5 de outubro de 2010

Lula no tapete vermelho do Oscar?


    Se Lula, o Filho do Brasil já gerou polêmica quando lançado no início deste ano eleitoral, a escolha do último filme de Fábio Barreto (O Quatrilho) como o representante brasileiro para concorrer a uma das cinco indicações ao Oscar em 2011 causou inúmeras controvérsias, todas na direção de que a escolha, antes de primar por aspectos artísticos e técnicos, foi de caráter político. Muito se deve à repercussão e o reconhecimento internacional da figura do presidente Lula, querendo ou não, isto deve ter sido um dos fatores principais da escolha unânime feita pela comissão do Ministério da Cultura.
    Questões políticas à parte, a cinebiografia de Luis Inácio da Silva tem suas qualidades, um bom elenco de atores, produção caprichada, direção correta. A intenção dos Barreto, produtores e filho, era a de filmar um melodrama épico sobre o atual presidente. Eles acertaram em retratar a vida pregressa de Lula, focando sua infância, adolescência e ingresso no sindicalismo, uma vez que o restante já está na memória coletiva e recente da população. Outro acerto foi dividir o foco do protagonista Lula com a figura de Dona Lindu,  sua mãe. A experiência de Glória Pires ajuda a equilibrar a expectativa gerada em torno do intérprete de Lula, o estreante em cinema Rui Ricardo Dias. A veterana atriz da televisão é o grande destaque deste drama, ao narrar a persistência da mãe de Lula em dar educação e em criar dignamente seus filhos, sua atuação comove e a identificação do público é imediata. Seus conselhos e apoio são o norte para as escolhas do jovem Lula, por isto o espaço e a importância dada à sua personagem.


    Rui Ricardo Dias entrega uma atuação segura, mesmo sob o desafio e a sombra inevitável de interpretar o nosso presidente, mas seu papel, infelizmente, sofre com um personagem que se desenvolve pouco no filme. Quando o filme ganha força ao retratar o engajamento de Lula na luta sindical, principalmente quando passa a liderar as manifestações e greves que o tornaram uma pessoa conhecida, sua entrada no sindicalismo é mostrada de forma muito apressada, sua hesitação em abraçar a causa é sucedida por um militante empolgado e vê-se nascer um líder nato quase que da noite pro dia, de uma cena pra outra, simplesmente não há uma evolução, um crescente de suas ações e de sua consciência nesta parte. Fábio Barreto consegue retratar de maneira convincente a força das greves que agitaram as décadas de 70 e 80, mas o arco do personagem não é coerente entre o metalúrgico e a grande liderança de sua classe.


    Apesar do alto investimento e das expectativas nas bilheterias, Lula, o Filho do Brasil foi um fracasso e uma decepção nos cinemas brasileiros. Muito se esperou que o povo que o elegeu e aprova seu mandato fosse assistir sua história nos cinemas, o que não aconteceu. Uma prova que popularidade não é garantia de boa bilheteria. Fica a impressão de que o filme surgiu no momento errado. Se estreasse daqui a alguns anos depois (muitos eu arriscaria dizer), talvez o interesse tivesse sido maior e o filme poderia ser mais bem sucedido. Lançado agora é quase impossível não enxergar o filme sob a visão do oportunismo de querer criar um mito e idealizar a figura de Lula. Um equívoco, já que sua história é tão recente e seu segundo mandato sequer terminou. Pode ter até chances na Academia, por ser bem produzido e o retrato de uma história de superação e auto descoberta pode encantar os seus membros, mas o que se convencionou chamar de “filme de Oscar”, não é mais uma certeza hoje em dia. A Academia mudou muito o perfil das escolhas de indicados e vencedores apesar de ainda manter certas características, porém a categoria de filme estrangeiro tornou-se nos últimos anos uma incógnita seja pelas omissões que foram feitas ao selecionar os cinco indicados seja pelos atuais premiados. O filme do Lula, pelo que parece, vai trilhar o mesmo caminho de pedra que o seu personagem principal percorreu até chegar à presidência.

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