14 de dezembro de 2011

Relendo Mrs. Dalloway


Meu interesse por Virginia Woolf surgiu a partir do filme As Horas de Stephen Daldry e com Nicole Kidman no papel da famosa escritora inglesa, além das interpretações viscerais de Meryl Streep e Julianne Moore. As Ondas foi a primeira obra com que tive contato, mas sabia que inevitavelmente teria um encontro com esta obra única que é Mrs. Dalloway. Virginia está ao lado de James Joyce e Marcel Proust entre os exemplares autores que trabalharam com incrível habilidade o fluxo de consciência tão em voga nas primeiras décadas do século XX. Ela, a exemplo do Ulysses de Joyce, também localizou o seu romance em um único dia, desta vez não temos Dublin e, sim, Londres onde a personagem-título vive às voltas com a organização de uma festa e as lembranças do passado que insiste em retornar como fantasmas insistentes. É nesta Londres do período da Primeira Guerra Mundial que também cruzam nas suas ruas outras personagens atormentadas, esperançosas, perdidas, apaixonadas, muitas vezes frívolas, muitas vezes inseguras.
O tom existencialista, o mergulhar nos pensamentos instáveis das personagens nos contagia, das reflexões aparentemente fúteis (“Mrs. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores”) à outras que revelam o ser humano desnudado em sua plenitude, frágil e perdido em meio ao mundo que o engole e o conduz sem que o perceba.
A ótima tradução do poeta Mário Quintana ajuda a transpor este universo tão particular de Virginia Woolf que usou a literatura como uma forma de imersão em suas próprias preocupações e paixões. Já defendi a releitura de livros aqui neste blog e o reencontro com a prosa mais que poética de Virginia é um desbravar de mares turbulentos como nós mesmos somos, não é preciso estar em Londres para ter o mesmo sentimento de deslocamento, este acompanha qualquer um, independente da cidade que esteja, grande ou pequena.
            A guerra interior vai ser sempre o preço pago pela humanidade, a sua condição por simplesmente existir, um complexo ir e vir de desejos que ainda não foram supridos, um caminhar por entre ruas onde ninguém escuta seus gritos, onde todo mundo grita em vão.

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