4 de dezembro de 2011

Cantoras mortas


A partir de hoje vou gostar apenas de cantoras mortas. Para que sentir a falta de Amy Winehouse e outras talentosas vozes que sumiram no auge de seu talento e popularidade? Vou evitar me empolgar com alguma novidade musical, cobrir meus ouvidos com cera, igual a Ulisses, para não me deixar inebriar pelo canto de algumas verdadeiras sereias, apesar de vê-las tão evidentes na mídia, mídia esta que suga e explora suas imagens, acompanham indiferentes a sua queda, que muitas vezes deturpam e corrompem suas mentes tão suscetíveis aos impulsos do estrelismo (claro, que não vamos torná-la a única culpada por tudo isto).
Não tenho predileções fúnebres e necrófilas de vasculhar túmulos e revolver cadáveres, mas caçar e ouvir divas mortas é um dos meus passatempos favoritos. Se são tão poucas as cantoras contemporâneas capazes de causar uma verdadeira revolução em nossos ouvidos, tão ligadas ao passado estão, tão saudosas deste se encontram, tão incapazes, às vezes, de reinventá-lo, torná-lo coisa própria, numa mistura insana, que nos deixam doidinhos também ao primeiro acorde, à primeira manifestação de seus vocais.
Deste verdadeiro sarcófago (não liguem este termo a algo pejorativo), soam as vozes de Carmen, Billie, Elis, Ella e tantos outros grandes talentos que fizeram história e marcaram a história pessoal de muita gente. Elas estão mortas, o máximo que acontecerá é celebrar, com uma retrospectiva em rádio ou na TV de suas grandes interpretações, de seus maiores sucessos, o aniversário de seu nascimento ou morte, não estamos a acompanhar o seu declínio ou a sua subida às paradas de sucesso, seus erros e seus acertos, nem a sua premonitória despedida latente em seus atos excêntricos.
Escrevo este post-lamento escutando o disco póstumo de Amy (Lioness: Hidden Treasures), feito das sobras de estúdios dos discos Frank e Back to Black e as gravações que ela espalhou por aí antes de sua morte, repertório que resume a sua versatilidade e materializa ainda mais a sua falta. Como Amy Winehouse infelizmente está morta, isto justificará a primeira frase deste post, mesmo que a sua voz não esteja (e a de tantas outras cantoras que fazem coro em algum lugar longe daqui).

2 comentários:

  1. Intrigante decerto!Parece que as mulheres cujas vozes impressionam, em sua grande maioria, tendem a viver menos nesse orbe terrestre.Ou talvez nós evidenciemos em demasia aquelas que já partiram e deixamos de notar as que ainda encantam as noites com suas maviosas ou fortes canções. Sim, pois se repararmos bem Marisa Monte, Maria Rita, Selma Reis e outras permanecem entre nós.

    Muita paz, caro amigo!

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  2. Realmente, caro Cristiano!

    Ainda temos este consolo... Quem agradece são nossos ouvidos!

    Wesley

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