7 de junho de 2012

O início, o fim e o meio


Assim como nossas vidas, sabemos como todas as histórias vão terminar. A previsibilidade da literatura, do cinema, do teatro e de outras manifestações artísticas não retira o fascínio que estas possuem. Quem nunca torceu por finais felizes, quem nunca soube que o mocinho e a mocinha terminam juntos naquela comédia romântica, que o vilão é castigado nas novelas da televisão, que o autor experimental vai nos surpreender com alguma inovação linguística em seu novo livro, que a vítima do serial killer vai se dar mal por querer entrar na casa maldita, até mesmo o refrão da música inédita do seu cantor favorito ou o próximo verso de sua mais nova composição parece que surge à sua cabeça segundos antes de ser executada? Não é preciso ser nenhum vidente para tal e nem se entediar pelas coisas parecerem tão previsíveis. Pois é justamente a trajetória entre início e fim que vai interessar afinal de contas e nos vai trazer algum significado ou catarse.
Nosso destino inevitável é a morte e isto não podemos interferir. Ao menos a ficção, a arte nos dá o prazer de suspender a vida daquelas personagens no ápice de suas existências ou naquele momento crucial que as definirão para o resto de suas existências ficcionais. Não é assim conosco também? Vivemos até que chegamos a um fato divisor de águas em que nada será como antes se você disser “sim” ou “não”. Dias, semanas ou meses depois você vai escutar aquela música cuja letra vai traduzir o que você está passando, música que também pode ser um poema do Neruda, um conto machadiano ou aquele romance da Virginia Woolf, um quadro de Hopper.
A morte será nosso momento final, significando então que nunca teremos um final feliz segundo a concepção de quem considera a morte o fim de tudo. Querendo ou não uma crença ou religião que seguimos também vai definir parte de nossas ações ou será fachada para encobrir outras mais torpes. Depende da sinceridade de quem as segue. Para quem acredita em vida após a morte ou num paraíso reservado para os eleitos, vai concordar que a morte vai ser o início de uma outra fase, desconhecida, incógnita, porém fresca e nova.
Apesar da morte (e por isso escrevi no início deste post que já sabemos como a vida terminará), a vida nunca pode ser considerada como algo previsível, já que não sabemos quando o final virá ou quem cruzará o nosso caminho, quais amizades vamos fazer ou quais vão se perder com o passar dos anos, quais familiares nos decepcionarão ou nos trarão orgulho, quando virão os momentos de calmaria ou glória ou quando as crises começarão, quem será seu mais novo amor ou quando você vai redescobrir que o seu amor é ainda o mesmo de anos atrás e que este permanece ao seu lado, em qual momento se sentirá a mais solitária das pessoas e quando a solidariedade se manifestará da companhia e das mãos de quem menos esperamos. Estamos todos sujeitos ao destino, aos desígnios de algo ou alguém (que produz o “meio” de nossas existências) que sabe como articular todas as vidas com muita precisão, ou tudo caminha surpreendente ao léu (como nos parece ser a natureza que nos circunda) até que as coisas se encontrem ou se choquem causando tragédias, momentos cômicos, suspense e romance.
Ou seja, quase igual a ficção, a arte. Afinal, uma não imita a outra e vice-versa?

Um comentário:

  1. Caro Wesley,

    A vida imita a arte é bem verdade! É somente preciso ressaltar que somente a arte nos torna imortal!

    Bela postagem, cinéfilo amigo!

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