12 de dezembro de 2010

11ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro no Cinesesc

    De 3 a 30, de dezembro acontece no Cinesesc da Rua Augusta em São Paulo – SP, a 11ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro, uma grande e ótima oportunidade de rever ou assistir pela primeira vez alguns filmes brasileiros que estrearam na cidade este ano. São 74 filmes entre ficções e documentários, na minha correria de trabalho e outras ocupações não conseguirei ver a todos, realmente a vida é muito injusta, mas alguns eu pude ter a oportunidade de prestigiar na tela grande do evento no Cinesesc.



Um deles foi Caro Francis, documentário dirigido por Nelson Hoineff, o filme retrata um perfil do polêmico jornalista, popularizado por sua maneira peculiar de tecer comentários e pelo teor agressivo dos mesmos, que gerava admiração, indignação e até mesmo inimizades e um processo milionário. O grande problema é a forma com que Nelson dá espaço às polêmicas de Paulo Francis, através de um grande número de material de arquivo dos programas e entrevistas, além de depoimentos de colegas de trabalho, amigos e a esposa do mesmo, porém conhecemos pouco além de sua personalidade forte (apenas um vislumbre de que ajudava amigos necessitados, gostava de Richard Wagner e Doris Day e de uma gata siamesa, que criava como uma filha), resultando num retrato superficial, um exemplo disto o como foi mostrada sua transição de trotskista para direitista. O saudoso Paulo Francis merecia mais que isso. Ao menos é impossível não se divertir e se surpreender com os ditos espirituosos de Francis nas imagens de arquivos e, assim como nos programas em que participava, o jornalista consegue roubar a cena e ser o centro das atenções, ou seja, ser maior que a obra em si.



    Outro trabalho que vi foi o drama Do Começo ao Fim, dirigido por Aluizio Abranches (Um Copo de Cólera), que fala sobre o delicado tema do homossexualismo e do incesto entre dois meio-irmãos. Toda esta premissa já seria pesada e repleta de grandes conflitos, porém Abranches decidiu seguir pelo caminho inverso, mostrando com excessiva e muito pouco realista naturalidade este relacionamento. Não que os irmãos Francisco (João Gabriel Vasconcelos) e Thomás (Rafael Cardoso) não possam encarar esse sentimento de cumplicidade e amor mútuo com naturalidade, já que desde a infância eram muito ligados, o problema é a reação das pessoas em volta, seus respectivos pais (Julia Lemmertz e Fábio Assunção) apenas dão olhares desconfiados, queixam-se de que os filhos estão íntimos demais e nada mais fazem ou se manifestam, não dando a entender serem contrários ao relacionamento dos dois e nem que desaprovam a parceria. No mais, quase nenhuma crise ocorre na estória até mesmo ao casal protagonista (o máximo que acontece é um separação pelo fato de um deles viajar para a Rússia para treinar natação para as Olimpíadas, o que gera sofrimento e saudade de ambos os lados). Abranches em entrevistas afirmou esta era mesmo a intenção, uma relação em que as pessoas aceitam e não se opõem, por outro lado parece que Abranches prefere mais explorar a beleza dos atores, mostrando a nudez dos dois entre uma cena e outra. Uma pena, pois o diretor do filme tinha uma boa estória para contar e comover o público e um novo enfoque para temas tão controversos, o que consegue é apenas um contemplação de uma relação amorosa (apesar de sincera) em que pouca coisa acontece, os personagens vivem momentos de amor, outros de saudade, outros de conversas românticas, outros de tentativa de diversão que não chegam a lugar algum e pouco evoluem na trama e apenas nos fazem constatar ter passado um pouco mais de uma hora e meia bem de forma tediosa.




    Praça Saens Peña conta a estória de Paulo (Chico Diaz), um professor de literatura que recebe a proposta para escrever um livro sobre o bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. A sua esposa Teresa (Maria Padilha) logo passa a procurar um novo lugar para morar com o marido e sua filha adolescente Bel (Isabela Meirelles). O livro, que surge como uma oportunidade para Paulo firmar-se como escritor e a família ganhar um dinheiro extra, começa a instalar a crise no lar. Paulo tem que conciliar as diversas aulas que dá em escolas com a concentração na escrita do livro, Teresa começa a ter um relacionamento extraconjugal com o dono do apartamento (Gustavo Falcão) da qual pretendia comprar, enquanto Bel  presencia o lento desmoronar de sua família. Praça Saens Peña acaba sendo o retrato de uma família com problemas financeiros que tem ambições de ascensão, seja mudando para uma casa (no caso de Teresa) ou o reconhecimento artístico do primeiro trabalho (para Paulo). O diretor Vinícius Reis acompanha essas pequenas transformações com a câmera próxima ao rosto dos atores, que de tão pertos um do outro, na questão de espaço do pequeno apartamento em que moram, vão se distanciando cada vez mais à medida que Paulo se aprofunda na história de seu bairro e chega perto da conclusão do livro e os personagens vêem-se cada vez mais isolados um do outro.  O resultado é um filme que não cai em soluções fáceis, com desempenhos notáveis e críveis, um filme que em sua simplicidade nos faz refletir sobre a vida em família e como as escolhas individuais vão acompanhar e inevitavelmente afetar a rotina dos outros membros e que é preciso tolerância e paciência para atravessar estas difíceis mudanças.



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