30 de agosto de 2011

Glee - 2ª temporada


Glee é o meu calcanhar de Aquiles. Por mais que tenha defeitos, continuarei gostando desta deliciosa série musical. O ambiente escolar, as canções pop, os conflitos adolescentes, o arrivismo, a busca por sucesso e popularidade e o medo quase crônico de ser um loser ou perdedor. O primeiro ano ressaltou bem estes temas e os mesmos seguem fortes na segunda temporada, que também ganha o adicional de um assunto polêmico e tão frequente nas escolas: o bulliyng. Além disso, temos aqueles velhos clichês sobre aceitar você mesmo como se é, que a música Born This Way, da Lady Gaga ilustrou tão obviamente e acabou sendo tema de um dos episódios. Claro que Glee consegue fazer mágica até com as canções esquecidas da música pop e aqueles sucessos que não são nenhuma unanimidade crítica. Mas a mistura do clássico com o contemporâneo musical rendeu bons frutos e divertidos episódios.


O roteiro continua sendo seu principal problema (por mais que os personagens estejam mais desenvolvidos, afinal não é preciso introduzi-los ao grande público, somente progredir com cada uma de suas trajetórias na trama), alguns conflitos foram mal elaborados e resolvidos (dando-se a impressão de pressa mesmo em finalizá-los para poder se encaixarem dentro do tema/música de algum outro episódio). As cirandas amorosas entre as personagens confundiram um pouco e aconteceram e terminaram rápidas demais: Finn (Cory Monteith) larga Rachel (Lea Michele), volta para Quinn (Dianna Agron) e depois termina com esta para reconciliar-se com Rachel. Quinn começa o namorar o novo integrante do coral, Sam (Chord Overstreet), o trai com Finn almejando tornar-se Rainha do Baile. Sam fica com Santana (Naya Rivera), e esta para disfarçar seus sentimentos por Brittany (Heather Morris), mantém um namoro de fachada com David Karofsky (Max Adler). Tina (Jenna Ushkowitz) larga Artie (Kevin McHale) para ficar com Mike (Harry Shum Jr.). Enquanto Artie começa a namorar Brittany, que também nutre sentimentos por Santana. Os únicos estáveis são Puck (Mark Salling), que se apaixona perdidamente por Lauren Zizes (Ashley Fink), uma gordinha cheia de atitude, e Mercedes (Amber Riley), que passa a temporada toda sozinha, mas no final fica com Sam. Além disso, temos o romance entre Will Schuester e Emma (Jayma Mays), que não se resolveu completamente, o professor de espanhol que separou-se da esposa na temporada passada, fica com Emma, mas esta começa um namoro com um charmoso dentista que acaba com um casamento nunca consumado em Las Vegas e um previsto divórcio.


Chris Colfer acaba sendo o principal destaque desta temporada, seu Kurt sofre com o preconceito de ser gay, a repressão de David Karofsky (que revela-se um homossexual enrustido), com o pai que teve um infarto, trocou de escola e do coral depois de ter sido ameaçado e conheceu Blaine (Darren Kriss), principal cantor de um coral do outro colégio e gay assumido e amor não correspondido do jovem estudante.


Destaque também para as homenagens ao musical cult Rock Horror Show e ao disco Rumours do Fleetwood Mac, ao episódio dedicado à Britney Spears (desde aí, a personagem Brittany teve grande visibilidade nos episódios seguintes com suas tiradas burras, inocentes e engraçadas) e à participação especial de Gwyneth Paltrow (com quem Will terá um breve envolvimento), que foi muito bem-vinda e deu mais movimentação à série e à nova treinadora do time de futebol americano da escola, Beiste (Dot Jones), que também sofre com o preconceito dos alunos com seu jeito masculinizado.
Ok, o New Directions não ficou entre os finalistas, mas foi para as competições com canções inéditas, uma delas muito boa (Get it right, cantada pela Rachel). De resto, elogios para a qualidade vocal dos atores (principalmente Lea Michele e Amber Riley, que continuam sendo as melhores cantoras de todo o grupo).
Agora é esperar pela terceira temporada que será a última para muitos personagens, novas participações acontecerão (muitas delas oriundas dos atores selecionados pelo reality show The Glee Project) e, esperamos, grandes emoções e, quiçá, a primeira vitória do New Directions nos concursos entre corais.

28 de agosto de 2011

Fim das férias. Vida real, cara!


Um dos momentos mais tristes de quem vive a tão chata vida adulta é o fim das férias. Trabalhamos o ano inteiro, nos estressamos, lidamos com as situações mais adversas, somos esmagados no ônibus, trem ou metrô, fazemos o nosso melhor ou nos esforçamos para tal para a empresa que nos contratou. Bem, chegam as tão esperadas férias, você finalmente tem um mês para aproveitar a vida, livrar-se de todas as suas preocupações, descansar, enfim!
Pois elas voam, passam tão rápidas, que nem percebemos. Nunca sentimos tão intensamente o gosto amargo daquele provérbio que nos acompanha desde crianças: “o que é bom, dura pouco”.
Aí nos apercebemos que fizemos nem 25% daquilo que planejamos para o gozo das férias, que aquela viagem não foi tão boa quanto esperávamos, que dormir demais naquela segunda ou terça-feira serviu apenas para encurtar o dia, que o calendário e o relógio conspiram contra nós e até os deuses entram nesta jogada se não tomarmos cuidado.
Mania do ser humano de reclamar de tudo, confesso que sou desses reclamões também. Afinal não posso dizer que foram más férias: dormi bastante, assisti alguns filmes, namorei, curti a família, tive tempo para estudar mais, ler mais, até escrever mais. Infelizmente não viajei, também não vou perder meu sono com algumas dívidas, que, enfim, foram quitadas.
Férias são necessárias, precisamos deste tempo de preguiça, de relaxamento, de desligamento do universo profissional, para o acender do nosso primitivo lado vagabundo, todo ser humano que se preza deve viver este momento.
As minhas férias chegam ao fim, infelizmente. Ao invés de aprovar aumentos absurdos de salários para os seus cargos, os nossos senadores, deputados e vereadores bem que poderiam criar um mês a mais de gozo para os trabalhadores, já que ganhamos tão mal e sofremos tanto com o seu descaso.
Ok, chega de sonhar! Afinal, logo o despertador vai gritar em meu ouvido bem cedo (Fim das férias! Vida real, cara!) e eu vou ser obrigado a levantar, pois (Fazer o que? Não ganhei na loteria mesmo...) terei que trabalhar.

27 de agosto de 2011

Um ano de blog! Então...


Ontém, dia 26 de agosto, o “Escritos e Besteiras...” comemorou um ano.
Hummm...
Soprar velinhas, fazer três pedidos, agradecer aos seguidores ou a quem deu uma espiada neste blog?
Ok, vamos seguir o protocolo...
O soprar das velas vem acompanhado de uma grande felicidade pela manutenção deste blog, que nem sempre foi atualizado com a frequência desejada e de acordo com os assuntos do momento, mas culpem a falta de tempo (trabalho, faculdade, poucas horas de sono). Manter este blog ativo com tantos outros compromissos é uma grande batalha e uma vitória parcial (afinal esta guerra continua e deve ser vencida à cada dia)...
Três pedidos?
01 – Escrever mais e melhor;
02 – Assuntos mais diversificados e atualizados com as notícias do momento também (um pecado, confesso, é falar muito de cinema em detrimento de outros temas);
03 – Não fazer deste blog um diário pessoal, vaidoso e entediante (não que eu não vá usá-lo como um desabafo quando achar conveniente e nada melhor que escrever para se livrar de algum incômodo ou angústia e o blog será um veículo).
Bem acho que são esses os desejos (estavam achando o que? Ia pedir pra ser milionário? Ganhar o Nobel de Literatura? Ter o mundo aos meus pés? Não, não... Pretensão demais (não que escritores não sejam, por natureza, pretensiosos). O blog, como foi escrito no primeiro post (Então...), foi criado para ser um recurso para que eu me obrigasse a escrever, acabou tornando-se um prazeroso desafio.
Ah, já estava me esquecendo...

Obrigado a todos por seguirem e visitarem e comentarem neste blog!

Um grande abraço a todos e vamos em frente!!!

Até o próximo post...

25 de agosto de 2011

Por que não lemos livros?


A falta de hábito de leitura é decorrente de muitos aspectos. A influência de outros meios de comunicação como o cinema, a televisão e, principalmente, a Internet, pode ser considerada como um fator que adia o tão aguardado encontro do texto escrito com o seu leitor. Essas mídias, por exigirem um grau menor de concentração e atenção de seus interlocutores e por possuírem uma assimilação mais fácil e rápida da informação, acabam caindo na preferência da maioria das pessoas, algo que não ocorre com o livro.
O cinema traduz em imagens as palavras que o autor escreveu no livro adaptado, ao invés de imaginarmos como seria tal personagem, o mesmo ganha a forma de um ator conhecido. A televisão, ao passar a notícia, seleciona aquilo que acha mais importante seguido de um discurso e opinião já prontos, o telespectador não precisa pensar. A velocidade das informações na Internet, que se renovam a cada F5 que teclamos no computador, faz com que estas sejam repassadas da forma mais simplificada possível, um texto simples que não apresente dificuldades na leitura até a próxima novidade surgir na atualização da página. Os códigos nesses três canais não só facilitam a compreensão como também permitem a execução de outras atividades paralelas.
O livro exige exclusividade de seu leitor não consegue ler um livro, assistir a televisão e arrumar a casa ou preparar o jantar ao mesmo tempo. O leitor precisa estar focado em desvendar o conteúdo do livro e dispor de uma parcela de seu tempo para tal. Tempo em que ele vai interpretar as palavras ali escritas, raciocinar, tirar suas conclusões, concordar ou não com o texto, até mesmo se emocionar. Por exigir tantas habilidades  em somente um ato, ler, as pessoas preferem outros meios de comunicação como recursos para se manterem informadas ou se entreterem.
Vivemos numa sociedade onde o código visual impera. As pessoas estão desaprendendo a ler, não a leitura comum dos tempos do prézinho (decifrar letras, sílabas e palavras), e, sim, saber tirar um entendimento de tudo isto, interpretar criticamente o que cada enunciado quis dizer, até mesmo seus subentendidos. Cabe à escola e à família estimularem e despertarem o hábito da leitura no aluno. A escola com leituras de textos que gerem interesse e prazer no aluno, um desvendar de um mundo novo, exercícios que lhe exijam a compreensão e o senso crítico. A família deve ser um prolongamento do trabalho feito na escola, não com cobranças e reprimendas, na verdade, sendo o exemplo dos benefícios proporcionados pela leitura, pais que leem podem ser um espelho para os filhos que logo farão o mesmo também, por exemplo.
     As pessoas vão voltar a ler quando encontrarem neste hábito algo que lhes ofereça algo novo e estimulante. Não podemos culpá-las totalmente por não lerem, afinal, em sua maioria, são trabalhadores que passam oito horas ou mais em seus empregos, são massacradas pelo transporte público e ainda cuidam dos afazeres domésticos. Fora isso, o alto preço dos livros os torna ainda menos acessíveis ao grande público. O hábito da leitura deve ser acompanhado pela melhoria de nossa qualidade de vida em muitos outros setores da sociedade que, por sua natureza, exclui a grande maioria.

21 de agosto de 2011

Há futuro para a escrita?


De tempos em tempos especialistas declaram o fim de alguma coisa. Às vezes dizem que a literatura vive seus últimos dias, que a música não é mais a mesma, que a arte chegou ao seu limite, etc. A linguagem escrita também teve sua morte anunciada, anunciação que curiosamente dá longa sobrevida à escrita e as outras formas de arte e expressão. Mas será que a língua escrita agoniza e clama por uma morte digna isenta de mais sofreres? Segundo a visão do filósofo Vilém Flusser, sim. É deste autor de origem tcheca que surge a obra “A escrita – Há futuro para a escrita?”, traduzida do alemão por Murilo Jardelino Costa (meu professor de Linguística do primeiro semestre da universidade). Neste livro publicado em 1987, Flusser reflete sobre a delicada e inevitável transição de um mundo dominado pela língua escrita para um mundo em que predominam as imagens técnicas. Graças aos avanços técnológicos, principalmente com o advento da informática, vivemos numa sociedade baseada numa cultura visual.
As pessoas estão desaprendendo a ler, a compreender os códigos da língua escrita, a interpretar um texto, muito disso devido a massificação das mídias  que “mastigam” e “regurgitam” aos cidadãos as informações, fazem um filtragem para aquele que tiver contato com esta, faz com que diminua a capacidade crítica de cada pessoa (já que a informação está pronta, até com uma opinião formada, para que pensar?). Daí uma preocupante geração de analfabetos funcionais, aqueles que sabem ler e escrever mas não são capazes de interpretar, tirar conclusões, esboçar uma crítica sobre o conteúdo lido.
Em 1987, Flusser fez com este A Escrita uma previsão pessimista sobre o futuro da escrita, o que mais surpreende é o quanto de tudo o que escreveu se concretizou ou está a caminho de sua conclusão. Vivemos este período obscuro sem o percebermos. Neste ensaio metalinguístico, Flusser fala de uma metaescrita, uma escrita que reflete sobre a própria escrita, escrita esta que não possui futuro, a escrita sendo substituída por editores de texto como o Word, pela televisão, o cinema e a Internet em seu auge e as novas tecnologias como celulares cheios de recursos, I-Pads, E-books, etc. Cabe aos escritores de hoje encontrarem maneiras de preservar a língua escrita e, com esta preservação, o hábito da leitura.
Flusser chegou ao Brasil em 1941 fugindo do nazismo na Segunda Guerra Mundial. Autodidata, estabeleceu-se como professor universitário mesmo sem formação acadêmica e naturaliza-se brasileiro em 1950. Voltou à Europa em 1972, após a reforma acadêmica na USP em meio à ditadura militar. Foi nesse retorno à Europa que Flusser lançou obras que o consagraram e lhe deram o reconhecimento como um teórico dos meios de comunicação (A Filosofia da Caixa Preta é um de seus escritos mais conhecidos). Morreu em 1991 num acidente de trânsito.
O legado de Vilém Flusser serve como reflexão do nosso tempo, do século XX que passou e suas grandes e rápidas transformações, com progresso e destruição na mesma equação. Lança base para prever e temer um século XXI de maiores avanços e, como sabemos, que vem acompanhado de grandes desigualdades e retrocessos intelectuais.

20 de agosto de 2011

A origem da vida e o fim do mundo segundo Malick e Von Trier



Estou tentando fazer o impossível: relacionar A Árvore da Vida e Melancolia, dois filmes tão díspares e singulares, que, no entanto, levantam profundas reflexões sobre a própria condição humana. Sinceramente, o pessimismo de Lars Von Trier gerou mais a minha simpatia do que o existencialismo do novo filme do recluso Terrence Malick. Porém, artisticamente, o trabalho do diretor americano atinge resultados surpreendentes e belíssimos que o dinamarquês e personna non grata do Festival de Cannes não conseguiu em seu filme catástrofe muito particular. Questões como: “Quem sou eu?”, “De onde vim?”, “Para onde vamos quando tudo acabar?”, sempre circularam em nossas cabeças, perguntas tão recorrentes em nossas dúvidas, cujo refletir nunca chega a uma resposta precisa. Até mesmo aquele que tem a fé inabalável em qualquer divindade ou força exterior, hesitou alguma vez nas suas convicções.
Todos somos meio Justines, meio Claires, meio Jacks, com todas as nossas insanidades reprimidas, nossa mania de controlar a tudo e nos desesperar quando nada disso dá certo, nosso ódio àquele mais próximo transbordando até não mais suportarmos. Fé e ciência entram em conflito dentro de nós, complementam-se, nos tornam mais céticos ou mais esperançosos. Para que se resolvam todos os nossos mistérios, se façam esclarecidas nossas incertezas, basta que morramos. Este desconhecido, só quem partiu desta para melhor para saber a grande verdade. Enquanto isto, a arte faz poesia com as hipóteses, pode apenas especular, não nos trazendo mais conforto (quem quiser conformar-se, que procure alguma crença), a arte não quer amenizar nada, ao fim de toda a sua obra, sempre incompleta, apenas o incômodo resta como resultado.
Que a arte sempre tente responder às nossas perguntas desta forma: operística (regada a muita música clássica), exagerada até (afinal o preciosismo de Malick assim como a insistência niilista de Von Trier são antes de tudo exagerados, de uma forma bem-vinda, antes o excesso do que a falta de algo relevante em algum filme), visualmente belas (como toda obra cinematográfica deve ser) e inquietantemente questionadoras. Não saímos indiferentes após a projeção destas duas obras, a impassibilidade é natural quando o resultado foge às nossas expectativas, para o bem ou para o mal.
     A escolha fica para nós espectadores: dar crédito ao fim iminente do nosso planeta, rota de colisão de um outro bem maior, no discurso extremo, sem concessões, de Melancolia. Ou encantar-se com as reflexões e a força poética de A Árvore da Vida e sair mais pensativo que quando entrou na sala de cinema. A relação entre duas irmãs ou o conflito entre pai e filho, ambas as estórias muito tocantes. Ou simplesmente mandar às favas qualquer tentativa de lógica e optar pelos dois, afinal quem ganha é o cinema (e os cinéfilos).

14 de agosto de 2011

Fuga para o passado


Quem nunca ficou com a sensação de pertencer a outra época ou não pensou quão bom seria viver num período que não o presente? Encontrar a si mesmo em algum lugar do passado. Infelizmente não temos a sorte de Gil (Owen Wilson) de pegar carona num carro antigo e simplesmente conviver com pessoas de outros tempos e experimentar os sabores e o glamour dos anos que já se passaram.
Woody Allen faz comédia com toda esta possibilidade e o encontro de Gil com as grandes personalidades que viveram na Paris dos anos 20 é um dos principais atrativos deste mais novo filme do diretor americano.


Gil é um roteirista que vai com a noiva Inez (Rachel McAdams) para Paris acompanhando os pais dela numa viagem de negócios. Gil está no lugar perfeito para finalizar o seu tão planejado e ambicioso romance. Encantando por estar num local onde grandes artistas e escritores também viveram, não suportando a pressão de seus sogros, as frivolidades da noiva e a convivência com um arrogante amigo desta, Gil de repente se vê transportado à Paris do início do século XX. Lá trava contato com nomes como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Salvador Dali, Luis Buñuel, etc. Toda vez que retorna à sua realidade, esta lhe parece mais sufocante e o sentimento de inadequação cresce, mais ainda quando Gil começa a ter um interesse romântico pela musa de alguns pintores da segunda década do século passado (Marion Cotillard).
Pensar ou até mesmo, no caso de Gil, estar literalmente no passado é uma forma de não encarar o presente com todos os problemas que nele se encontra. Um emprego que não satisfaz, um relacionamento com base em aparências, ou o não suportar uma vida em que se prioriza as sempre artificiais convenções sociais, todas estas podem ser razões suficientes para uma fuga providencial em outra década.
Por mais que aquele universo encante Gil, este não escapa de acertar as contas com aqueles que deixou no presente, mesmo que com a muito bem-vinda ajuda de suas novas amizades do passado, como a de Gertrude Stein (Kathy Bates) que lê os originais de seu romance e lhe dá dicas preciosas para melhorá-lo.


A insatisfação com o momento em que se vive pode ser um mal a acometer qualquer pessoa em qualquer época, da mesma forma que Gil desejava pertencer aos anos 20, a musa idealizava que o melhor período para se viver era a Belle Epoque, ou seja, nunca estaremos plenamente contentes enquanto estivermos vivos. O que nos faz cegos a muitas possibilidades, presente em que temos que tomar as mais importantes decisões, e nada como o passado e sua arte, sempre referências para as nossas ações futuras, para nos ensinar algo ou nos inspirar.



6 de agosto de 2011

Filmes tristes


Não tem jeito, adoro um filme triste, drama é o meu gênero favorito. Afinal quem não gosta de sofrer um pouco no cinema? Pelo menos eu tenho este sentimento mazoquista quando diante de uma obra que me faça querer chorar (apesar de nenhuma ter conseguido até hoje) ou me sentir mal, são tantos que fica difícil enumerá-los, posso citar dois recentes: Namorados Para sempre e Reencontrando a Felicidade. Primeiro, esqueçam os infelizes títulos em português, péssimos e de muito mau gosto (só para comparar os originais são Blue Valentine e Rabbit Role, respectivamente). O primeiro filme trata do fim de um relacionamento, à medida que vemos o casamento de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) desmoronar, sabemos como esta história de amor nasceu simultaneamente às tentativas de salvação desta relação. Já o segundo título trata de um casamento abalado pela perda do filho, onde o casal (Nicole Kidman e Aaron Eckhart) tenta com grandes dificuldades superar esta situação.
    Ambos os trabalhos foram indicados ao Oscar de melhor atriz este ano (para as performances de Michelle Williams e Nicole Kidman), também não devemos desprezar a participação de seus respectivos maridos (Ryan Gosling e Aaron Eckhart), o duelo de atuações, ou melhor dizendo, a cumplicidade e a química entre os pares foi determinante para os filmes darem certo e emocionar seu público.


    Blue Valentine consegue ser crú e terno ao mesmo tempo, além de deixar um gosto amargo, pois à medida que vamos torcendo pelo romance de Dean e Cindy no passado, sabemos que esta história está passando por uma crise profunda no futuro e está próxima do fim. No começo do filme, Cindy e Dean estão casados e tem uma filha, o clima entre os dois denota que não estão passando pelos melhores dias deste casamento, ela trabalha como enfermeira em um hospital enquanto Dean faz bicos como pintor, ambos decidem passar uma noite em um hotel futurista, mesmo que Cindy relute em aceitar o convite do marido. Dean trabalhava numa empresa de mudanças quando conheceu Cindy num asilo onde sua bisavó estava hospedada, ela vinha de um relacionamento fracassado com um lutador. A atração é imediata e engatam um namoro que logo passa por alguns percalços (o ciúme e a violência do ex-namorado de Cindy e outro evento inesperado).
    O filme não idealiza o amor e foge à regra da maioria dos filmes produzidos em Hollywood, sejam romances ou comédias românticas, o diretor Derek Cianfrance opta pelo máximo de realismo possível no retrato deste casal e é por esta razão que o filme seja tão cortante em muitos momentos, quem passou por situações parecidas como a de Cindy e Dean vai entender e se identificar com este drama.


Já Rabbit Hole pode ser encarado como o grande retorno de Nicole Kidman a um ótimo papel nos cinemas, já que as suas últimas escolhas resultaram em gigantescos fracassos de bilheteria e crítica, tamanho esforço foi recompensado com as indicações que recebeu do Oscar, do Globo de Ouro e do SAGS. Ela é Becca, a dona de casa que é obrigada a conviver com a memória do filho, morto num atropelamento há 8 meses, junto com o marido Howie (Aaron Eckhart). Ele procura num grupo de ajuda com pais que perderam os filhos algum tipo de consolo, local em que Becca não se sente á vontade, pois discorda dos discursos sobre Deus e filhos que morreram para virar anjos no céu, tão recorrente nas rodas de discussão.
A dor da morte de um filho pode ser o mais devastador sentimento vivido pelos pais e os mesmos parecem enredados numa trama cheia de culpas, remorsos, tristezas e frustrações quando tentam reconduzir suas vidas rumo a uma nova fase. As atitudes e os pontos de vista de Becca e Howie em relação ao como recomeçar são bem divergentes: se ele encontra conforto ao dividir sua dor em grupos de terapia, onde acaba iniciando uma amizade com Gaby (Sandra Oh), ela prefere o contato com o jovem que atropelou seu filho, chamado Jason, sem a raiva que a sua presença poderia trazer, mas um forma de procurar um entendimento de todo o episódio e não um culpado a quem apontar o dedo. Se Howie costuma rever vídeos de família, Becca prefere aos poucos apagar um pouco a lembrança dolorosa do filho, guardando os desenhos feitos por ele ou doando as suas roupas. Além disso, a irmã de Becca engravida, o que aumenta mais o desconforto na sua família.
John Cameron Mitchell (Shortbus e Hedwig) conduz com muita sensibilidade os pequenos passos desse casal numa corda bamba que pende perigosamente para os extremos de um casamento abalado: ou recomeço de comum acordo dos dois ou o fim iminente, pois ambos não abrem mão de suas convicções.
Os dois filmes geram reflexões sobre esta instituição que é o casamento, propensa a tantas crises, abalada por diversos fatores (a perda de um filho, problemas financeiros, a instabilidade do marido ou da esposa). São filmes tristes, pois não fazem concessões ao público e desta crueza é que resulta a sua beleza, porque assemelha-se um pouco com a nossa tão prosaica vida real.

Impressões sobre Harry Potter


O que mais me irrita em Harry Potter não é o seu protagonista, suas hesitações inerentes a qualquer herói. Talvez os fãs sejam os mais chatos de tudo o que resultou da obra de J. K. Rowling. Aquela gente que reclama que o livro é “mil vezes melhor” que os filmes exibidos no cinema, pois tem “mais detalhes”. Primeiro que é uma comparação injusta, já que os filmes adaptam as obras literárias e não fazem transposições literais do livro no qual se baseou, segundo que seria insuportável um filme com os mesmos detalhes que a obra, este não terminaria nunca e certamente resultaria em fracasso nas bilheterias de todo o mundo.
Não é o caso de Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2, que superou a marca de 1 bilhão de dólares e segue firme rumo às produções mais vistas de toda a história, sendo o trabalho que mais rendeu de todos os que fazem parte desta cinessérie. Podemos dizer que se trata de um sucesso merecido. Desde a estreia do primeiro filme, A Pedra Filosofal, em 2001, que a saga do jovem bruxo tem levado multidões aos cinemas, multidões estas oriundas de leitores ávidos pelos livros escritos por Rowling, leitores estes que importunam os nossos ouvidos com os comentários citados acima e que nunca estarão satisfeitos com qualquer coisa que seja feita baseado em seus livros favoritos.
Confesso que gosto dos filmes do Harry Potter, são bem produzidos, bem dirigidos, possuem um ótimo elenco. Neste último trabalho, Harry finalmente irá enfrentar lorde Voldemort, que matou seus pais e mantem uma estranha conectividade com o jovem bruxo após este evento. Não sou um viciado pela cinessérie e nem cheguei próximo de algum livro da autora inglesa, no entanto este trabalho consegue empolgar e mantém a tensão e a ação do início até o fim da projeção. David Yates, diretor egresso da televisão britânica, consegue finalizar toda a trama com chave de ouro. Os efeitos especiais são um grande chamariz, mas nunca roubam a cena de quem deve ganhar a atenção principal do seu público: os personagens e seus desenlaces.
O último episódio é usado para fechar todas as estórias, esclarecer algumas situações que aconteceram nos filmes anteriores, como a morte de Dumbledore. Harry finalmente tem conhecimento de seu verdadeiro destino e que o enfrentamento com o Voldemort é inevitável. É o tradicional embate entre o bem e o mal que determina toda a trajetória de Harry Potter. Outro tema recorrente é o valor das amizades nas figuras de Weasley e Hermione, que na maioria das vezes resolveram muitos dos enigmas e problemas no lugar de Harry ao longo dos livros e filmes.


Talvez o mérito dos livros e dos filmes também é o fato dos leitores/espectadores crescerem junto com os personagens, chegando à adolescência e enfrentando os mesmos dilemas e incertezas que Harry, Weasley e Hermione. J. K. Rowling criou todo um universo e linguagem próprios, certamente inspirada nos clássicos trabalhos de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, engendrando uma mitologia Potteriana, só o tempo atestará a sua criação em um novo clássico ou num modismo mais longevo. Outro aspecto interessante de todos estes trabalhos é o fato de cada livro/filme gradativamente tornar-se mais sombrio e violento à medida que Harry cresce e se aproxima de seu embate com Voldemort.
    Tudo bem que já sabia o final da estória antes mesmo de ir assistí-lo nos cinemas, o havia escutado de uma colega de trabalho que tinha visto o filme. No entanto minha posição não era diferente dos milhões de leitores que o souberam pelos livros, e isto não tirou a graça de todo este trabalho. O único porém fica para um diálogo ocorrido entre Harry e Dumbledore numa estação de trem clean, que me pareceu uma cena tirada do nacional “Nosso Lar” de tão estranha e até mesmo brega que ficou.
    Impossível negar que Harry Potter é um trunfo, do elenco perfeito (de novatos à artistas veteranos do cinema inglês) ao roteiro que amarrou todas as pontas da trama (em sua maioria escritos por Steven Kloves), dos profissionais que assumiram a direção (além de Yates, Chris Columbus, Alfonso Cuarón e Mike Newell) aos responsáveis por todos os aspectos técnicos (direção de arte, figurinos e fotografia, efeitos visuais), entre outras áreas. Pela sua longa duração, são dez anos desde a estreia do primeiro trabalho, Harry trouxe um pouco da magia tão boa de se ver nos filmes de fantasia (e que fazia falta desde o último O Senhor dos Anéis, sem precipitadas comparações, claro), afinal cinema também é escapismo e este último Harry Potter proporcionou duas horas de evasão muito satisfatórias.