21 de agosto de 2011

Há futuro para a escrita?


De tempos em tempos especialistas declaram o fim de alguma coisa. Às vezes dizem que a literatura vive seus últimos dias, que a música não é mais a mesma, que a arte chegou ao seu limite, etc. A linguagem escrita também teve sua morte anunciada, anunciação que curiosamente dá longa sobrevida à escrita e as outras formas de arte e expressão. Mas será que a língua escrita agoniza e clama por uma morte digna isenta de mais sofreres? Segundo a visão do filósofo Vilém Flusser, sim. É deste autor de origem tcheca que surge a obra “A escrita – Há futuro para a escrita?”, traduzida do alemão por Murilo Jardelino Costa (meu professor de Linguística do primeiro semestre da universidade). Neste livro publicado em 1987, Flusser reflete sobre a delicada e inevitável transição de um mundo dominado pela língua escrita para um mundo em que predominam as imagens técnicas. Graças aos avanços técnológicos, principalmente com o advento da informática, vivemos numa sociedade baseada numa cultura visual.
As pessoas estão desaprendendo a ler, a compreender os códigos da língua escrita, a interpretar um texto, muito disso devido a massificação das mídias  que “mastigam” e “regurgitam” aos cidadãos as informações, fazem um filtragem para aquele que tiver contato com esta, faz com que diminua a capacidade crítica de cada pessoa (já que a informação está pronta, até com uma opinião formada, para que pensar?). Daí uma preocupante geração de analfabetos funcionais, aqueles que sabem ler e escrever mas não são capazes de interpretar, tirar conclusões, esboçar uma crítica sobre o conteúdo lido.
Em 1987, Flusser fez com este A Escrita uma previsão pessimista sobre o futuro da escrita, o que mais surpreende é o quanto de tudo o que escreveu se concretizou ou está a caminho de sua conclusão. Vivemos este período obscuro sem o percebermos. Neste ensaio metalinguístico, Flusser fala de uma metaescrita, uma escrita que reflete sobre a própria escrita, escrita esta que não possui futuro, a escrita sendo substituída por editores de texto como o Word, pela televisão, o cinema e a Internet em seu auge e as novas tecnologias como celulares cheios de recursos, I-Pads, E-books, etc. Cabe aos escritores de hoje encontrarem maneiras de preservar a língua escrita e, com esta preservação, o hábito da leitura.
Flusser chegou ao Brasil em 1941 fugindo do nazismo na Segunda Guerra Mundial. Autodidata, estabeleceu-se como professor universitário mesmo sem formação acadêmica e naturaliza-se brasileiro em 1950. Voltou à Europa em 1972, após a reforma acadêmica na USP em meio à ditadura militar. Foi nesse retorno à Europa que Flusser lançou obras que o consagraram e lhe deram o reconhecimento como um teórico dos meios de comunicação (A Filosofia da Caixa Preta é um de seus escritos mais conhecidos). Morreu em 1991 num acidente de trânsito.
O legado de Vilém Flusser serve como reflexão do nosso tempo, do século XX que passou e suas grandes e rápidas transformações, com progresso e destruição na mesma equação. Lança base para prever e temer um século XXI de maiores avanços e, como sabemos, que vem acompanhado de grandes desigualdades e retrocessos intelectuais.

Um comentário:

  1. Parabéns, por um ano de blog. virei visitá-lo, várias vezes, com certeza,lindas as pinturas postadas, valorizaram muito seu blog, um abraço.

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