13 de outubro de 2010

Reencontro com Machado de Assis


  Fazia muito tempo que não lia Machado de Assis, talvez tenha sido com Memorial de Aires o último contato com a sua obra de onde apenas tinha lido alguns de seus famosos romances anteriormente. A fama de Machado de Assis como romancista também rivalizou com sua genialidade em escrever excelentes contos. Mestre da concisão, Machado exercitou seu estilo no gênero que mais exige esta habilidade. Papéis Avulsos e Várias Estórias são exemplos de livros onde concentram pequenos retratos que mantêm muito do que o tornou a figura mais célebre e referencial da literatura brasileira. Lá estão a ironia, um olhar perspicaz e apurado dos relacionamentos humanos e das diversas camadas sociais em um apanhado de frases elegantes e precisas.   
  Apesar da crítica latente em seu texto, Machado criava personagens com amor. Sua descrença no ser humano não o impedia de retratá-lo com honestidade e respeito. Na certa parafrasearia o famoso dito de Jesus Cristo e no lugar de: “Pai, perdoai-vos, eles não sabem o que fazem”, ele diria: “Pai, não há salvação, eles sabem muito bem o que fazem” para ilustrar sua visão. Machado, em seus escritos, ria desconfiado das verdades universais, seu ceticismo não era restrito à religião e também atingia outras instituições como a ciência, crença rival de Deus, a política, etc.
  As contradições humanas eram mostradas não com um olhar inquisitório, julgador e com dedo em riste e pose superior, mas com a sabedoria de que isso, inevitavelmente, era parte de todos nós, sujeitos comuns e falíveis, mesmo com a nossa arrogância não nos permitindo, às vezes, enxergar isto.
  Reencontrar Machado de Assis em seus contos é perceber o quanto seu texto e sua visão continuam atuais e como não mudamos quase nada em relação ao passado (sinal da atemporalidade de suas idéias e o alcance universal que elas tiveram). Avançam as tecnologias, alteram-se os costumes, no entanto, permanece a nossa essência animal e primitiva. Continuamos humanos no seu melhor e pior estado. O bom e velho Machado deve estar em algum lugar rindo da ironia que nos tornamos.

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