15 de maio de 2011

A desumanização do homem em A Metamorfose, de Franz Kafka





    Acordar e ver-se um inseto. Deste princípio assustador, cunhou-se uma das maiores estórias da literatura mundial. Quem não tem um pouco de Gregor Samsa em si? Quem não se sentiu uma barata, tripudiada por todos, um incômodo, um corpo estranho no seio familiar que não deixa de ser uma extensão da sociedade? Estou me referindo à obra-prima "A Metamorfose" de Franz Kafka, um registro atemporal da desumanização do homem, sua opressão, cuja vida está única e exclusivamente aliada ao trabalho, uma novela exemplar que atravessa os anos e décadas e mantem o fôlego e a vivacidade, quase um século depois de sua publicação.
    O drama de Gregor Samsa, que acorda transformado num mosntruoso inseto retrata a nossa própria realidade. Gregor perde toda sua importância para a família, após sua metamorfose, ele que a carregava nas costas, trabalhava exaustivamente para dar uma vida de conforto à ela e ainda pagar as dívidas de um negócio mal fadado de seu pai, abrindo mão de suas próprias vontades. Agora é um verdadeiro fardo, um incômodo e uma vergonha aos membros deste grupo. Quem já teve alguém no seio do lar que ficou desempregado, logo vai relativizar a situação de Gregor Samsa com a sua história. Você será sempre, dentro da lógica de uma sociedade capitalista, que querendo acaba influenciando a lógica de uma família também, se você não gera lucro, você é um inseto, se você não ajuda no sustento da família, também. O pai, a mãe e a irmã, esquecem do Gregor e de tudo o que ele contribuiu, depois que ele perde seu aspecto físico humano e ignoram o fato, ou pelo menos não tentam apreender, que Gregor não perdeu de todo a sua humanidade, ele ainda consegue raciocinar, ainda não perdeu seus sentimentos.
    Gregor passa o tempo todo encarceirado no seu quarto, longe do convívio de sua família, livre de sua pouca dignidade, pois o espaço, com o passar do tempo, tem seus móveis retirados, depois vira um depósito de coisas inúteis, Gregor perde o seu lugar, a sua privacidade. Lembra-se dos vários momentos do passado, os planos que tinha para a irmã, a esperança de que ainda tudo voltaria ao seu normal. O passado é a única coisa que lhe resta, a memória é algo em que ainda se apega. A família precisa trabalhar no lugar de Gregor, ele não é mais útil, não é mais o sustento e o alicerce onde a família se amparava financeiramente. Por esquecerem a aliança de sangue que possuem, Gregor muitas vezes é tratado como algo a ser esmagado.
    O absurdo é recorrente na obra de Kafka, seus personagens de repente se veem no meio de uma situação incontornável, da qual não podem fugir, não podem lutar e nunca vão resolver, é assim com Gregor Samsa, foi assim com Joseph K., de outro extraordinário livro, O Processo, que ao acordar vê-se acusado de um crime do qual não tem conhecimento. O capitalismo, a burocracia das instituições, a crueldade e o despotismo de uma sociedade que coage os seus, sociedade protocolar, fria, indiferente estão ali registrados nas linhas precisas deste fantástico autor.
    O olhar de Kafka no início do século passado continua urgente e relevante, sua universalidade é o sinal de que quase nada mudou, somos apenas caixeiros viajantes como Gregor Samsa, transformados em barata quando não tivermos mais serventia aos patrões de nossa vida, aos olhos de nossos familiares e próximos, até para nós mesmos, quando alienados de toda a nossa triste condição.

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