21 de setembro de 2010

O mal como punição


 
     Michael Haneke é um dos nomes mais polêmicos do cinema atual, há quem odeie e quem adore seu estilo. Em ambas as opiniões predomina a sensação de incômodo e mal estar que o diretor austríaco pretende deixar a respeito da sociedade, principalmente a francesa, cenário de boa parte de suas tramas, como Código Desconhecido e Cachê. Ao apontar o olhar para uma pequeno vilarejo alemão antes da Primeira Guerra Mundial, Heneke extende esta crítica ao traçar paralelos com as origens do nazismo e como seus hábitos e ideais predominam em maior ou menor escala em nossa vida familiar e social.
    As crianças são as principais vítimas da educação rígida e repressora de pais, pastores e professores, onde as mesmas não têm voz e são punidas pelos seus erros infantis e por uma noção paranóica dos adultos sobre o pecado. Quando uma série de crimes começa a ocorrer no local, abalando a paz aparente, conhecemos os personagens mais profundamente e percebemos que toda aquela tranquilidade disfarça segredos de alcova e pecados piores do que aqueles pelos quais os pais censuram seus filhos. Todo cidadão tem seu segredo mais profundo e até mesmo hediondo, ninguém está livre da maldade ou de cometê-la em algum momento. O mal é algo que habita nossa natureza, permanece intrínseca, até que uma hora explode.

Em determinado momento, sabemos que os crimes são cometidos por causa dos erros dos adultos e que, muitas vezes, os filhos pagam por estas distrações, seja por duros castigos impostos pelos pais ou pela maldade alheia ao redor. O mal surge como a única maneira de punição e a violência é seu principal meio. É nesse ambiente que conhecemos o médico que tem um caso com a parteira local (que possui um filho com deficência mental) e a trata da pior forma sempre que pode; o pastor que humilha os filhos com castigos como colocar uma fita branca neles até que os mesmos voltem a se comportarem corretamente ou amarrar o filho, que começa a descobrir sua sexualidade, à cama; um fazendeiro que mantem seus empregados em péssimas condições de trabalho (onde a mãe de um deles morre em um misterioso acidente e o mesmo decide vingar-se destruindo a horta do fazendeiro) e acredita que resolve tudo com uma festa a cada fim de colheita, festa na qual seu filho desparece e também é vítima das violências que chocam o vilarejo. Um professor apaixonado por uma jovem que cuida de um dos filhos do fazendeiro é também o narrador dos estranhos acontecimentos. As crianças e seu comportamento dúbio são a chave para o entendimento do mistério que cerca a trama ou pelo menos um dos caminhos para a compreensão de sua complexidade.

O único problema é que Haneke, assim como em seus filmes anteriores, julga os seus personagens e não deixa que o público tire suas próprias conclusões a respeito deles. No entanto, suas tramas e seus finais continuam sempre abertos de possibilidades e interpretações e neste A Fita Branca não é diferente. Haneke alia-se a fotografia preto e branco magistral de Christian Berger, que captura de forma elegante e sutil todas as nuances da estória. Ao final da projeção fica o mesmo estranhamento de quando o filme começou e, acredite, este incômodo continuará por muito tempo na sua cabeça. E é desta forma que Michael Haneke consegue seu propósito. Seus filmes podem gerar qualquer sentimento de paixão ou de ódio pelo seu cinema, mas é impossível sairmos indiferentes e não reflexivos ao término de cada um deles.

Um comentário:

  1. O único a que assisti dele foi o Violência Gratuita (a última versão, de 2007), mas já tenho a impressão de que sou dos que o adoram, rs.

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