29 de abril de 2012

Leitores do metrô


No metrô é raro encontrar alguém lendo livros antigos. Geralmente os passageiros estão com os últimos lançamentos, os best sellers em mãos, obras espíritas, textos de auto ajuda. Mas raramente um clássico. Não que isto seja uma pretensiosa crítica aos hábitos dos leitores de plantão. Na verdade esta percepção vem de uma mania que acredito que muitos apaixonados pela leitura tenham que é a de bisbilhotar o livro alheio, a mania de tentar adivinhar qual livro fulano está lendo. Tentativa esta que muitas vezes termina em decepção. Geralmente a descoberta resulta em obras que desconheço ou não fazem meu gosto.
As pessoas leem para se entreterem, para ter algo que as distraia na viagem de ida e volta do trabalho ou pela simples vontade de se isolar dos outros (na verdade somente chamam mais atenção para si). O mais engraçado é que como o ato de abrir o livro ao lado de alguma pessoa é tão contagiante que esta pessoa acaba se impelindo a também arranjar algo para ler. Pode ser a revista há muito tempo abandonada na bolsa, um panfleto, o jornal de distribuição gratuita entregue em frente à estação. Certa vez, tinha iniciado uma leitura no metrô e a senhora ao meu lado, talvez intimidada, logo retirou com urgência da mochila uma bula de remédio e a devorou com o mesmo empenho de uma ficção.
Não me surpreendo que a maioria das pessoas goste de se sentir observada quando com um livro na mão, sabemos que adquirimos um certo status perante os outros, ao menos um pouco de respeito ou consideração. As pessoas fazem poses empedernidas, cheias de si, um ego que sussurra: "olha como eu sou culto, estou lendo um livro", um ego que só falta gritar aos outros passageiros: "que vergonha vocês, pobres mortais, não procurarem ler, adquirirem mais cultura ou conhecimento!" O que é uma grande besteira. A conversa sobre o capítulo da novela pode estar mais interessante que a minha leitura obrigatória da faculdade (e você vai escutá-la e interromper sua leitura e concordar com a interlocutora da doméstica ou da vendedora que também está no vagão) ou o bate-papo no celular será mais emocionante que as peripécias vividas pelo protagonista de algum romance francês. E tem sempre algum (a) paquera de olho em você quando menos esperar (então olho no livro e ao redor).


Surpreendem também as pessoas que encaram a vastidão de um livro grande, com mais de 500 ou 600 páginas. Ainda não temos o hábito de enfrentar livros com este tamanho, geralmente a preguiça fala mais alto aos brasileiros. O tamanho e a imponência de um livro enorme assustam (e pesa enormemente na mochila ou bolsa, e haja coluna para aguentar), no meu caso, me dá vontade de devassar aquelas páginas e, quiçá, me divertir tanto quanto o leitor visível no vagão. Não li ainda o best seller A Guerra dos Tronos, mas só em reparar o peso daquele calhamaço os olhos coçam de grande curiosidade.
No metrô as pessoas leem mais, isto é fato, a estabilidade dos movimentos do vagão no trilho facilita a nossa opção, até o conseguimos fazer de pé sem maiores entraves (quando o trem não lota, claro). Que a opção pela leitura tenha sido pelo prazer do que por certa obrigação e se foi por obrigação que esta tenha transformado a exceção num hábito e o leitor encontre ou reencontre o prazer de ler (acredite, você pode perder em algum momento da sua vida o tesão pela leitura). O importante é ler, mesmo que o sono seja atraído com as primeiras linhas, mesmo que o cansaço pese as pálpebras até o próximo capítulo ou quando a leitura não esteja tão envolvente em seu início.
Leitura antes de tudo é exercício, se não for praticada diariamente ou com regularidade, perde-se o vigor, atrofiam-se os músculos e um vazio tamanho se instaura que nem as canções do MP3 ou os aplicativos e jogos do celular podem preencher (e todos sabem que uma hora eles cansam demasiadamente).
Mas peraê, seu smartphone permite a leitura de e-books... Hummm... Então não tem desculpa, baixe um livro logo e comece a dar outras utilidades ao seu aparelho ou então enfie, assim que chegar a sua casa, aquele livro esquecido da sua estante na sua bolsa ou mochila para descobrí-lo em meio ao transporte público, nem que seja para alimentar a curiosidade de enxeridos como eu.

5 comentários:

  1. É curioso realmente como é quase que incontrolável a bisbilhotada no livro em que o outro está lendo ao seu lado!

    Quando mais novo, li os três primeiros volumes de Operação Cavalo de Tróia(hoje não tenho mais saco para a série de Bennítez)e foi um esforço hercúleo na primeira metade do primeiro volume. Entretanto passada a iniciação foi mais tranquilo. Concordo contigo, ler é exercitar pois a vida agitada e stressante acaba querendo nos arrastar para frente da tv onde aq história fica mais simples por conta do apelo visual!

    Muita paz!

    ResponderExcluir
  2. O exercício da leitura é o que nos leva evitar horas perdidas no nada da Tv ou em qualquer outro lugar.
    Seu texto é um ótimo chamamento a leitura!Parabéns! Beijos!

    ResponderExcluir
  3. Caro(a) amigo(a), boa tarde!

    Gostaria de convidá-lo a visitar a coluna Haicais de Domingo do Poetas de Marte

    A entrevista dessa semana é com o escritor português David Rodrigues.

    http://poetasdemarte.blogspot.com.br/2012/05/haicais-de-alem-mar.html

    Na coluna do próximo domingo, gostaria de contar com a participação dos que se emaranham na blogosfera.

    Elaborem um haicai homenageando a mulher mais importante de nossas vidas(não fiquem com vergonha) e mandem para o meu email:mat_amorim@hotmail.com

    A coluna "Mãe,Haicaí! Cuida de mim!" ficará muito melhor com a sua participação!

    Espero contar com a presença de muitos!

    Desde já, obrigado!

    Muita paz!

    ResponderExcluir