16 de outubro de 2010

Missão dada, missão cumprida


Após enfrentar uma fila quilométrica, finalmente consegui entrar numa sessão de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro em um bom horário. “Missão dada, missão cumprida”, lá estava eu acomodado na poltrona aguardando o início da projeção, sala lotada, muita conversa das outras pessoas. No entanto, quando as luzes apagaram-se e os trailers de filmes fracos terminaram, a platéia aquietou-se e preparou-se para levar alguns bem-vindos tapas na cara e uns socos no estômago. O interesse pela sequência do longa de 2007 é justificável. Bom desempenho nas bilheterias, popularidade ajudada ou atrapalhada pela pirataria da obra, que antes mesmo de estrear nos cinemas circulava em banquinhas de camelôs de todo o país, acusações de fascismo, tudo isto contribuiu para a curiosidade em saber o que mais Padilha e seu Capitão Nascimento teriam a dizer após o primeiro trabalho.
Se o primeiro “Tropa” mirava sua arma para os traficantes, a polícia militar e a classe média, neste segundo filme não poupam críticas aos militantes de direitos humanos, à televisão, à imprensa escrita e, principalmente à política. Os alvos são em maior quantidade e mais graúdos e importantes. Poucos filmes foram tão corajosos e precisos ao desvendar os meandros da corrupção e o quanto ela está incrustada nas mais diversas instituições. Assim como o próprio Nascimento, nós ficamos diante do emaranhado de situações em que a corrupção de um setor está irremediavelmente ligada a outro e cujos fios são cada vez mais difíceis de desembaraçar. O inimigo agora é a própria polícia e Nascimento (Wagner Moura) demora a enxergar o tiro que deu no próprio pé.


Após uma operação fracassada numa rebelião no presídio Bangu I, Nascimento, agora Coronel do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), depois do forte apoio popular, é nomeado subsecretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro e Matias (André Ramiro) foi desligado do batalhão e volta à Polícia Militar. As ações de Nascimento em sua nova função fazem com que o tráfico seja controlado, porém dá início às milícias, uma vez que os policiais, cada vez recebendo menos dinheiro dos traficantes, passam a assumir os morros sob a desculpa de proteção da comunidade e expandindo o seu domínio, poder e medo nos locais em que ocupa. Entra em cena outra figura importante na trama, o do ativista de direitos humanos Fraga (Irandhir Santos), que além de defender os presos e bandidos como vítimas de um sistema opressor (opinião contrária a de nosso protagonista), elege-se deputado e ainda está casado com a ex-mulher de Nascimento, Rosane (Maria Ribeiro) e exerce influência na opinião e no comportamento do filho do antigo capitão com o pai. Lados opostos que, sem saberem, buscarão a mesma meta, mesmo que com intenções e meios diferentes: descobrir quem está por trás das milícias.
O que preocupa é a imagem intacta do próprio Bope neste e no filme anterior, entendo que precisamos de alguém incorruptível para mostrar que algo neste país tem salvação e solução e é na figura do Capitão Nascimento que Padilha cria seu herói e o cinema ainda precisa deles. Porém fica a dúvida... Se instituições que deveriam ser idôneas corromperam-se e se deixaram levar pela ganância e pelo desejo de poder, quem não garante que o próprio Bope não tenha também o seu calcanhar de Aquiles?
Também são personagens importantes uma repórter investigativa (Tainá Müller) cujo destino lembra o episódio do jornalista Tim Lopes, um apresentador de televisão estilo Datena (André Mattos), um monte de políticos preocupados apenas com os votos, militares corruptos e os velhos personagens do primeiro filme como o Capitão Fábio (Milhem Cortaz) e Matias, todos muito bem desenvolvidos e interpretados por seus atores na trama. Wagner Moura entrega mais uma vigorosa atuação e seu Capitão Nascimento com sua personalidade forte e opinião radical sobre o “sistema” já entrou para a antologia do nosso cinema. Poucos filmes brasileiros e personagens cativaram tanto o público ao ponto de pararem na boca do povo com seus bordões e expressões.


O segundo Tropa de Elite tem um enredo complexo e trás uma estória impactante que apesar de ficção, infelizmente tem muitas coincidências com a realidade e baseia-se nela para ter embasamento nas situações em que apresenta. Mesmo que os seus detratores continuem firmes em sua opinião contrária ao trabalho de José Padilha e equipe, uma coisa eles terão que admitir, seja qual for a ideologia explícita ou implícita no filme, o filme tem o mérito de ao menos levantar discussões acaloradas sobre o status quo da política e sociedade brasileira e todas as suas engrenagens enferrujadas, o que demonstra a sua relevância para os dias de hoje e neste importante período pré-eleitoral. No fim valeu a pena apanhar por quase duas horas e perceber que o problema é bem maior que a canalhice de dezenas de deputados, nossa omissão e passividade frente a todos estes problemas contribui muito para a impunidade que reina hoje em nosso país.

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