27 de agosto de 2012

Da importância do palavrão


Uma dos tabus da infância era falar palavrão. Talvez por ser proibido quão bom era exteriorizar sua raiva, emoção, até mesmo alegria na forma de um baixo calão. Não sei, mas parece que extravasamos mais, canalizamos melhor nossos sentimentos quando eles se materializam em profusões de “m...”, “c...”, “vai tomar no...”, “por...”, “p... que pariu”, entre tantos outros. Apesar das opções mais elegantes em nosso dicionário.
Engraçado é que todos eles estão ligados a um aspecto fisiológico ou sexual do nosso corpo humano. Mais engraçado ainda tornam-se os “palavrões compostos” que unidos tem uma lógica toda sua. Quando alguém profere “por... do car...”, diz uma grande verdade. Uma coisa não pertence exatamente à outra durante o coito ou a masturbação?
Tem gente que tem o palavrão como parte indissociável do seu vocabulário usual, nenhuma frase é composta sem mencioná-los, até mesmo as interjeições. Tem aqueles que nunca os dizem e no momento que soltam algum, fique preparado, pois significa que a pessoa está realmente, muito, mas muito nervosa!
Como já escrevi anteriormente, muito do linguajar dito chulo representa algo sexual. Os ligados ao homem são os mais populares e democráticos: ambos os gêneros não se envergonham de compartilhá-lo. Já aquele que se refere ao órgão sexual feminino... De todas as pessoas que conheço que o empregaram em suas falas, foram, em sua grande maioria, numa situação de extrema fúria. Parece que existe um nível hierárquico e un nível psicológico para cada uma dessas sentenças malditas. O não referido explicitamente jargão feminino reina absoluto no topo, por ser recorrido apenas em momentos exclusivos, geralmente envolvendo a ira.
Meus pais sempre falaram palavrão. Os vizinhos também e os filhos dos vizinhos consequentemente. Mas no recinto do lar, ai de quem (meus irmãos e eu) falasse qualquer um deles, até o mais leve. Lá imperava a lei do “faça o que digo, mas não faça o que eu faço” ou até mesmo a ditadura do “falo porque sou adulto e posso. Você não”. Até mesmo uma condenação perpétua era sentenciada por meu pai e minha mãe: “Enquanto estiver debaixo do meu teto, não vai dizer nenhum palavrão. Respeito é bom e conserva o pé da orelha...” (nada mais justo). Não havia questionamentos ou contestações. Mesmo porque, como toda ditadura, os delatores estavam ao seu lado e não pestanejavam em denunciá-lo: “Oh mãe, fulano falou palavrão!”.
Ainda resta um sentimento de culpa (vide o pudor com que escrevo este texto, todo reticente, evitando a transcrição literal dos termos que são os protagonistas deste post) em muitos de nós quando soltamos um palavrão, talvez por lembrarmo-nos dos olhares de reprovação dos nossos pais. Pelo menos a vida adulta nos concede esta liberdade, mesmo que sejamos maus exemplos de uma geração vindoura, que já é má educada por uma série de fatores.
O palavrão é nosso amigo, está ali para aliviar as dores (isso é cientificamente comprovado) e as decepções da vida, o nosso ódio ira ou para simplesmente nos divertir. Pronto para ser expresso num canto obscuro da nossa fala, independente de nos policiarmos e mantê-los presos por não muito tempo, uma hora ele escapa e...

Um comentário:

  1. Não há como dar uma topada com sua unha encravada e daí dizer: céus, que dor lancinante!

    Só o palavrão é o bálsamo da dor!

    Muita paz!

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