20 de março de 2011

Édipo Rei e a tragédia da vida real: Coisa do destino?

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    “Ai de mim!”, clamam os personagens das tragédias gregas quando diante do terror de suas descobertas e ações no enredo de suas estórias. A palavra tragédia, atualmente, é usada para designar algo muito grave, desastroso, como o recente terremoto e tsunami que destruiu grande parte do Japão. As tragédias tem origem na Grécia, no século V a.C. e o terror advindo das situações narradas no palco, interpretadas pelos atores, tinha a função de educar os cidadãos, ou a pólis despertando o terror e depois a compaixão na plateia, a purgação deste sentimento (ou seja a digestão deste) resulta na tão conhecida catarse.
    Édipo Rei é considerada a maior tragédia já escrita, muitos devem ter lido, assistido ou pelo menos souberam alguma vez da estória, escrita por Sófocles, do rei que descobre que matou o próprio pai e desposou a mãe. Histórias como esta circulam hoje em dia nos jornais e sites de todo o mundo, vira e mexe descobrimos que a filha mandou matar os pais, que os pais planejaram a morte do filho, mães que mataram crianças por causa do marido ou do amante, o amigo que traiu covardemente o outro, ou seja, projeções contemporâneas das antigas tragédias gregas, e com isto vemos que o seio familiar e as relações de amizade estão em plena desestruturação. A diferença destas histórias para Édipo é que ele não tinha consciência dos atos que cometeu enquanto as pessoas dos dias hoje fazem tudo isto premeditadamente, a sangue frio.
    Mais uma vez volto a falar do inexorável, do irreversível, daquilo que não se pode deter, deixar de se cumprir: o tão temido e desconhecido destino. Se ele fica a cargo de Deus ou algum ser maior, ou seres, dependendo da crença pessoal de cada um, eu não sei. Mas não tem vezes que, ao pararmos para refletirmos aonde chegamos, ao fazermos uma breve revisão de nossas vidas, não ficamos com a impressão de que “era” para ser deste jeito e de mais nenhum outro modo? Se este destino foi forjado por esta força maior, somos apenas joguetes dos caprichos deste Deus (vou usar o singular, mas que este Deus represente a pluralidade das religiões existentes neste país), que nos conduz para lá e para cá como fantoches a seu bel prazer. Se somos nós que fazemos este destino, tudo é fruto de nossa vontade, de nossos atos impensados e daqueles milimetricamente estudados, aí não há interferência divina. Às vezes acho que Deus não interfere em nada, apenas zela para que o nosso destino se cumpra, nos conduz invisivelmente para o final, pois este já está traçado ou escrito (maktub, dizem os árabes). Aí minha crença de que somente minhas escolhas ditam o que sou hoje fica um tanto quanto abalada. Pois a vida mostra que coincidências acontecem e nos surpreendem quando menos esperamos.
    Era para conhecer aquele cara e namorá-lo e não o outro, era para iniciar meus estudos na faculdade este ano e não nos anteriores, e olhando para trás, não com pesar ou nostalgia (como já escrevi em um texto anterior, vide “Sessão nostalgia” neste blog), tudo, assustadoramente, faz muito, muito sentido, o “destino” sabe o que faz. Ainda sou a favor de que temos que traçar nosso próprio caminho, não esperar de um Deus que as coisas aconteçam, daí o sentido de que não há interferência, pois a partir do momento que você se mexe, a sua história caminha para o rumo predestinado.
    Laio e Jocasta, pais verdadeiros de Édipo, se precipitaram e decidiram abandonar o filho à morte ao invés de pagarem para ver se a profecia se cumpriria ou não, quiseram agir e não deixar as coisas acontecerem, mesmo que de uma forma abominável que é mandar matar o próprio rebento. Édipo Rei preferiu fugir da cidade em que moravam seus pais adotivos para não cometer os horrendos crimes que descobriu terem sido previstos ao invés de ficar e confirmar se isto seria mesmo uma verdade. Ambos, pais e filho, fizeram suas próprias histórias caminharem. Escolheram ir contra o inexorável para evitar a tragédia que se anunciava. Mas suas decisões apenas fizeram confirmar o que se esperava (o filho do rei não foi morto e, sim, entregue à outra família; Édipo, sem saber, encontrou o pai verdadeiro em sua fuga e o matou e, depois de ter decifrado o enigma da esfinge, foi consagrado rei e casou com a rainha, sua mãe, sem o saber, é claro).
   Impotência é o primeiro sentimento com que nos deparamos diante de tão trágica e desesperadora constatação. O conformismo vem logo a seguir, se já está tudo escrito, definido, por que vou lutar contra esta força que me conduz ao fim esperado? Pode-se ao final chegar à conclusão de que duas possibilidades envolvem todas estas circunstâncias (uma que você vai esperar passivamente as coisas acontecerem e outra em que você prefere correr atrás do que quer), mas, independente delas, é você que vai dar o próximo passo para qual via desta estrada bifurcada.

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