22 de maio de 2011

O Morro dos Ventos Uivantes



   Logo quando entrei na Universidade, foram pedidas duas leituras obrigatórias para o semestre, uma delas era a do romance "O Morro dos Ventos Uivantes" e logo a palavra "obrigatória" ganhou um outro significado além da necessidade da nota ou do trabalho que este livro iria resultar dentro das aulas. Explicar este clássico é um tanto quanto complicado, o que posso adiantar é apenas uma visão pessoal de quem ainda precisa reler seu conteúdo, mas aqui vão as primeiras impressões, que sempre vem cercadas de certo entusiasmo, às vezes um entusiasmo quase cego a outros aspectos. Se, como diz o ditado, "A primeira impressão é a que fica", tive a sorte de ter tido a melhor destas diante desta obra escrita por Emily Brontë. Um fato, ao menos, me impressionou nesta leitura: a violência, não a física, mas a moral, a violência do verbo, do desprezo, dos sentimentos. Todos os personagens o são em sua essência passionais, paixão que não resulta apenas do sentimento romântico, paixão que é destilada do ódio, da vingança, da arrogância, que se concentra na mente humana, toma os impulsos e cega a quem está totalmente dominado por tais emoções. Heathcliff seria a princípio um vilão, mas sua caracterização traz outras camadas além da maldade inerente em sua natureza, dentro de si estão outros sentimentos mal resolvidos, que fazem a definição de "demônio" e "diabo", uma das diversas ofensas que os personagens se referem ao protagonista, equivocada, e que muitas vezes não o definem por completo.
   O que diferencia O Morro dos Ventos Uivantes de outras obras da mesma época, o Romantismo, é a caracterização dos personagens, a heroína não é exatamente uma heroína, o seu par correspondente está longe de ser um herói clássico, muito menos um vilão caricato e os outros personagens à sua volta possuem dimensões que reforçam e estendem as qualidades destes protagonistas tão humanos. A complexidade e a intensidade das emoções descritas fazem com que nos defrontemos com um painel de figuras que são movidas pela raiva quando esta os toma por completo, que reagem conforme o seu meio, perdendo quase a sua própria civilidade. O clássico de Emily Brontë antecipa características do Realismo/Naturalismo. Um romance que em sua época gerou controvérsia, críticas severas pelo exagero do texto considerado violento, pela linguagem utilizada, que muitos taxaram de vulgar. Hoje em dia, o texto pode repelir por estes aspectos, no entanto não impede o fascínio e o interesse para os caminhos e atitudes que cada personagem seguirá e tomará. Trata-se de um romance que manteve-se à frente de seu tempo, a conservadora era Vitoriana, tempo que se encarregou de transformá-lo num clássico.
   Heathcliff teve seu amor por Catherine desprezado em detrimento dos interesses desta por outro homem mais rico, a posição social foi mais forte do que a felicidade ao lado de quem realmente amava, mesmo que viesse também acompanhada por dificuldades financeiras, já que Heathcliff não tinha renda e foi adotado pelo pai de Catherine ainda pequeno. O irmão de Catherine é consumido pelo álcool e pelo vício do jogo após a morte da esposa, Ellen é a testemunha ocular da decadência financeira e moral da família Earnshaw e da ascensão social de Heathcliff, além disso temos os dilemas amorosos de Catherine e seu gênio voluntarioso, mimado e egoísta, Edgar Linton, seu marido, tenta lutar contra a sua passividade e seu orgulho ao ver a esposa dividir a atenção entre ele e a amizade pelo amigo de infância. A trajetória de duas gerações desta família é uma narrativa que não abre mão de certos clichês do próprio movimento romântico do século XIX, mas cativa pela complexidade de uma trama que permanece interessante, apesar de alguma poeira que incomode ali e aqui os leitores de nosso tempo, mas é a imortalidade de suas fortes emoções que vão dar todo o tempero necessário para nos darmos conta de um verdadeiro monumento da literatura de todos os tempos, são estas fortes emoções que tornam O Morro dos Ventos Uivantes tão atemporal, influenciando até hoje diversos autores e artistas e novas gerações de leitores.

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