22 de dezembro de 2012

Relatório do fim do mundo


Como era previsto, o mundo não se acabou.

Ele até que tinha começado lá em casa um dia antes, com um problema na luz que deixou minha família e a mim às escuras. O fim também foi saber que eu teria que pagar caro pelos serviços de um eletricista.

Não cometi loucuras. Nada de sair pelado na rua, beijar na rua o primeiro que encontrasse (mesmo porque o fim do mundo viria logo depois pelos punhos cerrados do namorado), não dancei, não cantei, nem sequer gozei um bom sono, não xinguei o chefe, não pedi demissão.

Acordei cedo, cumpri minha carga horária no trabalho (funcionário caxias até no possível último dia de nossas vidas), cumprimentei colegas, comportei-me na reunião de confraternização, desejei “boas festas” a todos, dei um passeio na Paulista com meu amor, o cansaço da caminhada fez com que o corpo clamasse por cama e dormisse rapidamente em boa companhia.

(Horas antes, choveu à beça e, isto sim, poderia ser uma indicação de que os mais pessimistas estavam certos e, quem sabe, o apocalipse acontecesse na forma de um tsunami que varreria São Paulo inteira do mapa. Um tsunami de águas poluídas, cheias de esgoto e lixo, oriundas de alguns córregos fétidos e do Rio Tietê e Rio Pinheiros. Que modo mais nojento de morrer este...)

Neste dia, sequer passou pela minha cabeça frases do tipo “a vida é curta”, “o tempo escorre em nossas mãos”, “temos que aproveitar”. Nem tristeza, nem desespero, somente a indiferença (quem manda ser mais cético do que crente nesta vida) e um sorriso amarelo no rosto.

Publico este texto um dia após o não-evento fatídico, sinal de que o mundo não findará mesmo. A não ser que os maias estejam pregando uma peça em nós e algo de muito ruim aconteça nos próximos dias. Enquanto isso junto minha coragem para atravessar incólume pelo Natal e o Réveillon.

200 Crônicas Escolhidas – Rubem Braga



Rubem Braga é um fenômeno a parte na literatura brasileira. Foi o único que se notabilizou por ter escrito apenas crônicas e nunca ter enveredado por qualquer outro gênero literário (diferentes de nomes como Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues que produziram crônicas conhecidas além de ser grande poeta e autor teatral, respectivamente). Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, Rubem escreveu sobre o seu tempo nos diversos jornais deste país em que trabalhou na sua carreira de escritor e jornalista. As mulheres, cenas da vida no Rio de Janeiro, o saudosismo, a natureza, os animais, tudo era motivo para que escrevesse belas linhas e iluminasse um pouco a vida dos seus leitores com suas deliciosas palavras.

Li o livro 200 Crônicas Escolhidas (Editora Record), que traz o melhor do que foi produzido pelo autor entre 1935 e 1977. O encantamento acontece através do contato com sua poesia do cotidiano. Afinal somente os grandes poetas entreveem a poesia no caos, o belo na cidade grande a massacrar o homem, no homem a se maravilhar com a grandiosidade das coisas e o absurdo delas também e a incompreender seus próprios relacionamentos. Rubem Braga é antes de tudo um “lírico da prosa”. Aquele que enxerga o que nossos olhos tão anestesiados, tão acostumados à rotina, já não veem, de tanto conviver com o mesmo de sempre igual. A efemeridade é um risco para quem escreve sobre a época em que vive (imagino o que ele redigiria a respeito do fim do mundo maia que não ocorreu). Rubem Braga conseguiu eternizar a sua escrita, pois concentrou-se justamente no sentimento que resultava da experiência de tudo aquilo que vivia ou via e não apenas nos fatos, e esta sensação continua pulsante em nós (o espírito de seu tempo é quase o nosso também, as mesmas preocupações nos movem, o sentir-se deslocado do mundo e da sociedade, a nossa incredulidade perante ela, a vaga impressão de que muito pouco mudou daqueles tempos para cá).

 Rubem Braga sobreviveu. Suas crônicas não pereceram com o correr dos anos. São lembranças tenazes, as mesmas lembranças que o inspiraram em diversos textos de linguagem simples e direta, crônicas estas que incrustam de uma forma boa em nossa mente após a leitura que flui como água, ecoam em nossas cabeças por muito tempo, nos divertindo, comovendo, fazendo-nos refletir um pouco mais sobre nós mesmos.


12 de dezembro de 2012

Calor!

 

O esgotamento físico que te impede de fazer a mínima coisa, que afugenta a criatividade, a vontade de agir, que te enche de sono, que prega as pálpebras tal qual a força da gravidade nos prende ao chão, gravidade que faz com que o mundo seja um todo pressionado em harmonia, sono que nos prega à cama, com o corpo todo desconcertado. Para que ouvir um disco, ler um livro, zapear a televisão se tudo que o resume é o torpor? O calor escaldante na atmosfera contribui para a homogeneidade em forma de exaustão.
Posso culpar o tempo, as altas temperaturas? Meu cotidiano é uma batalha diária contra o termômetro que explode nos seus 30 graus, que ultrapassa esta marca, materializa-se em mormaço, castiga o corpo que chora através do suor incessante. Calor que não dá para lutar contra. Por que? Não tenho dons para a pajelança, não sei a coreografia da dança da chuva, apenas suplico por ela ou por algum refresco através de reclamações dentro de mim, através de vocativos a Deus.
Só espero que o fim do mundo não termine em calor, pois além do desespero de que não haverá mais amanhã para todos nós, teríamos que nos preocupar em nos abanar, nos abanar e nos despedir de tudo e todos ao mesmo tempo. Que maçada seria! Se Deus for um ser vingativo, pelo seu próprio amor, tire de sua face o sorriso sardônico, não anote nada do que escrevi em seu caderno ou no capítulo final do romance da humanidade! Não encare isto como uma sugestão!
Apenas traga a brisa, o vento para nos refrescar no caminho para o almoço. Apenas traga a sombra, para que a pele não fique curtida involuntariamente, já que o contexto da cidade excessivamente urbana não é o lugar perfeito para o bronzear da tez, melhor seria uma praia e uma água de coco e o mar infinito a se impor à nossa frente. Que ao menos o ar condicionado das nossas empresas nos ajude a sofrer menos, amenize o pesar corporal ou contribua para um futuro resfriado já que o choque térmico com o ar livre é inevitável.
Como o gosto do tempo é relativo, tem gente que adora a temperatura atual, haverá quem reclame quando os termômetros caírem ou a moça do tempo do telejornal anunciar dias que não passem dos 20°C. Não sou totalmente contra o calor, não que ele não possa existir, mas que o frio não se esqueça de manifestar-se de vez em quando, um pouquinho só que seja.


2 de dezembro de 2012

O enigma do fim do ano









Não sei o que acontece. O fim do ano se aproxima e o cansaço físico parece maior, as preocupações maiores, as filas maiores, somente a nossa paciência que não. Ficamos com a desesperadora impressão de que devemos concluir tudo aquilo que pretendíamos nos meses anteriores e não foi possível. O sentimento de urgência das coisas. É comum também a frustração com o resultado do balanço negativo que fazemos de nosso próprio desempenho. Sempre temos maiores perdas do que ganhos. Se eu pudesse definir 2012, defini-lo-ia como um ano de trancos e barrancos, mas aí seria uma impressão pessoal, cada um que pinte a sua própria.
Outra coisa que eu não me entendo. Chega esta época que antecede as festas de fim de ano e eu só desejo apenas que tudo aconteça logo e o próximo ano venha logo para acabar com a celebração, estas confraternizações todas. De forma rápida, indolor. Talvez seja meu lado ranzinza que fala mais alto. Não consigo ser cem por cento solar, alegre e foi-se o tempo em que eu também me preocupava com os triviais “o que vou vestir, que cor usarei na virada do ano” (coisas da infância e adolescência), mesmo por que esta prática resulta nas “quais contas pagarei agora?” (coisas da vida adulta). Vou retomar à velha ideia e ao clichê de que esta época rima com consumismo, que já foi tema de algum post anterior aqui (“Ineditismo que é bom, nada, não é Sr. Wesley?”, questiona alguém dentro da minha cabeça.). Vocês ganharão seu décimo terceiro, porém o torrarão todo em presentes e produtos para a ceia cara e farta! Gargalham os donos das lojas e supermercados, afinal o Natal e o Ano Novo são apenas felizes para eles.
Para nós resta a ingênua impressão de felicidade que vai se dissipar (tão rápido quanto à beleza dos fogos de artifício que enfeitam os céus) quando o despertador tocar e tivermos que trabalhar para dar conta dos prejuízos do ano que se passou e, quem sabe, arranjar certo ânimo para novos objetivos. Resta-nos a ligeira esperança de que tudo será melhor no ano que vem. Afinal não podemos capitular ao pessimismo mesmo que outros, como este que vos escreve, carreguem de negatividade os dias vindouros.

11 de novembro de 2012

A prece









A gente reclama da nossa correria (e me incluo nesta patota), mas a vida urbana pode proporcionar alguns momentos que beiram o lirismo e o inesperado, dependendo do ponto de vista. Estava eu, cansado, estressado, morrendo de sono em um banco do metrô, a cabeça titubeando entre levantar e cair. Os olhos seguindo no mesmo pesar. À minha frente, outras pessoas centradas em exercer o jeito paulistano de ser: casmurros, alheios, preocupados. Com tanta morte acontecendo, tanta violência a espreitá-los, não é de se surpreender que comportem-se assim. Guerra entre autoridades, policiais, bandidos, um disparar de tiros entre todas as partes e camadas sociais e uma população coagida e atingida mortalmente neste fogo cruzado. Chega de digressões, pelo menos por enquanto. À minha frente, além dos passageiros triviais do metrô, se encontrava um policial, na atitude séria de sempre, com a postura ereta e preparada para qualquer eventualidade. Imóvel e inflexível, desde a estação D. Pedro.
O trem chega à estação República, uma grande parte das pessoas seguem rumo aos seus destinos, enquanto outras entram pelo outro lado do vagão. “Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma, a pressa pode causar acidentes”, lembrou-nos o condutor com uma voz metálica, enfastiada talvez de repetir a mesma frase o dia todo e diariamente. Minha cabeça se levanta, não consigo me entregar ao sono nos coletivos, invejo aqueles que não temem o ridículo e ficam boquiabertos e até babam, dormem o sono das crianças, com o peso da vida adulta no corpo. Eu preciso me contentar com as breves “pescadas” que minha cabeça dá, os “peixes” rareiam mesmo quando o rio está farto deles e o sono implora repouso.
Eis que entra um jovem rapaz. Boa aparência, roupa social, cabelo cortado à última moda masculina. Aproxima-se do policial e repousa sua mão em seu ombro. Se eu fosse um fatalista ou paranoico, imaginaria um bandido, um homem em busca de vingança, quiçá um homem-bomba. No entanto, evito estes maus pressentimentos e preferi pensar que o rapaz tinha alguma dúvida e preferira perguntar ao policial onde que ficava determinado lugar que pretendia ir, talvez estivesse atrasado ou fosse a primeira vez que pisava os pés nesta cidade.
Ao contrário das minhas expectativas, até das mais otimistas, a cena que aconteceu foi mais interessante do que qualquer sanar de dúvidas. O rapaz se distanciou, esticou o braço e manteve a mão pousada no ombro do policial e começou a orar. Pelo menos é o que eu imaginava. Não orava ostentando a sua fé, como muitos religiosos o fazem. A cena comoveu pela sua discrição. A prece não durou mais que um minuto, tempo suficiente entre a estação República e a Santa Cecília. Depois de terminada a oração, o rapaz voltou à sua posição inicial, encarou o policial de vez em quando. Este agradeceu num tom muito baixo, não se moveu de seu lugar. Meio que constrangido. Meio que surpreendido, a cabeça na indecisão de qual atitude tomar. Preferiu a impassibilidade, afinal precisa demonstrar força e altivez. Acredito que seu interior estivesse num verdadeiro caos. Caos positivo, daquela instabilidade causada por gestos inesperados e gentis, o desconcerto pelo olhar recebido, pela atenção dispensada diversa daquela que os policiais estão acostumados todos os dia, cercada de respeito temeroso.
O policial teve a sua autoridade quebrada, a defesa caída não por ameaças infratoras, pela audácia dos bandidos ou pelo risco da morte, mas por um gesto afável, de solidariedade e empatia, por alguém que sabe que todos os eventos funestos atuais não estão sendo fáceis para ninguém. Gelo interno derretido por um gesto isento de posições políticas, de amor ou ódio aos responsáveis pela segurança da cidade e do estado. Um gesto que pede proteção e paz de espírito (e não quero fazer apologia a nenhuma religião aqui) a todos os envolvidos nestes conflitos sangrentos, que só conseguem encher as valas de corpos vitimados, gerar sofrimento às famílias e encher de pesar este estado já tão sobrepujado por diversas mazelas.

3 de novembro de 2012

Post para um cantor incomum da porta da universidade




Na saída da faculdade ele canta a plenos pulmões. A multidão indiferente de estudantes passa por ele ignorando o seu espetáculo, desfazendo-se de seu “talento” e “estilo” incompreendido. De frente a uma caixa de sapatos converte-se, em seu interior, num pop star, vociferando canções de amor! Desafinado! Ridículo! Louco! Estridente como uma sertaneja dor de cotovelo.
Questiono-me o que se passa em sua cabeça? Que pensamentos o conduzem à porta da universidade? O que ele faz após a rua esvaziar, sem que os transeuntes peçam sequer um bis? Vai para a casa e canta o seu repertório emocionante debaixo do chuveiro durante o banho? Decerto o banheiro lhe proporciona um público menor do que o estádio universitário de seu imaginário. Jam session de um crooner mal fadado. Turnê de inúmeros shows cancelados, não pela sua vaidade e vontade. Afinal ama seu público mesmo que este não retribua o carinho em gritos histéricos e pedidos de outras canções, no máximo a plateia graceja ou reclama de sua voz esganiçada. 
Turnê cujo único palco é ali, sem recordes de público  e com o esquecimento da crítica especializada, naquela calçada da saída da instituição de ensino superior, onde descobrimos que mora um coração dentro do peito daquele desafinado.

21 de outubro de 2012

A Trégua, de Mario Benedetti


     Escolher o livro para se ler envolve muitos mistérios além das óbvias preferências literárias por um autor ou gênero. Às vezes, a sorte ajuda na escolha feita e você acaba se surpreendendo. Foi o que aconteceu comigo com o romance A Trégua, do uruguaio Mario Benedetti. Não conheço sua obra, tive contato com este trabalho pela coleção do jornal Folha de São Paulo e nem era uma das minhas primeiras opções entre os autores mais populares como Borges, Lorca e Saramago que compunham os outros títulos integrantes. Eis que o pego a esmo na fileira organizada dentro do guarda-roupa e, num passe de mágica, após o contato com as primeiras palavras, já estava eu preso aos escritos de um diário ficcional de um funcionário de repartição viúvo prestes a se aposentar e que redescobre o amor. Martin Salomé, 50 anos, tem um trabalho burocrático, uma relação distante com os filhos, um olhar pouco impressionável sobre as coisas, um tanto frio, talvez influência do tipo de função que exerce e da falta que sente da esposa morta. Laura Avellaneda, sua nova funcionária, traz um pouco de cor à sua vida gris, dando-lhe novas perspectivas para sua aposentadoria a qual não esperava mais nada além do prolongamento do tédio que sente no seu serviço e na vida familiar. Um romance emocionante que nos cativa pelos relatos sinceros escritos pelo protagonista que se equilibram entre a dureza e a ternura, o desengano e a delicadeza, o inspirador e o melancólico em páginas que devoramos em questão de dias e dificilmente as esquecemos.