27 de outubro de 2010

A complicada adolescência ganha o cinema brasileiro



O universo infanto-juvenil é um filão pouco explorado pelo cinema brasileiro, se levarmos em conta que grande parte do público que vai às salas é jovem, percebe-se o tempo e dinheiro perdidos em não se investir em filmes nacionais que atinjam esta faixa etária. As Melhores Coisas do Mundo vem para mostrar que é possível a exibição de filmes que unam entretenimento e qualidade artística, sem subestimar a inteligência de quem assiste. O acesso à tecnologia (celulares, Internet e suas redes sociais, câmeras fotográficas digitais, etc.) mudou bastante os relacionamentos entre os jovens de hoje, porém persistem os antigos dilemas que vivem afligindo a quem chega a esta complicada época de grandes descobertas e árduo amadurecimento.


Ao nos apresentar Mano (Francisco Miguez) às voltas com a primeira relação com o sexo, um amor platônico e a separação dos pais, estamos diante de um adolescente que pode ser como qualquer um, independente de sua classe social. Adaptação de Luíz Bolognesi dos livros escritos por Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, o filme tem a direção de Laís Bodanzky (Bicho de 7 Cabeças, Chega de Saudade) que retrata o universo jovem com a mesma sensibilidade de seus trabalhos anteriores. Não faltam ao filme os diversos tipos que permeiam as escolas (neste caso, um colégio de classe média na cidade de São Paulo): a aluna apaixonada pelo professor, o garoto sensível que sofre com o fim do relacionamento, a garota mais linda que não dá a mínima atenção ao protagonista, o jovem que quer ficar com todas as meninas, etc. Além disso, uma série de situações começa a ocorer, onde é explorada toda a problemática do bullying, um dos principais desafios que as escolas enfrentam atualmente e que com a ajuda da Internet aumenta ainda mais a repercussão dessas brincadeiras com suas vítimas.


As Melhores Coisas do Mundo mostra que, por mais inocentes que sejam estas brincadeiras, espalhar boatos maldosos e mentirosos tem consequências sérias sobre o estudante que podem chegar a níveis traumáticos, muitas vezes resultando em depressão ou suicídio, como vários casos ocorridos em países como os Estados Unidos, por exemplo. Mano também vira alvo do preconceito quando o motivo da separação de seus pais (Denise Fraga e Zecarlos Machado) vem à tona. Os conflitos até parecem pueris porém são mais complexos do que imaginamos, mas são estes conflitos e as escolhas feitas para resolvê-los que definirão o adulto que estes adolescentes se tornarão no futuro.
O roteiro explora bem a relação entre pais e filhos, pais que rivalizam atenção com a Internet, as amizades e a lealdade de amigos da mesma idade tão importantes nesta fase, com toda a sua competição e cobranças em relação ao sexo, as desilusões amorosas. Laís demonstra mais uma vez seu talento em dirigir atores, orquestrando um elenco jovem com nomes conhecidos do grande público. Seu olhar está focado no desenvolvimento dos personagens diante de seus problemas, na solidão adolescente diante das escolhas cruciais para a vida. Por mais que os conselhos dos pais, o apoio dos amigos ou o ensinamento de um professor sirvam de importante influência, a melhor ou pior decisão é solitária e Laís retrata este momento com belíssimas cenas, por exemplo, Mano várias vezes sozinho em meio a cidade grande, acelerada e indiferente. Assim como o seu protagonista, As Melhores Coisas do Mundo é um filme sozinho em meio a tantos trabalhos que ainda investem no mesmo tema e não arriscam em outros gêneros. A temática é adolescente, mas o resultado é agradavelmente maduro. 

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