25 de junho de 2011

Kung Fu Panda 2: Um pretexto para falar de desenhos animados



Fui meio que a contragosto assistir ao Kung Fu Panda 2, continuação da animação da Dreamworks de 2008. Não sou um grande fã de animações, pelo menos não tenho hábito de assistí-los na tela grande do cinema, principalmente sabendo que existe o novo filme do Woody Allen ou da Nicole Kidman em cartaz. Prefiro esperar o seu lançamento em DVD. Como fui convidado e não paguei nada pelo ingresso ou pipoca, não apresentei nenhuma objeção, nem mesmo o fato de não ter assistido o primeiro filme. No entanto, minha resistência inicial sempre é quebrada, a criança interna ressurge poderosa e, quando o filme tem qualidades suficientes, claro, para despertar a magia, lá está eu me divertindo tanto quanto uma criança de 6 anos.
Façam uma retrospectiva da infância, quais desenhos vocês gostavam e quais deles vocês ainda tem boas lembranças e ainda os revê com a mesma satisfação dos tempos da aurora de suas vidas, da sua infância querida que os anos não trazem mais?


Atualmente ainda me divirto com Pica Pau (reprisado à exaustão na Record), entretenimento acrescido daquele sentimento nostálgico. O primeiro desenho que na verdade me conquistou foi Os Cavaleiros do Zodíaco, exibido na extinta TV Manchete, clássico dos animes japoneses, não perdi um dos episódios incluindo suas reprises. Quando a série foi reapresentada pela Band, logo vi que o frisson e o fascínio passaram, enxergava a série com um outro olhar e ria dos diálogos quase sofríveis que as personagens diziam umas às outras. A vida adulta nos faz entrever coisas que, quando crianças, não entendemos, ao mesmo tempo em que estraga a graça que tínhamos antes, num primeiro contato. Por exemplo, o quanto os desenhos antigos se apoiavam na violência para fazer rir e divertir: tiros de revolver, bombas, dinamites e bigornas caindo sobre as pessoas. O que seriam do Pica Pau, Pernalonga e sua turma sem estes recursos? O politicamente incorreto era o que ditava a lógica destes desenhos, algo que se perdeu hoje em dia com as novas atrações, a única que ainda traz um pouco deste nonsense é o Bob Esponja.
Eu, adulto chato e casmurro, ainda me divirto com as animações, quando são exibidos desenhos engraçados como Shrek (os dois primeiros, claro), todos os produzidos pela Pixar (pequenas jóias e algumas grandes obras-primas). Kung Fu Panda 2 se encaixa neste perfil e já me conquistou por uma ideia simples e eficiente que não desrespeita a inteligência de adultos e crianças, além do visual arrebatador e da grande qualidade técnica, inerente à maioria das animações da Dreamworks, incluindo os já clássicos da Pixar também. Em Kung Fu Panda 2, temos a trajetória do urso panda Po, que neste filme vai em busca de seu passado, para saber quem são seus verdadeiros pais, além de enfrentar a ameaça do malvado pavão Lord Shen que quer dominar a China e destruir o Kung Fu. Para derrotar Shen e, ao mesmo tempo, ter que lidar com seu desconhecido passado, Po precisa descobrir a paz interior.
A animação em 3D, que predomina nos cinemas de todo mundo (que muitos referem Toy Story como o primeiro filme feito com esta tecnologia, os brasileiros mais bem informados sabem que Cassiopéia, animação nacional, se enquadra neste posto e infelizmente não terá este reconhecimento mundial), dita os rumos deste gênero nos últimos anos, pouco filmes de animação tradicional conseguem despertar interesse e a bilheteria do grande público, geralmente são usados visando outros resultados mais artísticos e autorais (como A Viagem de Chihiro, de Hayao Myizaki e outros).
     3D ou não, feito para a televisão ou para os cinemas, as animações sempre farão parte de um canto especial em nossa memória, mesmo com outras preferências se sobrepondo ao velho personagem de desenho animado, uma hora ele tira um pouco do pó coberto para nos trazer de volta à infância mesmo que por alguns minutos.

19 de junho de 2011

Grande Hotel, resquícios da era de ouro de Hollywood


Recentemente assisti a Grande Hotel de 1932 com Greta Garbo brilhando como uma dançarina em crise, além de uma ascendente Joan Crawford deliciosa como uma taquígrafa ambiciosa e outras estrelas da época reunidas em uma só película, como John Barrymore, Walace Beery, Lionel Barrymore e Lewis Stone. Esta comédia não chega a ser uma obra-prima perfeita, no entanto é uma das primeiras investidas de um estúdio em reunir um grande elenco no mesmo filme. Este trabalho fez sucesso nas bilheterias da época e foi o vencedor do Oscar de melhor filme (única categoria ao qual foi indicado).
     Grande Hotel é um dos primeiros títulos a contarem estórias com várias personagens que se entrecruzam e interagem num mesmo espaço, algo que Robert Altman faria com a sua peculiar genialidade em filmes como Nashville e Short Cuts. Em um luxuoso hotel de Berlim encontramos uma estrela da dança Grusinskaya (Garbo), o falido Barão Felix von Geigern (John Barrymore) que faz amizade com Otto Kringelein (Lionel Barrymore), um homem que deseja passar os últimos dias de vida no local  e uma taquigrafa (Crawford) a serviço de Preysing (Beery), um magnata prestes a fechar um negócio que pode salvar as finanças de sua indústria. Uma espécie de ciranda de interesses e romances conduzidas com destreza pelo diretor Edmund Goulding, o filme cativa por algumas caracterizações, as femininas principalmente: Garbo por vezes exagera na interpretação da insegura bailarina Grusinskaya, mas não perde a simpatia e a irradiante presença, enquanto Joan Crawford rouba a cena como a taquígrafa que se interessa pelo barão além de ser assediada por Preysing. O desesperado barão de John Barrymore ganha nosso interesse e é o que praticamente contracena com todos os personagens no hotel e acaba se apaixonando e tendo um romance com a instável bailarina.
     Grande Hotel é um grande entretenimento, que chama a atenção dos cinéfilos, principalmente dos fãs do cinema clássico americano como eu e dos saudosos da chamada Era de Ouro de Hollywood, filme que não perdeu o seu charme, mesmo após muitas décadas e tantos outros filmes mais inovadores terem surgido tempos depois.

O império do efêmero


Nesta última semana ocorreu a São Paulo Fashion Week que comemora 15 anos de existência. É impossível não pensar sobre o domínio da indústria da moda e sua influência nos costumes da sociedade. A criação de modismos, de novos hábitos e necessidades de consumo, de estar sempre atualizado e vestindo a roupa que é o mais novo lançamento nas lojas. A moda exerce um grande fascínio nas pessoas, isso é inegável. Um livro que faz uma profunda análise deste universo peculiar e suas diversas facetas é o controverso e clássico ensaio de Gilles Lipovetsky, intitulado “O império do efêmero”. Controverso porque foi contra a corrente do pensamento generalizado e vigente na época de sue lançamento (1987) sobre a moda e seus artifícios. Clássico, pois mesmo 24 anos após sua publicação, percebemos o quanto do olhar de Lipovetsky permanece atual.

Gilles Lipovetsky, autor de "O império do efêmero"
Neste livro, o autor enxerga antes de tudo a moda como uma forma de expressão individual de cada pessoa. Por mais que muitas peças de roupa em seu formato não tenham se alterado tanto (sempre as mesmas calças, camisetas, vestidos, assim como as roupas típicas em outra épocas e séculos que permaneceram por muitos anos em voga), você tem a liberdade de combiná-las da forma que desejar, usando os acessórios que mais se interessar ou mesmo recusando-se a seguir as tendências, que é uma forma de fazer valer sua própria expressão, ao mesmo tempo que você, mesmo assim, não está escapando do domínio da moda: a recusa e a necessidade de ser diferente da grande massa em grande parte também é um produto criado por esta indústria.
Seu texto remonta aos tempos da Idade Média, quando ele afirma que naquela época não existia moda, ela aos poucos passou a ser símbolo de distinção social (realidade que ainda perdura atualmente), a aristocracia precisava se diferenciar das outras classes, ostentando um vestuário suntuoso, exagerado, quase inimitável, porque também era caro demais. Quando a burguesia ascendeu economicamente, esta visava assemelhar-se à classe aristocrática e a imitar seu modo de se vestir. Logo a moda deixou de ser exclusividade de uma única classe e com a Alta Costura, através das grifes (como a de Coco Chanel) passou a vestir uma burguesia cada vez mais rica. Consequentemente essas grifes foram expandindo o seu público e gradativamente foi se “democratizando”, a moda não seria uma propriedade de grupos de alto poder aquisitivo, estendeu-se às outras camadas da sociedade contaminadas do mesmo frisson pelo novo. Assim foram surgindo também outras grifes como a Yves Saint Laurent, Dior, Gucci, as lojas de departamentos, etc. O autor também explica os booms do uso do maiô, do biquíni, do jeans (que pela primeira vez não foi uma tendência vinda da alta sociedade à outras classes e, sim, da classe trabalhadora para universalizar-se e tornar-se um marco na história da moda), a moda jovem (e como esta ainda rege as normas do vestir até hoje), o predomínio da moda feminina em detrimento da masculina (algo que tem se modificado aos poucos hoje em dia) e outros eventos que marcaram este complexo universo fashion.


Lipovetsky também analisa que a necessidade de parecer jovem, de renovação contínua, o valor cada vez maior dado às frivolidades, influenciou e muito outros veículos de comunicação como a mídia, a publicidade, a televisão, além da política (englobando as espetaculares campanhas eleitorais e metamorfoseando até mesmo as crenças políticas tão apaixonadas e radicais, como a dos socialistas em Maio de 1968, ideologia que cedeu lugar ao pragmatismo do neoliberalismo. Em outras palavras o capitalismo venceu em muitos aspectos), a indústria de produtos, eletrodomésticos, a cultura pop, que com toda uma gama de recursos, ajudam a disseminar e a criar novos hábitos, que logo são ultrapassados e substituídos por outros e por mais outros e outros...
A moda não é mais sinônimo de vestir-se bem, a moda tornou-se um exemplo de uma atitude incrustada no pensamento de toda uma sociedade. É uma ideal que, sem percebemos, nos influencia à cada dia e nos deixa muitas vezes cegos diante dos abismos que vão surgindo entre cada pessoa, cada classe social, quando estamos preocupados com o próprio umbigo, com a autoexpressão, autopromoção, com o egocentrismo a ditar todas as nossas ações. O individualismo é a nossa realidade, que se, por um lado, dá a liberdade de fazermos com o nosso corpo e nossas escolhas o que quisermos também nos isola cada vez mais um do outro.