27 de janeiro de 2012

Se eu fechar os olhos agora - Edney Silvestre


Um assassinato para falar do Brasil, uma dupla de amigos recém saídos da infância para ilustrar a perda da inocência, um aposentado para retratar a queda dos idealismos e a transformação dos valores do homem. Edney Silvestre faz sua estréia na ficção com um livro que utiliza o romance policial para enveredar por temas contundentes de forma eficiente, incrustados em nossa sociedade, e trabalha com o romance de formação para mostrar as mudanças sofridas pelos indivíduos nesta realidade.
Paulo e Eduardo, dois adolescentes, encontram o corpo de uma jovem mulher. Logo sabemos que ela era esposa de um dentista, que confessou o assassinato, pois era traído por ela com os homens mais poderosos da cidade, situada no interior do Rio de Janeiro. Mas os amigos, que chegaram a ser suspeitos pela polícia num primeiro momento, desconfiam desta história, uma vez que o dentista era muito velho e, pela violência da morte da jovem, alguém muito mais forte teria o feito e decidem investigar por si sós este mistério, ganhando o auxílio de Ubiratan, um aposentado que vive num asilo, ex-preso político da ditadura de Getúlio Vargas.
O período é o Brasil pré golpe militar, a herança coronelista e escravista ainda é forte e esse passado justifica a conduta de muitos personagens em Se eu fechar os olhos agora. Edney Silvestre tece um painel de um país tão brutalmente assassinado como a jovem vítima de seu primeiro romance.
Os protagonistas Paulo e Eduardo são apresentados a um mundo cru, longe da ilusão infantil, perverso e implacável, sensações que se misturam ao desabrochar da adolescência, não somente com o desejo sexual como também com uma certa melancolia e um desencanto inexplicáveis. Em uma cena simbólica, Paulo, Eduardo e o velho vão ao cinema assistir A Doce Vida de Federico Fellini, o modo como as três personagens reagem à projeção do clássico do diretor italiano é descrito com uma delicadeza surpreendente pelo autor.
Silvestre tem uma escrita limpa, próxima do jornalismo, da descrição dos cenários e situações aos diálogos (que muitas vezes, talvez por tentar ser fiel à fala entre dois garotos, acaba irritando por algumas repetições), o que facilita a leitura (envolvendo o leitor em cada página) e não perde em profundidade (outro fator importante). Por mais que pareça que Silvestre queira apenas contar uma boa estória (e o faz certamente), percebemos ali uma análise de um país que não larga seus próprios vícios e parece estabilizado em suas piores manias e, consequentemente, lança um olhar sobre o ser humano que, pelo afã de manter-se no poder e pela satisfação de suas próprias perversões, oprime e abusa do outro até que este perca sua serventia e sua própria dignidade.

2 comentários:

  1. Olá!
    Foi um grande prazer conhecer seu blog.Aproveito meu tempo para navegar e ler textos e poemas feitos por pessoas que gostam de escrever.
    Que bom que você é uma delas.
    Grande abraço
    se cuida

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  2. Queria convidá-lo(la) a visitar a coluna Haicais de Domingo(http://poetasdemarte.blogspot.com). A entrevista de hoje é com Vilma Piva.

    Obrigado e muita Paz!

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