16 de novembro de 2010

Plata Quemada e “as vozes” do cinema argentino



Existem filmes que definem a cinematografia de um país. Assim como Central do Brasil, Cidade de Deus e Tropa de Elite são marcos da chamada retomada do cinema brasileiro. Plata Quemada é um dos títulos obrigatórios para compreender os rumos que o cinema argentino tomou nos últimos anos transformando-o numa dos grandes celeiros de belas obras do mundo. Baseado no romance de Ricardo Piglia, que por sua vez foi inspirado em fatos reais, e dirigido por Marcelo Piñeyro (Kamchatka), Plata Quemada narra a história de Angel e Nene (Eduardo Noriega e Leonardo Sbaraglia), um casal homossexual conhecido como “Os Gêmeos” que participam de um assalto a um carro forte na metade dos anos 60. Claro que algo dá errado neste empreendimento, Angel é ferido e os policiais são mortos na operação o que gera uma enorme repercussão nacional e um verdadeira caça às bruxas para prender os responsáveis, onde os envolvidos (entre eles o cabeça do plano e o motorista envolvido na ação) são obrigados a fugirem para o Uruguai e ficarem reclusos numa casa até que consigam novas identidades. Angel escuta vozes em sua cabeça e sua fé fervorosa o faz recusar o assédio do namorado com medo de perder sêmen e, consequentemente, a Deus. Já Nene, sofre com esta crise de devoção e esquizofrenia do seu parceiro (que se afasta cada vez mais de Nene) e perambula pela noite uruguaia em busca de sexo.




Passional e intenso como o tango o filme consegue tocar os seus espectadores ao retratar personagens sem rumo, marginais, cuja marginalidade sempre aponta inevitavelmente para caminhos mais trágicos. O erotismo é um dos caminhos optados pelo diretor de forma muito feliz, isto se faz presente nas cenas de nudez e sexo nunca apelativas e muito bem conduzidas. O homossexualismo é um detalhe irrelevante e ao mesmo tempo um diferencial neste drama. Parte do interesse se deve ao fato dos protagonistas serem gays em crise no seu relacionamento em meio a uma situação extrema, fugindo da polícia. Porém torna-se irrelevante pois a abordagem dada por Marcelo Piñeyro aos protagonistas poderiam também ser a mesma para um casal heterossexual, claro sem o mesmo sabor de novidade que a primeira opção oferece.
Plata Quemada é um exemplo da evolução que a cinematografia argentina vem sofrendo. Parece que os argentinos conseguiram a fórmula de serem universais com um estilo tão peculiar de contar uma estória, sem perder a sua nacionalidade, nos presenteando com representações emocionantes e profundas sobre os relacionamentos humanos. Seja o minimalismo de Lucrécia Martel (O Pântano, A Menina Santa), a onipresença do ator Ricardo Darín em diversos trabalhos, os dramas de Juan José Campanella (que foi indicado ao Oscar por O Filho da Noiva e ganhou a estatueta de melhor filme estrangeiro pelo excelente O Segredo dos Seus Olhos), Daniel Burmán (O Abraço Partido, Ninho Vazio), Nove Rainhas e este Plata Quemada, além de outros tantos títulos, são exemplos de um cinema que superou a crise de seu país e soube amadurecer com a mesma resultando em filmes que ganharam o reconhecimento e o respeito internacional.

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