4 de março de 2012

O Ateneu – Algumas impressões


O Ateneu é um clássico da literatura brasileira, um marco do Realismo-Naturalismo, escolas literárias que nos revelaram, entre outros, Aluísio Azevedo (O Cortiço) e o maduro Machado de Assis pós-Romantismo (Dom Casmurro). Este é o único livro publicado por Raul Pompéia, que na época tinha 25 anos, o autor se suicidaria anos depois aos 32 anos. O romance faz uma crítica ao sistema escolar da época, sua rigidez e autoritarismo disfarçados de ensino modelo de qualidade, que oprimiam seus alunos. O Ateneu, nome do colégio, é um microcosmo da sociedade, onde os alunos aprendem as regras de sobrevivência, ou simplesmente não se adaptam a elas. Trata-se de um romance com pinceladas autobiográficas de Raul Pompéia, que ao mesmo tempo em que se trata ironicamente de uma crônica de saudades, o autor também realiza a sua vingança pessoal denunciando as falhas do local onde estudou na sua pré-adolescência e revelando seus próprios traumas.
A célebre frase que abre o romance (“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”) já é um prenúncio das outras características que o este livro também trará em seu corpo, o do romance de formação. Em suas páginas Sérgio aprenderá as lições de convivência, a lei do mais forte, a necessidade de se impor tal qual no mundo fora do ambiente escolar, o protagonista passará por apuros e será mais um lançado à cova dos leões famintos, longe de sua família, como tantas crianças que praticamente são abandonadas e esquecidas por seus pais no período em que estudam nestes internatos. Vai tornar-se adulto, mesmo que prematuramente, ao custo de muito sofrimento e saudades.
Sérgio fará amizades e entenderá que a proteção que recebe delas deve ser retribuída com favores, principalmente os sexuais. Desta forma, O Ateneu relata com coragem e ousadia a questão do homossexualismo nas escolas, do qual Sérgio tenta se desvencilhar, mas acaba se conformando, em alguns momentos ser “a namorada” da situação. O diretor da instituição Aristarco retrata o docente vaidoso, que comanda a escola com mãos de ferro e sua esposa D. Ema, simboliza para Sérgio ao mesmo tempo o amor materno e as primeiras manifestações de desejo por uma mulher.
Um romance primordial para a compreensão da sociedade daquela época, de um sistema de ensino tão rígido, cujos ecos ainda fazem-se ouvir nos dias de hoje. Muito se discute sobre ser ou não ser severo nas salas de aulas, que os alunos respeitam apenas os professores duros em conduta nas classes e um monte de coisas, as raízes estão todas lá em O Ateneu que Raul Pompéia cunhou com primor, tristeza e sangue, como suas próprias palavras escreveram próximo do fim do livro:
“E fora preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a própria vida uma página de sangue para fazer a história dos dias que vieram, os últimos dias...
E tudo acabou com um fim brusco de mau romance...”

3 comentários:

  1. Caro Wesley,

    O livro de Pompéia é um primor e leva realmente à discussão da eficiência da rigorosidade do professor em sala de aula.Quanto a esse tema é compilcado chegar à conclusão de um ponto de equilíbrio.

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  2. Verdade, criatividade e coerência, serão um dia, uma linha de conduta para o ensino público, mais a mentalidade científica que tanta falta faz no ensino tendencioso que não se livra de regras sem razão, eu não li " O Ateneu", mas o seu post veio em boa hora, parabéns.

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  3. Caro(a) amigo(a),

    convido você a visitar o espaço

    http://poetasdemarte.blogspot.com/2012/03/haicaju.html?showComment=1331472552833#c3329309377847633223

    e acompanhar a entrevista com Teresa Cristina FlordeCaju

    Muito obrigado, desde já!

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