30 de abril de 2017

Na Estante 73: São Bernardo (Graciliano Ramos)


Livro: São Bernardo
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano: 2014
Páginas: 270

Lembrar de São Bernardo, de Graciliano Ramos, ou relê-lo, é recordar-me da professora Catarina que deu aula de literatura e língua portuguesa para mim no Ensino Médio. Ela apenas o recomendara como uma das leituras para aquele ano, mas numa conversa em particular, mostrou-se emocionada toda vez que falava sobre este clássico do Modernismo. Instigado pelo componente sentimental do relato dela fiz a minha primeira leitura da obra, a qual eu guardo boas impressões, apesar da imaturidade em compreender as entrelinhas, porém novamente foi a releitura que revelou a magnitude da prosa graciliana. Lá estão novamente a palavra no lugar exato, a concisão de um narrador-protagonista pouco afeito a rebuscamentos desnecessários tão comuns à linguagem literária.
Paulo Honório é um sujeito bruto, ríspido que ambicionou uma vida de conquistas e posses e conseguiu-a aos poucos. Venceu a pobreza, possuidor de um bom tino para os negócios, foi de empregado a patrão adquirindo a fazenda que tanto almejara, a São Bernardo do título, e a administra de maneira austera.
O dinheiro é um elemento que ronda e media a vida de Paulo Honório e sua relação com os empregados, o pequeno círculo de amizades. Mas até o homem mais bronco sente a necessidade de uma companhia e entra nessa equação Madalena, professora com quem Paulo Honório se casa. No entanto a mulher torna-se questionadora dos métodos e ideias do marido, desencadeia um embate com o capitalismo e o patriarcado que o protagonista representa e, consequentemente, desperta os ciúmes dele, ciúmes que a sufocam de uma maneira incontornável.
Se Otelo surgiu como exemplar máximo da temática do ciúme na literatura universal e Dom Casmurro conseguiu ser a grande referência do tema na literatura brasileira no final do século XIX, São Bernardo parece reforçar genialmente essa tradição no século seguinte.
O que comove em São Bernardo é a solidão esmagadora de Paulo Honório seja pela administração à mão de ferro que ele executa na fazenda que possui, seja pela personalidade rústica no trato com as pessoas, afastando-as, seja pelos ciúmes que o levaram a acusar a esposa Madalena de traição. Tamanha isolamento que faz com que essa figura procure uma das mais solitárias atividades do ser humano que é arte de escrever e confessar na forma de um livro, nas palavras do mestre Antonio Candido, sua derrota, a violência que infringe aos outros e a si mesmo. E agora, voltando ao tempo, eu entendo o que pode ter provocado tamanha emoção na minha professora ao simplesmente recordar-se deste livro...

16 de abril de 2017

Nebulosidade


Está tudo nebuloso, impreciso. Um silêncio incomodante, uma paz quando tudo deveria ser caótico. Não entendo a passividade, aguardo o estopim, a faísca necessária para o início do grande incêndio, aquele que porá tudo abaixo, aquele que reduzirá as coisas à cinzas. Tudo que acreditamos, pó. Aquilo que está posto, gás carbônico. A realidade que vivemos, passado. Enquanto isso encontram maneiras de sabotarmo-nos, o golpe preciso e mortal. A rasteira invisível a qual não enxergamos quem, só percebemo-nos em queda. Ou seria suspensão? Ou seria apenas impressão? Sonho? A existência assemelhando-se a um pesadelo. Os monstros do imaginário popular metamorfoseados em seres legislativos e executivos a nos forçar o medo, a nos operar lobotomia, a nos empurrar um prato frio (como vingança. De quê? O que fizemos? Que culpa temos nós?) e podre. Engolindo a seco tudo que se encerra nesse pacote. Anseio pela revolta, mas eu mesmo encontro-me refém da situação, mobilizado pelos afazeres, pelas obrigações, pelos débitos na conta corrente. Tentando caminhar e persistir em meio a tanta névoa, a visão turvada pela neblina. Nebulosidade que me impede (e aos meus também) enxergar além, vislumbrar uma réstia que seja de luz, um fio esperançoso, a trazer luminosidade, a trazer calor, a esquentar os ânimos a tal ponto que, quiçá, uma combustão irrefreável se inicie, enfim, e as chamas se espalhem rapidamente, como num mato seco...

2 de abril de 2017

Na Estante 72: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)



Livro: Memórias póstumas de Brás Cubas
Autor: Machado de Assis
Editora: Ática
Ano: 2002
Páginas: 206

A literatura brasileira não seria a mesma após Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro que inaugurou o Realismo-Naturalismo em nosso país. Dar a voz a um defunto-autor ou autor-defunto não foi a única ousadia do mestre Machado de Assis. O autor de Dom Casmurro poderia muito bem ter caído nas fáceis convenções da escola realista e naturalista vigentes na época, ao contrário, seus trabalhos surgem num patamar acima do que foi produzido pelos seus contemporâneos como Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e Raul Pompeia.
Seu texto nunca recorreu à simples teorização determinista, positivista. Antes de declamar certezas em sua prosa, Machado de Assis prefere a desconfiança e a ironia, o foco é o ser humano no que ele tem de mais contraditório.
Um morto narrando a vida pregressa o faz despir-se de quaisquer compromissos e receios com aqueles que conviveram com ele e Brás Cubas não poupa nem a si próprio nas páginas que tece no além. Criança peralta, jovem esbanjador e preguiçoso, a quem o pai previa um destino glorioso (na Igreja ou na Política), estudante pouco brilhante, adulto afeito à riqueza da família.
Além das inovações formais (o capítulo LV – O velho diálogo de Adão e Eva), momentos oníricos (Capítulo VII – O delírio), Memórias Póstumas de Brás Cubas tem nas digressões bem humoradas a sua principal característica (estilo que permanecerá nos romances posteriores do Bruxo do Cosme Velho) e o diálogo quase frequente do narrador em primeira pessoa com o leitor, aquele que poderia estranhar ou se chocar com algumas das observações feitas ali no romance.
E não podemos esquecer, claro, das personagens. Além do próprio Brás Cubas, temos a prostituta Marcela, primeira grande paixão do protagonista (“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”), Quincas Borba, o louco filósofo e sua crença no Humanistismo (teoria que é uma sátira velada aos ideais naturalistas) e Virgília, que surge como o principal interesse amoroso de Brás Cubas e com quem ela mantém um relacionamento extraconjugal (“Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera.”), mais uma que entra para a galeria das grandes personagens femininas machadianas.
No romance, que mistura em seu subtexto uma observação das relações sociais do Brasil no século XIX (o Brasil escravocrata, o Brasil Império), Machado de Assis aperfeiçoa com primor o projeto de uma literatura brasileira, com personalidade e voz própria, iniciada no Romantismo (principalmente com a obra de José de Alencar), abrindo caminho para tornar-se o nosso autor mais representativo.