser bom também. E bater panela, partir em procissão pelas avenidas, queimar pneu, brigar e destilar seu ódio ou tentar o diálogo ou o esclarecimento nas redes sociais, depor uma presidente eleita pela decisão do povo serão a solução para que a corrupção deixe de ser inerente, imanente e coerente com a prática política? Mas não esqueçamos é que se ela permanece uma realidade é porque nós, através do voto, perpetuamos este quadro desolador. Será o voto das próximas eleições o salvador da pátria desta vez ou o empurrão que faltava para chegarmos ao fundo do poço? Temo que a segunda opção seja a resposta exata para o que nos aguarda como cidadãos e trabalhadores...

19 de setembro de 2016

Na Estante 63: Lorde (João Gilberto Noll)


Livro: Lorde
Autor: João Gilberto Noll
Editora: Record
Ano: 2014
Páginas: 128

A literatura é pródiga em histórias tristonhas, de caráter depressivo, com personagens em busca de si mesmos ou em fuga deles próprios. Eu, como leitor mazoquista, adoro atravessar estas páginas cheias de conflitos, muitos deles mal ou não resolvidos, deixando o leitor em suspense ou angustiado com o conteúdo das páginas. Lorde, de João Gilberto Noll, não foge a estas parcas definições e ao mesmo tempo se liberta de tais enquadramentos. Ao contar a estória de um escritor convidado por uma instituição inglesa a viajar a Londres, o leitor se defronta com um narrador-protagonista que demora a se situar no local, a entender o que fará naquela cidade estrangeira onde estranhamente sente-se mais a vontade do que em sua terra natal (Porto Alegre) e é neste lugar que vemos o personagem flanar pelas ruas londrinas, cruzar com outros homens que, por sua vez, podem ser interesses sexuais, refletindo sobre sua vida pregressa e os rumos que ela pode tomar enquanto também padece doente no apartamento onde está instalado ou procura um parco conforto numa base maquilante que passa no rosto ou numa tintura que colore o seu cabelo e dá-lhe uma impressão vaga de jovialidade e um aspecto equivocado de um dândi em terra alheia. Ao que parece o escritor já estava em crise e a sua estadia na Inglaterra apenas deflagrou-a novamente ou agravou-a em mais um estágio, ao mesmo tempo esta crise psicológica significa a libertação para ele e o alcance de uma tênue serenidade em sua vida. Lorde pode até enfadar o leitor com algumas passagens onde o narrador disseca a si próprio sem maiores rodeios, provavelmente seja esta a intenção de Noll ao desenvolver seu romance, apenas pretendendo compartilhar o inferno de sua personagem com aquele que o lê e instigando-o a procurar novas pistas sobre o protagonista nas páginas deste romance incomum e, por isto mesmo, único.

7 de setembro de 2016

Vomitaço


Uma situação bastante desconfortável é o enjoo que nos ataca o estômago (geralmente devido a algum alimento, doença ou excesso de bebida) e uma das situações mais degradantes é quando, finalmente, chegamos ao ato em si, a agonia de expelir via oral aquilo que nos incomodava ou nos fazia mal. Hoje concluo que as pessoas ou escolhem remoer seus embrulhos estomacais até mais não aguentar ou não pensam duas vezes lançar boca afora, à maneira de Regan em O Exorcista, o que está a embolar-se dentro da barriga. Hoje eu recorro ao vômito...
Vomito os problemas que me oprimem no trabalho, as dificuldades no trato com os alunos, os desafios que quase sempre resultam em decepção.
Vomito a situação política e todo o futuro incerto que se instala aos nossos olhos e o alheamento de boa parte da população que continua seguindo seus caminhos como se nada de extraordinário tivesse acontecido.
Vomito toda a inaptidão para conciliar as coisas e a preguiça que impede de concluir outras e a mania de culpar sempre o tempo.
Vomito os livros que li e aquele monte que se empilha e aguarda uma atenção mínima ou a primeira leitura.
Vomito os planos não concluídos, aqueles frustrados, e os que não cansam de povoar a mente e que ainda me enchem de novas esperanças.
Vomito literalmente porque exagerei um pouco nos fermentados ou destilados, vomito por encarar o produto na privada que é tão nojento quanto à própria realidade. No entanto esse vômito é algo natural, natural como a nossa existência.
Vomitar vai ser o meu grito de independência!