17 de julho de 2016

Na Estante 62: Toda Poesia (Paulo Leminski)


Paulo Leminski é um dos poetas brasileiros mais pop do século passado. Tem seus versos frequentemente citado pelas redes sociais, sua antologia de poemas, Toda Poesia, publicada pela Companhia das Letras, foi um grande sucesso de vendas que apenas demonstra o apelo popular deste artista curitibano que marcou a poesia brasileira contemporânea com humor, concisão e um domínio com as palavras que ora flertavam com a aparente simplicidade, ora com a erudição e o alto domínio do fazer poético.
Toda Poesia reúne todos os trabalhos de Lemisnki publicados em vida e alguns textos inéditos, organizados por sua esposa Alice Ruiz, além disso, traz textos escritos por José Miguel Wisnik, Caetano Veloso, Haroldo de Campos, Wilson das Neves e a própria Alice Ruiz sobre a estilística e a poética desse escritor que morreu precocemente em decorrência de uma cirrose hepática, mas cuja voz não silenciou e os ecos ainda se escutam por aí, nunca sem perder a frequência.
A leitura de um livro de poemas é sempre um convite à releitura, é um ato que não se esgota em si, do primeiro ao último verso, ainda mais com Leminski que parece brincar e se divertir com a linguagem usando e abusando dos trocadilhos, das aliterações e assonâncias, das metáforas nunca convencionais tirando a palavra de seu estado literal para outro nível de entendimento. Além disso, Leminski foi um dos grandes divulgadores das formas breves como o haikai, texto tradicional japonês que ele dominou como poucos também.
Em meio a tanto pedantismo no meio literário, Leminski é tudo menos careta, até mesmo quando flerta com a poesia mais tradicional, incorporou a filosofia beatnik, o Tropicalismo, não se levando a sério, mas levando o seu ofício de produzir poesia com esmero, não com o peso da obrigação ou predestinação, mas com a leveza e o prazer do lidar com as palavras que isso traz.

10 de julho de 2016

Spoiler-vida


A vida é um grande spoiler. Um final que por todos é sabido. Desde quando damos as caras neste mundo velho sem porteira que a data da nossa season finale está definida. Às vezes vivemos temporadas curtas, temporadas longas; somos sucesso de público, mas não de crítica, somos unanimidade crítica e sequer temos audiência, às vezes a exibição acontece num horário obscuro sem que ninguém nos note. Vivemos uma comédia com uma claque surda de se ouvir, choramos os mais diferentes níveis de dramas, em alguns momentos a vida é um procedural investigativo, um suspense ou está repleta do mais puro horror. E haja imaginação para tanta fantasia, tantos monstros e seres extraordinários para suspender a realidade, aliviá-la ao menos. Quando será cancelada essa série que, por mais aparentemente insignificante que seja, sempre tem um espectador à espreita, ansioso dos novos acontecimentos, dos plot twists que transformarão por completo a vida daqueles personagens? Como virá este cancelamento? Por meio de uma morte natural, tranquila, na cama? Pelas mãos vis e assassinas de um ser homicida? Através de uma doença que conseguiu superar todas as nossas defesas? Causado pela bala irresponsável de um policial que se confundiu mais uma vez no exercício de sua função? Ou porque algum escritor/roteirista invisível o quis? Que mão inefável conduz tantas figuras importantes ao seu destino inexorável, que tempera com melodrama, clichês, estilo e experimentação as trajetórias diversas pelo mundo. O maior spoiler de nossas existências é a morte e por mais que já prevíssemos tal fado ainda nos assustamos com ela, nos surpreendemos com a sua iminência. Fácil é nos preocuparmos com o que vai acontecer no próximo episódio de nossa série favorita, desta forma esquecemos os nossos destinos por quase uma hora ou mais, até que a óbvia figura venha fazer uma visitinha de última hora...

5 de julho de 2016

Na Estante 61: O homem duplicado (José Saramago)


Livro: O homem duplicado
Autor: José Saramago
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2008
Páginas: 288

Há muito tempo que li Ensaio sobre a cegueira, uma das obras mais conhecidas de José Saramago, e me recordo que o livro me incomodou e me conquistou bastante. Também tentei naquele tempo, com pouquíssimo sucesso, ler Memorial do convento, leitura abandonada após algumas páginas, porém entendo que ainda faltava-me certa maturidade (ou um pouco mais de repertório) como leitor. Ainda pretendo reler Ensaio sobre a cegueira, não cogito ainda reencontrar as páginas de Memorial do convento, porém o que me levou à leitura de O homem duplicado não foi sequer a fama e a qualidade do único escritor em língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura, mas a necessidade de assistir justamente à sua adaptação para o cinema, aquela com o Jake Gyllenhaal. Ler o livro antes de verificar como ele foi transposto para a telona.
Saramago retoma um assunto clássico da nossa literatura que é o duplo. Dostoievski já o abordou no romance O duplo, Borges também escreveu o conto O Outro e muitos devem se lembrar de William Wilson de Edgar Allan Poe que resgata a quase mesma situação: a de um personagem que encontra um homem semelhante a si. No caso do romance do escritor português este fato misterioso ocorre com o professor de História Tertuliano Máximo Afonso que descobre a existência de um homem idêntico a ele em idade e feições após assistir um filme em sua casa, uma comédia leve recomendada por um colega de trabalho. Surge daí uma verdadeira obsessão para descobrir a identidade desta pessoa, que é um ator em discreta ascensão. Além disso, Tertuliano é um homem divorciado e vive um romance titubeante com uma bancária com quem ele não deseja um maior envolvimento.
Temos a presença também de um narrador onisciente em 3ª pessoa que faz questão de interferir no enredo que está contando para fazer diversas digressões e ironias a respeito da História, da natureza humana ou para observar os rumos das personagens que fazem parte da trama. Além disso, já é uma marca estilística de Saramago fazer o uso de vírgulas ao longo do texto, onde diálogos (alguns deles acontecem entre o protagonista e o “senso comum”, que tenta dissuadir Tertuliano de algumas decisões e propiciam alguns ótimos momentos) e considerações se misturam no parágrafo, recurso que confunde muitos leitores menos afeitos à prosa de Saramago ou que o estão lendo pela primeira vez, mas que não se torna um impeditivo com o correr das páginas (Saramago recomenda que leiam os textos dele em voz alta para que não haja confusão com o uso das vírgulas).
A perplexidade da possível existência de alguém parecido com você (praticamente uma cópia) que pode dar novas possibilidades a sua existência, a possibilidade da troca de identidade ou da perda da própria. Um “eu” sempre em jogo e em risco de esvair-se, desfigurar-se diante de tantas necessidades, diante da prisão de uma vida social (que envolve o trabalho, um relacionamento amoroso, a família, entre tantas coisas) que também contribui com a anulação de si mesmo para que seja ou tenha aquilo que insiste-se em chamar de personalidade, condicionada a tantos fatores subjetivos. 
A prosa de O homem duplicado flerta com este tema, acrescentando mais uma perspectiva ao tema do duplo, que ainda exerce grande fascínio no público literário e ficcional, e possui uma trama interessante e surpreendente com um narrador que muitas vezes rouba a cena da narrativa e torna a leitura ainda mais prazerosa.