12 de fevereiro de 2011

O prazer da releitura


Na minha adolescência eu era um verdadeiro rato de biblioteca. Semanalmente eu aparecia na Biblioteca Raimundo de Menezes em São Miguel Paulista, São Paulo, para pegar emprestado dois ou mais livros para ler no meu enorme tempo livre. Esta fase durou mais ou menos até o momento em que consegui o meu primeiro emprego e o hábito perdeu-se quando o cansaço e as tarefas do trabalho ocuparam mais tempo do que queria e as leituras tiveram que ser espremidas em situações como o trajeto do ônibus ou metrô na ida e volta ao trabalho. No meu afã de querer devorar todos os livros, clássicos, autores e temas, lia com avidez e uma certa pressa (confesso) seu conteúdo e, hoje em dia, ao tentar recordar alguma coisa destes grandes trabalhos da literatura, pouco lembro de suas estórias, somente alguns detalhes como a trama principal, muita informação importante passou desapercebida, talvez pela imaturidade da época ou um descuido enquanto percorria os olhos nas linhas de cada livro. Hoje com A Volta do Parafuso, do escritor americano Henry James, eu tenho redescoberto a necessidade e o prazer da releitura. Aquela que faz você perceber coisas não vistas na primeira vez que esteve em contato com a obra, aquela que faz você entender aquilo que estava nas entrelinhas, aquela que faz você enxergar os personagens de um modo diferente do que quando os conhecemos a partir da expectativa das páginas iniciais até a satisfação ou não da última linha.
Reler pode dar certa preguiça, afinal, se já vimos aquele livro alguma vez por que encará-lo novamente para uma leitura que vai tomar algumas horas de nossa vida, com tantos afazeres a nos enlouquecer e preocupar no dia-a-dia? É quase como assistir um filme já visto antes. Mas quando nos propomos a tal tarefa, quão prazerosa se torna esta atitude, principalmente para confirmar que tal livro é muito bom mesmo e descobrir coisas novas nesta revisitação ou perceber que ele não é tão interessante quanto antes. É um risco tão grande quanto ler algo pela primeira vez, com a diferença de que você sabe como tudo vai terminar...
A mesma coisa acontece quando reencontramos alguns autores que há muito não líamos. Foi um baque interior enorme a dificuldade que tive em reler Virginia Woolf (escritora que tanto me emocionou e me cativou anteriormente) após uns anos sem contato com sua obra. Em alguns contos ou trechos de romance eu entrevia aquele prazer delicioso através da reflexão de suas personagens e retratos de outrora, noutras me via numa frustrante confusão em compreender o que foi escrito e resgatar o entretenimento perdido com o passar dos anos. Meio que sentindo meu cérebro completamente enferrujado ou até mesmo mais burro, para ser um pouco exagerado.
A trama da governanta que tenta proteger os sobrinhos do patrão da ameaça de fantasmas e descobre que há mais mistérios envolvendo o passado deles é uma daquelas que melhoram cada vez em que é revista, tamanha sutileza e engenhosidade de Henry James em compor as personagens, sua psicologia e motivações por trás de suas atitudes, pois vamos entendendo o teor subliminar de cada frase rica de sentidos e duplas interpretações, que fazem com que A Volta do Parafuso não seja classificado apenas como um livro de fantasmas ou terror. A análise que o autor faz desta situação-limite foge a este simples rótulo, sua preocupação não é assustar o leitor com as aparições misteriosas e sim concentrar-se na reação que a protagonista tem diante destes estranhos eventos e a instabilidade de suas emoções.
A Volta do Parafuso é um daqueles livros que resumem o que escrevi anteriormente: uma leitura que te surpreende e se renova toda vez que estamos diante de suas brilhantes linhas, sua longevidade e sua condição de clássico não se fez à toa, foi forjada com muita primazia por seu autor. Fato que nos faz reforçar o prazer que sentimos pela leitura e o hábito de rever aqueles trabalhos do qual gostamos ou também não compreendemos muito. Então, corram para aquele livro esquecido na estante, tire a poeira de sua superfície e revivam os sentimentos desfrutados no passado, quando ele foi sua tão agradável companhia por alguns dias.

Um comentário:

  1. Eai blz?seguindo teu blog,segue o meu ai parceiro.
    http://hiphopactivistface.blogspot.com/

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