9 de março de 2011

Cisne Negro e a responsabilidade de "ser artista"


Não vou contar o final do filme, mas alguns aspectos importantes dele serão citados, se você não quiser saber algo a respeito de Cisne Negro, por não tê-lo visto, fique longe deste texto.

Nina é uma obstinada bailarina, sonha em ser uma grande estrela da dança, para isto almeja o papel principal do balé “O Lago dos Cisnes”. Mas será que ela está preparada para tal? Querer não é poder, muitos dizem por aí, esse ditado um tanto quanto derrotista e pessimista persegue muitas vezes aqueles que desejam ou desejaram seguir uma carreira artística. Vem-se antes a pergunta clássica: Por que ser artista? Num determinado momento do filme Cisne Negro, sabemos que Nina (Natalie Portman) tem uma mãe protetora e controladora, que a mesma foi ex-bailarina e exerce uma influência quase repressora sobre a filha, tratando-a como uma sensível bailarina de caixa de música. Entendemos que a mãe (Barbara Hershey) quando jovem largou a carreira devido a gravidez em que deu a luz à Nina. A mãe transfere esta responsabilidade de ter desistido de seus sonhos para a filha, assim como a esperança de que Nina faça em vida o que à ela não foi permitido: ser uma grande bailarina. Mas questiono se Nina queria realmente seguir esta profissão ou muito de suas escolhas se deve ao “débito” que sua mãe sempre deixou claro que a filha tinha. Com esta missão nas costas, Nina tem que se mostrar a filha perfeita a bailarina perfeita e esquece de si mesma, reprimindo seus desejos, anulando-se para ser o que a sua mãe projetou em si. Daí basta um único passo para o surto mental. Nina quer o papel principal e ao ganhá-lo tem que lidar com o peso enorme que é interpretá-lo e a pressão psicológica que ele traz consigo. Nina tem que lidar com seu lado negro com os desejos que reprimiu em toda a sua vida, experiências que acarretarão em graves consequências para ela.


Ser artista, antes de tudo, é o ter a certeza em “sê-lo”, não somente deixar-se levar pelo exótico, pelos louros, aplausos ou elogios. Ser artista é permitir-se anular-se em detrimento da obra. Saber ser o artista e a obra. Separar as duas coisas. Marcel Proust, numa das tantas belas frases de seu monumental “Em Busca do Tempo Perdido”, escreveu: “O artista é uma janela que dá para uma obra-prima”, somos apenas um instrumento, um joguete de algo maior e inominado, para que se origine um trabalho que tenha uma coisa a dizer ao mundo. O artista nunca deve tentar ser maior que sua obra, o artista morre, a obra fica e o tempo, implacável, vai julgar sua efemeridade ou sua permanência indelével. É lidar com seu lado obscuro, seu lado bom, é ver-se melhor e pior, é enxergar-se humano, entrever o humano em todos e, assim, disso que tudo que vê e interpreta, engendrar a obra, forjá-la, torná-la um todo.
Nina é frágil e insegura, chora a cada repreensão do diretor do espetáculo, treme diante de suas investidas sexuais, enxerga ameaça e concorrência em tudo à sua volta. Insegurança que advém da total falta e conhecimento de si mesma. Se Nina se conhecesse, talvez nem no balé ela estaria. Conta apenas com a sua técnica perfeita para dar corpo e alma aos dois cisnes do balé que encena. Técnica é a base que todo artista usa para chegar ao que quer: a obra. É de suma importância que este a conheça profundamente, no entanto não se prenda a ela para gerar seu rebento. Muito da originalidade de seu trabalho surge do instinto, é do instinto que nasce a alma da obra. A técnica gritando para que vá para a direita e o instinto seduzindo para a esquerda. Um risco e tanto. O risco faz parte e está inerente em cada decisão e o medo nunca deve ser o mediador delas. O artista deve ser guiado pela sinceridade, pela coerência de ideias, pela necessidade de denúncia de nós mesmos, pelo leve abrir da cortina e do tirar da máscara.
Para Nina, ser o Cisne Negro é abandonar a si mesma, ela é o Cisne Negro, encoberto e sufocado por tantas outras moças ideais que buscou ser apenas para agradar a mãe. Ser o Cisne Negro é assustar-se com ela mesma, perceber-se tão sedutora, malvada e arrivista quanto a personagem que interpreta. Esse descamar de sua pele, revela a plumagem escura que não deseja encarar. Esse esfacelamento de sua personalidade nada mais é que a revelação de seu verdadeiro eu.
O artista deve conhecer-se antes de tudo, ver a perfeição no defeito, pois esta irregularidade é ele mesmo, sua própria humanidade, o seu natural, a própria realidade que, por mais que tente mascarar, virá à tona. Sempre.

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