30 de agosto de 2010

A humanidade sutil de Se Nada Mais Der Certo e É Proibido Fumar


    Dois dos melhores filmes brasileiros do ano passado têm em comum, a cidade de São Paulo como cenário e o retrato de pessoas com que facilmente cruzaríamos na rua ou no transporte público para ir ao trabalho, por exemplo. Esta é uma das melhores características dos longas Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte, e É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, a construção de personagens verossímeis e a cumplicidade inesperada que surge entre elas.


    A cidade de São Paulo é uma personagem à parte no último filme de José Eduardo Belmonte (A Concepção). Uma cidade grande que tanto fascina as pessoas e também pode tragá-las num redemoinho quando não estão preparadas às suas mil facetas e armadilhas. Sobreviver nesta cidade não é fácil e é esta dificuldade de sobrevivência que é retratada com extrema sensibilidade neste belo drama. Personagens perdidos em seus sonhos e desejos que vão de encontro com a realidade sempre maior e implacável e que os empurra a situações extremas como o crime, a depressão, o vício, etc. E não sobra nada neste lugar a não ser confiar na solidariedade alheia, no apoio de amigos, conhecidos, empregados ou estranhos, num abraço ou conversa furada de bar, regada a cerveja e cigarro. O filme versa sobre solidariedade e o risco que cada escolha nossa pode trazer, onde não é mais possível voltar atrás em qualquer decisão e um pequeno erro pode ser trágico. É em todo este cenário que o jornalista Leo (Cauã Reymond, num papel diferente do que estamos acostumados a ver na televisão e em atuação competente) encontra-se. Desempregado, vive de bicos mal remunerados, isto quando são pagos, cujo caminho acaba cruzando com o do taxista Wilson (João Miguel) e o traficante Marcín (Caroline Abras), que unem-se para uma série de golpes. Não é novidade dizer onde esta situação toda vai parar, o mais importante é presenciar como cada personagem vai reagir. Leo, além das contas a pagar, tem que cuidar de Ângela (Luiza Mariane), em tratamento de vício de drogas e que possui um filho e vive em crise de depressão, ela mete-se numa confusão com a travesti Sibele (Milhem Cortaz), fato que desencadeia o encontro do jornalista com Wilson e Marcín. Pouco sabemos sobre estes personagens, as condições psicológicas de Wilson, a identidade sexual de Marcín. É o relacionamento amistoso, frustrante, solitário e tenso entre o trio que dita o clima e aumenta a expectativa sobre a trajetória destas pessoas no decorrer do filme.


    Baby é professora de violão, Max, cantor de churrascaria. Baby adora Chico Buarque, Max é fã de Jorge Ben. Ele torna-se seu novo vizinho, ela apaixona-se à primeira vista. Ele gosta de citar a ex-esposa em suas conversas com a atual vizinha/namorada, ela é obcecada pelo sofá deixado de herança por sua falecida tia que está sob a custódia de sua irmã. A vida de Baby muda completamente. Outrora, viciada em cigarro, sem vaidades, solitária (onde uma de suas irmãs vive lembrando que a solução de seus problemas é a irmã arranjar um marido), Baby passa a depilar-se e decide parar de fumar a pedido de Max, sem deixar de lembrar-se de seu sofá de vez em quando. Tudo vai muito bem, até que gemidos de mulher, que parecem vir do apartamento de Max, fazem com que Baby morra de ciúmes e suspeite que o namorado a esteja traindo. É Proibido Fumar repete a lógica do filme anterior de Anna Muylaert, Durval Discos, e a estória, divertida de início, traz um lado B, mais obscuro, onde um incidente muda o rumo da trama, sem carregar demais nas tintas sombrias, demonstrando ainda um pouco de frescor, graças, principalmente, à atuação entregue e sincera de Glória Pires, em seu melhor papel no cinema, e Paulo Miklos, ambos simples e complexos em suas atitudes e no tom exato de suas interpretações. Anna Muylaert não opta por soluções fáceis e deixa claro a dubiedade das ações das personagens, que agem de forma muito diversa daquela que esperaríamos quando deparam-se com a verdade dos fatos que ocorreram até então.


    A identificação nestas estórias surgem de cenas singelas como Leo, Wilson e Marcín cantando suas músicas favoritas numa praia, ou dançando colados num apartamento ou comemorando o sucesso de um golpe num bar fuleiro em Se Nada Mais Der Certo. Ou, como Baby chorando, pois queria comer novamente o bolo que foi feito no seu aniversário de infância, coisa que não será possível pois sua tia morreu e não passou-lhe a receita, sendo homenageada por Max que canta a clássica Baby de Caetano Veloso e logo é interrompido pelo dono da churrascaria que pede-lhe que o mesmo toque samba ou Baby brigando com a irmã em seu emprego por causa do sofá e usando de todos os palavrões possíveis num ato de raiva em É Proibido Fumar.



    Tanto no trabalho de Belmonte quanto no de Muylaert, temos o retrato de personagens solitárias, que sentem-se deslocadas na sociedade (ou são marginalizadas pela mesma) e no tempo, esperançosas de que a vida ainda fará com que as coisas que planejam fazer deem certo, retratos humanos antes de tudo, sem julgamentos prévios de seus realizadores e intérpretes, o que facilita a compreensão do público sobre as suas escolhas, mesmo que não justificáveis a um certo ponto. Pois todos somos passíveis de erros, mancadas e buscamos, mesmo que inconscientemente, o apoio, a amizade e o amor alheio. No fundo, todos buscamos a nossa própria felicidade e Se Nada Mais Der Certo e É Proibido Fumar são retratos bem sucedidos desta nossa eterna busca.

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