16 de janeiro de 2011

A sordidez de Passione


Passione chegou ao fim. Foi exibida, na última sexta-feira, o capítulo final da novela escrita por Sílvio de Abreu. Apesar de o título poder dar a impressão de ser uma estória cheia de situações românticas, o que vimos, além disso, foi o contrário. Na verdade, o título desta novela poderia ser A Sordidez Humana ou algo parecido, pois o que desfilou nas telas foi ambição, adultério, bigamia, vingança, trapaça, segredos, assassinatos misteriosos, etc. Não que o autor quisesse defender alguma tese sobre toda esta galeria de sentimentos, porém todos os mesmos estavam a favor do bom e velho folhetim.
Sílvio de Abreu é um dos poucos autores em que se percebe o prazer de se criar uma estória bem escrita, onde tudo está relacionado e nada acontece por acaso, demonstrando um grande domínio do gênero policial e do caráter de mistério de suas tramas.


Se a novela desmente o seu título e também utiliza-se da velha recorrência dos folhetins tupiniquins à personagens italianas, Passione foi uma trama urbana, muito ágil, com papéis que ao mesmo tempo em que eram clichês também apresentavam falhas que lhes davam maior tridimensionalidade. Além da estória central (dois golpistas tentando enganar um agricultor italiano herdeiro de uma grande fortuna no Brasil) tínhamos outras subtramas que movimentavam a estória e que mantinham o interesse do telespectador. Dentre as grandes sacadas de Sílvio de Abreu, foi o mistério em torno da patologia de Gerson (Marcello Anthony), que resultou numa decepção pela grande expectativa gerada e pela revelação de uma "quase inocente" predileção ao sexo “sujo”, inocente diante de outras opções como a necrofilia ou pedofilia, por exemplo. Muito barulho por nada... Sílvio também matou uma das mocinhas, Diana (Carolina Dieckman); transformou a vilã Clara (Mariana Ximenes) em mocinha (que já tinha um passado de abusos sofridos e agenciados pela sua avó na infância) e depois mostrou que tudo não passava de encenação ao envolver o canastrão cantor de cantina no assassinato do marido. A mesma ainda foi enganada pelo mocinho Totó (Tony Ramos) que forjou a própria morte para depois desmascarar a vilã. Além disso, deu um dos piores castigos a um vilão que já vi na telinha, além de ser preso por seus crimes, Fred (Reynaldo Gianecchini), pagou por um assassinato que não cometeu.


Os mistérios em torno da morte de Eugênio (Mauro Mendonça) e Saulo (Werner Schünemann) foram resolvidos de forma coerente e o final agridoce com o belo rosto de Clara sorrindo para a câmera apenas revela que muitas vezes, senão a maioria delas, o mal vence. Aliás, a maioria das tramas exibidas no mesmo horário que recorreram a um tipo de dúvida como “Quem foi que...?” também preferiram acusar seus principais vilões em suas estórias (como Celebridade, Belíssima e Paraíso Tropical).
Irene Ravache roubou a cena e Gabriela Duarte foi uma grata surpresa. Maitê Proença desfilou sua bela maturidade com a infiel esposa de Saulo, Fernanda Montenegro alternou-se entre o exagero e o correto com sua Bete Gouveia e Tony Ramos sempre competente como o enganado protagonista.
No final de tudo, fica a memória de uma estória repleta de personagens falhas em seu caráter e retidão e, por isto mesmo, humanas, honestas e com um esqueleto atrás de seus armários. Enfim, Passione cumpriu o seu papel, entreter as massas, o que não há mal nenhum em se tratando do circo que é a televisão brasileira.

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