23 de novembro de 2010

"O Escritor Fantasma" e os segredos do poder





    Pierce Brosnam interpreta um personagem cuja simpatia e charme aumenta mais a sua dubiedade e oculta as verdadeiras intenções por trás de suas atitudes, o filme ainda conta com a bela e competente presença de Olívia Williams, que é a fiel esposa de Adam Lang, que apesar de sofrer com vida política do marido e sua traição com a secretária, também exerce enorme influência e importância nas suas decisões. Mas é Ewan McGregor que domina o filme, com um personagem sem nome que começa a afundar no complexo mundo das relações políticas e de poder, suas descobertas também são as nossas, compartilhamos suas dúvidas e seu medo diante de algo muito maior que ele e de seu próprio destino.
    O Escritor Fantasma é a prova de que Polanski continua em grande forma e de que o cinema ainda pode produzir suspenses cerebrais e inteligentes valendo-se de temas atuais (e não de rios de sangue e violência desnecessária), o que intriga ainda mais pois os vilões podem ser aqueles que elegemos para nos representar.

    A expressão hesitante do personagem de Ewan McGregor em aceitar o trabalho de ghost writer de um livro de memórias escrito pelo ex-primeiro ministro Adam Lang (Pierce Brosnam) resume o que vem a seguir e o que lhe espera na trama de O Escritor Fantasma. Antes disso, um carro abandonado numa balsa é guinchado e logo descobrimos que ninguém está lá, até vermos um corpo estirado na beira de uma praia. O clima de mistério está instaurado e Roman Polanski (dos clássicos Chinatown e O Bebê de Rosemary) pode brincar à vontade com todos os elementos deste thriller para nos prender a atenção. Não é à toa que o diretor polonês recebeu merecidamente o Urso de Prata pela sua direção no Festival de Berlim deste ano. Prêmio ao qual não compareceu devido a sua prisão domiciliar na Suíça quando o filme era finalizado por acusções de estupro no final dos anos 70.
    A referência a Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico é mais que óbvia na figura do personagem de Pierce Brosnam. O envolvimento de Adam Lang na Guerra do Iraque remete à desastrada participação inglesa no combate ao terrorismo. O ghost writer, assim que dá início a revisão das memórias de Adam Lang numa casa isolada numa ilha nos Estados Unidos, vê o político em meio a um escândalo e acusações de apoio a torturas e crimes de guerra . Assim, o protagonista passa a desconfiar que a história por trás da biografia de Lang tem muito mais a esconder do que imaginava. O perigo aumenta à medida que ele se aproxima da verdade e de toda a sujeira esquecida debaixo do tapete, sua situação apenas torna-se pior se sabermos que o corpo encontrado no início do filme era do antigo ghost writer contratado para reescrever a biografia de Lang.
    Com roteiro do proprio Roman Polanski e do escritor Robert Harris (autor do livro que deu origem ao filme), o filme mantém o mistério do início à emblemática cena final, o resultado é um suspense de cores frias, gris, nebuloso assim como tudo que envolve a trama. Polanski conduz toda ação com discrição, economia, sem grandes arroubos e exageros comuns nos filmes do gênero até mesmo nas cenas de grande correria.

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