20 de agosto de 2011

A origem da vida e o fim do mundo segundo Malick e Von Trier



Estou tentando fazer o impossível: relacionar A Árvore da Vida e Melancolia, dois filmes tão díspares e singulares, que, no entanto, levantam profundas reflexões sobre a própria condição humana. Sinceramente, o pessimismo de Lars Von Trier gerou mais a minha simpatia do que o existencialismo do novo filme do recluso Terrence Malick. Porém, artisticamente, o trabalho do diretor americano atinge resultados surpreendentes e belíssimos que o dinamarquês e personna non grata do Festival de Cannes não conseguiu em seu filme catástrofe muito particular. Questões como: “Quem sou eu?”, “De onde vim?”, “Para onde vamos quando tudo acabar?”, sempre circularam em nossas cabeças, perguntas tão recorrentes em nossas dúvidas, cujo refletir nunca chega a uma resposta precisa. Até mesmo aquele que tem a fé inabalável em qualquer divindade ou força exterior, hesitou alguma vez nas suas convicções.
Todos somos meio Justines, meio Claires, meio Jacks, com todas as nossas insanidades reprimidas, nossa mania de controlar a tudo e nos desesperar quando nada disso dá certo, nosso ódio àquele mais próximo transbordando até não mais suportarmos. Fé e ciência entram em conflito dentro de nós, complementam-se, nos tornam mais céticos ou mais esperançosos. Para que se resolvam todos os nossos mistérios, se façam esclarecidas nossas incertezas, basta que morramos. Este desconhecido, só quem partiu desta para melhor para saber a grande verdade. Enquanto isto, a arte faz poesia com as hipóteses, pode apenas especular, não nos trazendo mais conforto (quem quiser conformar-se, que procure alguma crença), a arte não quer amenizar nada, ao fim de toda a sua obra, sempre incompleta, apenas o incômodo resta como resultado.
Que a arte sempre tente responder às nossas perguntas desta forma: operística (regada a muita música clássica), exagerada até (afinal o preciosismo de Malick assim como a insistência niilista de Von Trier são antes de tudo exagerados, de uma forma bem-vinda, antes o excesso do que a falta de algo relevante em algum filme), visualmente belas (como toda obra cinematográfica deve ser) e inquietantemente questionadoras. Não saímos indiferentes após a projeção destas duas obras, a impassibilidade é natural quando o resultado foge às nossas expectativas, para o bem ou para o mal.
     A escolha fica para nós espectadores: dar crédito ao fim iminente do nosso planeta, rota de colisão de um outro bem maior, no discurso extremo, sem concessões, de Melancolia. Ou encantar-se com as reflexões e a força poética de A Árvore da Vida e sair mais pensativo que quando entrou na sala de cinema. A relação entre duas irmãs ou o conflito entre pai e filho, ambas as estórias muito tocantes. Ou simplesmente mandar às favas qualquer tentativa de lógica e optar pelos dois, afinal quem ganha é o cinema (e os cinéfilos).

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