23 de fevereiro de 2011

Não há nada ruim que não possa piorar


Quando estamos enfrentando algum tipo de dificuldade (seja ela financeira, profissional, pessoal, psicológica, etc.) sempre existe alguém que, em determinado momento, nos diz: “Para de reclamar, tem gente que está numa situação pior do que você”, e desata a explicitar tudo o que é este pior. Com certa culpa na consciência paramos de nos lamentar e guardamos as nossas frustrações para nós mesmos ou não damos ouvidos e prosseguimos na auto piedade, ou seja lá o que for... Saber que alguém enfrenta problemas maiores que o nosso é um estranho sentimento de conforto, uma, digamos até, malvada forma de compensação da situação de nossa crise atual. Sentimos-nos melhores (não no sentido de superioridade e, sim, de alívio) ao nos depararmos com outra pessoa que pene neste mundo por razões menos frívolas que as nossas. Um exemplo disso é o mendigo. Atire a primeira pedra se um dia você reclamava de sua vida e, ao ver um mendigo na rua, refletiu: “Eles passando fome e eu aqui insatisfeito...”. O mendigo tem fome, frio, doenças, vive sob o espreitar da violência, do preconceito ou solidão, também não sabemos as razões de tê-lo feito parar nas ruas. Uma mulher careca devido ao tratamento contra o câncer, um portador de necessidades especiais, tudo pode ser motivo para que aquele travar na garganta aconteça e nos calemos. Não sei até que ponto isto chega a ser solidariedade ou é apenas um egoísta “ainda bem que isto não acontece comigo”. Egoísta porque não fazemos nada pelo outro, no máximo um olhar curioso e fugidio ao objeto de nossa visão, que é esquecido assim que cruzamos a próxima esquina ou vemos um homem ou mulher mais interessante.
Há ainda a perspectiva de que se sua situação está ruim, ela poderia ser ainda pior do que já é, e meio que esperamos o dantesco fato, com o pessimismo a rondar a nossa cabeça e a famosa lei de Murphy nunca parecendo tão certa e real. Claro que cabe a nós reverter o quadro e evitar o desastre e aguardarmos resignados (mesmo após estas tentativas de mudança) a confirmação do destino que nos cabe. As coisas podem piorar, isto é fato, mas também podem melhorar. Quem vai adivinhar? Eu, ao menos não posso prever... A probabilidade é a mesma e pende igual para ambos os lados. Num momento em que o individualismo é cada vez maior e a indiferença pelo outro apenas cresce, não vamos usar o próximo como parâmetro para a sua infelicidade ou insatisfação. Não sejamos hipócritas de dizer que nos importamos com esta pessoa, sendo que você apenas o enxerga como algo que se encontra pior do que você. Se não há sinceridade na compaixão ou na culpa, ao menos não a finja. E se as coisas vão tornar-se piores é porque era para ser e nada mais...

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