26 de agosto de 2010

Sobre as novelas


Patrícia Pillar e Cláudia Raia, protagonistas de A Favorita

    A lembrança mais remota que tenho da infância é a de estar em frente à televisão acompanhando mais um capítulo de alguma novela. Antes mesmo do cinema e da literatura, acredito que foram os folhetins que despertaram em mim esta vontade de escrever e de criar estórias. Do interesse pelas novelas, nasceu a paixão por uma arte mais sofisticada e completa em si, que era o cinema, além de ter me direcionado para a complexidade da literatura em busca de um aperfeiçoamento na escrita. Novelas sempre tiveram o preconceito de grande parcela dos artistas, principalmente os de cinema e até entendo sua repulsa, por ser uma obra aberta que sofrerá alterações e interferências dependendo da aprovação do público e da audiência, a novela é um produto como qualquer outro (assim como o filme, o livro, o CD, até os artistas mais românticos de sua arte sabem muito bem disso). Afinal, quantos clichês, quantas personagens estereotipadas, estão espalhados nas tramas rocambolescas que apenas repetem-se à cada novo programa, são sempre as mesmas situações: o casal apaixonado cujo amor é impedido por diversas questões, por serem de classes sociais diferentes, por vilões maquiavélicos, núcleos de pessoas ricas, núcleos cômicos (geralmente representado por personagens pobres), etc.
    No entanto, admiro os autores de todas estas tramas, se para um roteirista de cinema é dificílimo manter a atenção do espectador durante uma hora e meia ou mais num filme, imagina fazê-lo importar-se com personagens durante meses e meses de exibição. É preciso ter um total domínio da narrativa do que quer contar na tela da TV e de estar preparado a urgentes mudanças se isto for exigido em seu decorrer. Se formos pensar o que faz da novela um produto de sucesso tão longevo, iríamos ficar por horas e horas e poucas respostas concretas teríamos, remontaríamos aos primórdios do romance no século XIX quando as estórias eram publicadas em capítulos, os famosos folhetins, em jornais de grande circulação. O mesmo questionamento pode ser feito em relação ao cinema, quando o público ainda não perdeu interesse por uma arte centenária.


Logotipos das novelas Vamp, O Cravo e a Rosa e Força de Um Desejo

    A novela que marcou a minha infância foi Vamp (1991/1992), de Antonio Calmon, com a Cláudia Ohana interpretando a cantora vampira Natasha e Ney Latorraca, impagável como Vlad. Apesar de ter sido autor deste trabalho divertido e trash, Antonio Calmon não é um dos meus autores favoritos. Benedito Ruy Barbosa, com suas tramas rurais e de época presenteou a televisão com duas históricas primeiras fases e belíssimos finais de novela: de Renascer (1993) e O Rei do Gado (1996/1997), ambas contando com o auxílio luxuoso do inovador diretor Luis Fernando Carvalho. Lembro de ter gostado bastante de O Cravo e a Rosa (2001), do Walcyr Carrasco, com personagens simpáticos, situações burlescas e de pastelão à moda antiga, também é o único trabalho dele na Rede Globo digno de nota, ele faz apenas repetir os mesmos tipos da novela que o consagrou em outras estórias, até mesmo nas tramas urbanas que escreveu para o horário das 19 horas. O último trabalho que lembro ter acompanhado com muito interesse foi o trunfo de João Emanuel Carneiro, a surpreendente A Favorita (2008/2009). João inverteu os códigos da tradicional teledramaturgia, não definindo qual das protagonistas era a vilã e assassina da estória e, quando resolveu fazer a revelação, chocou o público optando pelo menos óbvio: a antagonista era Flora (Patrícia Pillar), aquela que tinha tudo para ser a mocinha mais comovente dos folhetins e a TV ganhou uma de suas grandes e mais divertidas vilãs.

Gilberto Braga, autor de clássicos como Dancin' Days e Vale Tudo

    João Emanuel Carneiro, que vem também de uma bem-sucedida carreira como roteirista de cinema, deve ter aprendido muito com Gilberto Braga, outro mestre dos folhetins tupiniquins. É dele a autoria de Vale Tudo, clássica novela, talvez uma das maiores de todos os tempos, que não cheguei a assistir, infelizmente, mas somente as alusões que especialistas fazem dela, já é uma referência imediata. Braga escreveu uma novela de época que empolgou-me por completo, a trama romântica de Força de Um Desejo (1999/2000), que foi pouco vista e teve pouca repercussão. Uma pena, pois poucas vezes vi personagens tão bem construídos, numa trama tão engendrada como esta na televisão. Braga (que baseou-se em sinopse escrita por Alcides Nogueira) remete ao folhetim tradicional cheio de reviravoltas, que apesar de passar no século XIX, era movimentada, perder um capítulo significava perder-se na estória, pois muita informação acontecia em cada um de seus episódios, como não esquecer de um elenco magnífico com Paulo Betti, Reginaldo Faria, Cláudia Abreu (sempre roubando a cena), Isabel Fillardis, Louise Cardoso, Nathalia Thimberg (magnífica como a vilã Idalina), Cláudio Correa e Castro, Selton Mello que chegava a ter maior sedução que ao casal protagonista formado por Malu Mader e Fábio Assunção, sem que percamos o interesse pelos mesmos. Gilberto Braga é uma das minhas grandes referências em televisão, um autor com pleno domínio das técnicas narrativas que cria personagens e tramas como poucos o fizeram na telinha.
    Bem, deixemos os preconceitos de lado, há muito que se aprender com os autores de televisão, coisas a considerar e aplaudir e coisas que aprendemos a não fazer em nossos próprios trabalhos (este último em maior escala, pra falar a verdade). Se você quer ser um escritor deve estar aberto a todos os tipos de mídias disponíveis, tanto a TV, como o cinema, como a literatura, o teatro, etc. e não subestimar nenhuma delas, procurando entender o mecanismo que fazem destas artes um sucesso até hoje.

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