19 de junho de 2011

O império do efêmero


Nesta última semana ocorreu a São Paulo Fashion Week que comemora 15 anos de existência. É impossível não pensar sobre o domínio da indústria da moda e sua influência nos costumes da sociedade. A criação de modismos, de novos hábitos e necessidades de consumo, de estar sempre atualizado e vestindo a roupa que é o mais novo lançamento nas lojas. A moda exerce um grande fascínio nas pessoas, isso é inegável. Um livro que faz uma profunda análise deste universo peculiar e suas diversas facetas é o controverso e clássico ensaio de Gilles Lipovetsky, intitulado “O império do efêmero”. Controverso porque foi contra a corrente do pensamento generalizado e vigente na época de sue lançamento (1987) sobre a moda e seus artifícios. Clássico, pois mesmo 24 anos após sua publicação, percebemos o quanto do olhar de Lipovetsky permanece atual.

Gilles Lipovetsky, autor de "O império do efêmero"
Neste livro, o autor enxerga antes de tudo a moda como uma forma de expressão individual de cada pessoa. Por mais que muitas peças de roupa em seu formato não tenham se alterado tanto (sempre as mesmas calças, camisetas, vestidos, assim como as roupas típicas em outra épocas e séculos que permaneceram por muitos anos em voga), você tem a liberdade de combiná-las da forma que desejar, usando os acessórios que mais se interessar ou mesmo recusando-se a seguir as tendências, que é uma forma de fazer valer sua própria expressão, ao mesmo tempo que você, mesmo assim, não está escapando do domínio da moda: a recusa e a necessidade de ser diferente da grande massa em grande parte também é um produto criado por esta indústria.
Seu texto remonta aos tempos da Idade Média, quando ele afirma que naquela época não existia moda, ela aos poucos passou a ser símbolo de distinção social (realidade que ainda perdura atualmente), a aristocracia precisava se diferenciar das outras classes, ostentando um vestuário suntuoso, exagerado, quase inimitável, porque também era caro demais. Quando a burguesia ascendeu economicamente, esta visava assemelhar-se à classe aristocrática e a imitar seu modo de se vestir. Logo a moda deixou de ser exclusividade de uma única classe e com a Alta Costura, através das grifes (como a de Coco Chanel) passou a vestir uma burguesia cada vez mais rica. Consequentemente essas grifes foram expandindo o seu público e gradativamente foi se “democratizando”, a moda não seria uma propriedade de grupos de alto poder aquisitivo, estendeu-se às outras camadas da sociedade contaminadas do mesmo frisson pelo novo. Assim foram surgindo também outras grifes como a Yves Saint Laurent, Dior, Gucci, as lojas de departamentos, etc. O autor também explica os booms do uso do maiô, do biquíni, do jeans (que pela primeira vez não foi uma tendência vinda da alta sociedade à outras classes e, sim, da classe trabalhadora para universalizar-se e tornar-se um marco na história da moda), a moda jovem (e como esta ainda rege as normas do vestir até hoje), o predomínio da moda feminina em detrimento da masculina (algo que tem se modificado aos poucos hoje em dia) e outros eventos que marcaram este complexo universo fashion.


Lipovetsky também analisa que a necessidade de parecer jovem, de renovação contínua, o valor cada vez maior dado às frivolidades, influenciou e muito outros veículos de comunicação como a mídia, a publicidade, a televisão, além da política (englobando as espetaculares campanhas eleitorais e metamorfoseando até mesmo as crenças políticas tão apaixonadas e radicais, como a dos socialistas em Maio de 1968, ideologia que cedeu lugar ao pragmatismo do neoliberalismo. Em outras palavras o capitalismo venceu em muitos aspectos), a indústria de produtos, eletrodomésticos, a cultura pop, que com toda uma gama de recursos, ajudam a disseminar e a criar novos hábitos, que logo são ultrapassados e substituídos por outros e por mais outros e outros...
A moda não é mais sinônimo de vestir-se bem, a moda tornou-se um exemplo de uma atitude incrustada no pensamento de toda uma sociedade. É uma ideal que, sem percebemos, nos influencia à cada dia e nos deixa muitas vezes cegos diante dos abismos que vão surgindo entre cada pessoa, cada classe social, quando estamos preocupados com o próprio umbigo, com a autoexpressão, autopromoção, com o egocentrismo a ditar todas as nossas ações. O individualismo é a nossa realidade, que se, por um lado, dá a liberdade de fazermos com o nosso corpo e nossas escolhas o que quisermos também nos isola cada vez mais um do outro.

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