31 de outubro de 2010

John Ford e a magia da tela grande


     Geralmente temos acesso aos grandes clássicos através de DVD, vídeos ou filmes disponibilizados pela Internet, ou seja, parte deles vemos na tela limitada de nossa televisão ou computador. Dificilmente teremos o prazer de assistir a todos eles no cinema a não ser que certas ocasiões especiais nos permitam. Todo mês de outubro acontece a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e uma das sessões mais interessantes são as projeções feitas no Vão Livre do Masp, gratuita (pra quem não tem ou não pode pagar o valor do ingresso que não é barato), basta chegar, pegar o ingresso uma hora antes da exibição, acomodar-se em uma das cadeiras e aguardar o início do filme. O espaço era reservado para exibir filmes que fizeram parte da seleção de anos anteriores da Mostra, mas este ano os organizadores fizeram algo diferente, com exceção de O Corintiano (do Mazzaropi), serão exibidos até o dia 04 de novembro alguns grandes filmes do diretor americano John Ford.



     Aí que retorno ao fato de que certos filmes devem ser visto na tela grande, sejam super produções hollywoodianas ou filmes que exploram com sucesso as proporções dos ecrãs. Muitos dos filmes produzidos nos anos 40, 50 sabiam fazer isto muito bem. Rever alguns filmes do John Ford é deixar-se imergir nesta magia das imagens grandiosas e a razão dele estar entre os maiores realizadores da história do cinema justifica-se em cada plano de seus trabalhos. Sua câmera movimentava-se apenas quando era necessário e isto acontecia de forma discreta, quase invisível aos olhos do público que sequer o percebia. Outra, seus enquadramentos eram perfeitos, verdadeiras pinturas, cuja fotografia, direção de arte e atores resultavam em pequenas obras de arte. Acredito que assim nascem os grandes diretores, na preocupação de contar apenas uma boa estória e não perder-se em pretensões de mirabolantes movimentações de câmera (atualmente destaca-se Clint Eastwood, um dos herdeiros da narrativa clássica para contar estórias poderosas). Hoje em dia, com a facilidade do cinema digital, uma câmera que tremula, acompanha personagens em planos sequências, já virou um óbvio recurso, como bem observou David Mamet, uma forma preguiçosa de direção, pois evita-se o trabalho da edição, que apenas dará certo ou não, se a decupagem for precisa e exata e saiba juntar de forma orgânica cada plano e deste improvável Frankenstein, nasce o bom filme. Não sou contra planos sequências e nem câmera na mão, quando utilizados de forma funcional e não exagerada, mas nada como o bom e velho tripé ou o trilho para dar mais estabilidade às imagens e focar seu público no que acontece na estória.



     Assisti aos filmes Como Era Verde o Meu Vale (1941) e Rastros de Ódio (1956), dois trabalhos de temáticas diferentes mas de onde vemos um pouco da marca que Ford imprime seus filmes, onde nem o barulho do trânsito na Avenida Paulista atrapalhou a diversão. Conhecido pelos faroestes, Ford também demonstrou sua versatilidade em outros gêneros, Como Era Verde o Meu Vale é um exemplo, melodrama sobre uma família que enfrenta grandes dificuldades para manter-se unida em meio a muitos acontecimentos e tragédias num pequeno vilarejo na Inglaterra. Mais conhecido por ter tirado o Oscar de melhor filme e direção de Orson Welles e seu Cidadão Kane, o filme tem muito dos valores conservadores inerentes a obra de Ford, mas o poderoso preto e branco de suas imagens valoriza cada drama interior de seus personagens e cada ação que ocorre no quadro. Poucas vezes vi planos tão belos com enquadramentos que impressionam. Rastros de Ódios é o western clássico por excelência, considerado por muitos o melhor do gênero, traz a eterna parceria com John Wayne, na pele de um veterano do exército confederado às voltas com o resgate de sua sobrinha sequestrada pelos índios e seu próprio preconceito e intolerância contra eles. Em ambos os trabalhos, o humor de certas cenas e personagens servem de alívio cômico a dramas tão intensos, mas é o poder das imagens que prendem a nossa atenção e a tridimensionalidade de seus personagens que faz o ato de ver um filme de John Ford um grande entretenimento.



     Invejo as platéias antigas que puderam ver a todos estes filmes no esplendor da projeção em cinema e perceber o quanto este cinema era muito bom sendo tão simples em sua feitura e suas intenções, não é á toa que permanecem imortais em nossas memórias até hoje.

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