24 de dezembro de 2010

Chico Xavier e o espiritismo no cinema brasileiro



     Chico Xavier só não foi o nome de maior destaque do cinema brasileiro este ano, pois Capitão Nascimento arrasou o quarteirão com o seu Tropa de Elite 2. Mas o mais famoso médium de nosso país foi o responsável por duas das maiores bilheterias nacionais em 2010, uma prova da força de seu nome e da popularidade que a religião espírita possui no Brasil, mesmo se tratando de uma nação de maioria católica. Chico Xavier, dirigido por Daniel Filho, e Nosso Lar, de Wagner de Assis são a cinebiografia do já citado médium e um drama baseado em um livro psicografado pelo mesmo, respectivamente. Não sou espírita e muito menos católico praticante, então, assisti aos dois trabalhos sem o perigo da visão das ideologias religiosas e com o olhar de quem apenas quer ver um bom filme. Ambos os filmes tem bons atrativos para atrair o grande público aos cinemas, enquanto Chico Xavier faz uso de uma narrativa clássica e aproveita-se de sua fama para gerar interesse no espectador, já Nosso Lar apela para os efeitos especiais para dar forma a um mundo para onde os espíritos vão após a morte numa jornada de autodescoberta e de sua missão no outro mundo.


     Daniel Filho toma como ponto de partida a participação de Chico Xavier (vivido por Matheus Costa, Ângelo Antonio e Nelson Xavier) no programa Pinga Fogo da TV Tupi em 1971 para ligar os mais diversos momentos da vida do médium, desde sua infância, onde conversava com sua mãe morta até seus últimos anos, onde uma multidão visitava as sessões espíritas da qual participava procurando algum consolo para a dor da perda de algum parente ou amigo próximo através das cartas ditadas pelos mortos que Chico psicografava. Paralelamente, o diretor do programa Orlando (Toni Ramos), um homem cético, vive às voltas com o interesse da esposa Glória (Christiane Torloni) pelo médium, uma vez que o casal perdeu o filho num trágico acidente e ela tem esperança de que ele se comunique através de uma carta. Daniel Filho em nenhum momento duvida da legitimidade do dom de Chico Xavier e até mesmo materializa as aparições de sua mãe e do espírito Emmanuel como forma de atestar a sua veracidade. Talvez este seja o único problema do filme, ver estes espíritos com quem Chico Xavier se comunicava diminui um pouco o mistério em torno de sua figura, o que tornaria sua estória ainda mais interessante, e nos fazem intrigar menos do que deveríamos, muitas das contestações que surgem no filme são de conhecimento do público em geral: que a grafia das cartas sempre é a mesma apesar de Chico receber diversos espíritos; que se ele tinha poderes por que não salvou o irmão da morte e outras pequenas polêmicas. Por outro lado, o filme é um sincero retrato de uma pessoa que pregou e viveu a bondade para com o próximo, que tem os seus defeitos e sua humanidade (Chico é vaidoso, usou peruca na sua velhice, por exemplo) e um ótimo senso de humor e nunca quis lucrar ou receber o dinheiro ganho sobre os livros psicografados. Um filme feito na medida certa pra emocionar as pessoas e antes de tudo inspirá-las, acredito que não em fazê-las converter-se à doutrina espírita e sim perceber o que é realmente relevante em suas vidas e esquecer o egoísmo e a preocupação por coisas mesquinhas, com tantos outros valores maiores para se dedicarem. Se Chico Xavier foi uma fraude, o filme não se preocupa em desvendar, decisão muito acertada, o filme é uma homenagem e uma forma de respeito a quem viveu plenamente sua filosofia do início ao fim da vida.



     Nosso Lar tem como principal atrativo os efeitos especiais, é necessário reconhecer o pioneirismo deste trabalho em utilizar este recurso numa escala nunca antes usada por nenhum outro trabalho nacional, mas como todos sabemos, os efeitos especiais devem ser ferramentas que ajudem na narrativa e não o contrário. Ao narrar a jornada do médico André Luiz (Renato Prieto) em reconhecer o seu papel no mundo dos espíritos após sua morte em decorrência de um câncer, parece que o diretor Wagner de Assis está mais preocupado em um espetáculo de imagens grandiosas (mas não críveis em muitos momentos) do que por uma estória vigorosa. O melodrama, que era muito bem dosado em Chico Xavier, aqui é exagerado, canastra até. Um roteiro que está mais preocupado em citar a torto e a direito um amontoado de frases feitas e clichês, do que construir personagens críveis e interpretações idem, o filme se resume a uma série de semblantes sorridentes com exceção de um e outro papel. André, após sua morte, acorda no umbral (este um dos pontos fortes do trabalho), uma espécie de purgatório onde os espíritos sofrem com a fome, sede, a sujeira e com seus próprios defeitos e pecados, André é resgatado de lá e levado para Nosso Lar, um local com construções de linhas futuristas de tecnologia moderna e avançada (o mundo terrestre na verdade é uma projeção dos avanços em Nosso Lar), lá ele descobre que a causa de sua morte foi, na verdade, um suicídio. O vício, o egoísmo e uma série de erros foram motivadores para o surgimento do câncer, André deixou-se morrer ao concentrar suas preocupações em coisas desnecessárias e esquecer sua família e a real função de sua profissão. Em Nosso Lar, André é recepcionado por Lísias (Fernando Alves Pinto), que lhe explica o funcionamento do local, sua divisão em ministérios e a importância em ajudar os espíritos recém chegados doentes do umbral. A vontade de rever a sua família, faz com que André se recrute para trabalhar numa espécie de hospital enquanto outros personagens entram em cena (como a jovem Eloísa vivida por Rosane Mulholland inconformada em ter morrido e que insiste em ver o noivo na Terra, pretendendo fugir de Nosso Lar).
     O filme tinha tudo para ser uma bela tentativa do cinema brasileiro em expandir seus temas e possibilidades narrativas para algo além do sertão e da favela, ousando com efeitos especiais (que ainda são fracos se comparados, injustamente, claro, com os produzidos por Hollywood) que reforçariam a idéia da estória da trajetória de um espírito em um mundo que nada mais é que a nossa própria vida neste planeta. O público lotou as salas, se foi a curiosidade em ver uma superprodução brasileira, a primeira, arrisco a dizer, nos moldes de um blockbuster americano, ou se foi o interesse pelo tema espírita tão em voga nos cinemas neste ano, isso não sei responder. Mas é certo que parte deste sucesso veio do êxito do Chico Xavier de Daniel Filho nas bilheterias (e um pouco antes, Bezerra de Menezes, o Diário de Espírito em 2008) que ajudou a popularizar e abrir as portas para esta nova vertente em nossa cinematografia.

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