6 de agosto de 2011

Filmes tristes


Não tem jeito, adoro um filme triste, drama é o meu gênero favorito. Afinal quem não gosta de sofrer um pouco no cinema? Pelo menos eu tenho este sentimento mazoquista quando diante de uma obra que me faça querer chorar (apesar de nenhuma ter conseguido até hoje) ou me sentir mal, são tantos que fica difícil enumerá-los, posso citar dois recentes: Namorados Para sempre e Reencontrando a Felicidade. Primeiro, esqueçam os infelizes títulos em português, péssimos e de muito mau gosto (só para comparar os originais são Blue Valentine e Rabbit Role, respectivamente). O primeiro filme trata do fim de um relacionamento, à medida que vemos o casamento de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) desmoronar, sabemos como esta história de amor nasceu simultaneamente às tentativas de salvação desta relação. Já o segundo título trata de um casamento abalado pela perda do filho, onde o casal (Nicole Kidman e Aaron Eckhart) tenta com grandes dificuldades superar esta situação.
    Ambos os trabalhos foram indicados ao Oscar de melhor atriz este ano (para as performances de Michelle Williams e Nicole Kidman), também não devemos desprezar a participação de seus respectivos maridos (Ryan Gosling e Aaron Eckhart), o duelo de atuações, ou melhor dizendo, a cumplicidade e a química entre os pares foi determinante para os filmes darem certo e emocionar seu público.


    Blue Valentine consegue ser crú e terno ao mesmo tempo, além de deixar um gosto amargo, pois à medida que vamos torcendo pelo romance de Dean e Cindy no passado, sabemos que esta história está passando por uma crise profunda no futuro e está próxima do fim. No começo do filme, Cindy e Dean estão casados e tem uma filha, o clima entre os dois denota que não estão passando pelos melhores dias deste casamento, ela trabalha como enfermeira em um hospital enquanto Dean faz bicos como pintor, ambos decidem passar uma noite em um hotel futurista, mesmo que Cindy relute em aceitar o convite do marido. Dean trabalhava numa empresa de mudanças quando conheceu Cindy num asilo onde sua bisavó estava hospedada, ela vinha de um relacionamento fracassado com um lutador. A atração é imediata e engatam um namoro que logo passa por alguns percalços (o ciúme e a violência do ex-namorado de Cindy e outro evento inesperado).
    O filme não idealiza o amor e foge à regra da maioria dos filmes produzidos em Hollywood, sejam romances ou comédias românticas, o diretor Derek Cianfrance opta pelo máximo de realismo possível no retrato deste casal e é por esta razão que o filme seja tão cortante em muitos momentos, quem passou por situações parecidas como a de Cindy e Dean vai entender e se identificar com este drama.


Já Rabbit Hole pode ser encarado como o grande retorno de Nicole Kidman a um ótimo papel nos cinemas, já que as suas últimas escolhas resultaram em gigantescos fracassos de bilheteria e crítica, tamanho esforço foi recompensado com as indicações que recebeu do Oscar, do Globo de Ouro e do SAGS. Ela é Becca, a dona de casa que é obrigada a conviver com a memória do filho, morto num atropelamento há 8 meses, junto com o marido Howie (Aaron Eckhart). Ele procura num grupo de ajuda com pais que perderam os filhos algum tipo de consolo, local em que Becca não se sente á vontade, pois discorda dos discursos sobre Deus e filhos que morreram para virar anjos no céu, tão recorrente nas rodas de discussão.
A dor da morte de um filho pode ser o mais devastador sentimento vivido pelos pais e os mesmos parecem enredados numa trama cheia de culpas, remorsos, tristezas e frustrações quando tentam reconduzir suas vidas rumo a uma nova fase. As atitudes e os pontos de vista de Becca e Howie em relação ao como recomeçar são bem divergentes: se ele encontra conforto ao dividir sua dor em grupos de terapia, onde acaba iniciando uma amizade com Gaby (Sandra Oh), ela prefere o contato com o jovem que atropelou seu filho, chamado Jason, sem a raiva que a sua presença poderia trazer, mas um forma de procurar um entendimento de todo o episódio e não um culpado a quem apontar o dedo. Se Howie costuma rever vídeos de família, Becca prefere aos poucos apagar um pouco a lembrança dolorosa do filho, guardando os desenhos feitos por ele ou doando as suas roupas. Além disso, a irmã de Becca engravida, o que aumenta mais o desconforto na sua família.
John Cameron Mitchell (Shortbus e Hedwig) conduz com muita sensibilidade os pequenos passos desse casal numa corda bamba que pende perigosamente para os extremos de um casamento abalado: ou recomeço de comum acordo dos dois ou o fim iminente, pois ambos não abrem mão de suas convicções.
Os dois filmes geram reflexões sobre esta instituição que é o casamento, propensa a tantas crises, abalada por diversos fatores (a perda de um filho, problemas financeiros, a instabilidade do marido ou da esposa). São filmes tristes, pois não fazem concessões ao público e desta crueza é que resulta a sua beleza, porque assemelha-se um pouco com a nossa tão prosaica vida real.

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