15 de outubro de 2012

O leão


Muitos falam de matar um leão por dia. Posso dizer que acordo com um diariamente. A mesma juba imponente, a pose ameaçadora (diferente da doçura daquele desenho da Disney), os dentes afiados prontos a me dilacerar, animal que me acorda com seu rugido como um escandaloso despertador, arrancando-me das cobertas, apesar de tanto sono e cansaço. Este leão não é nenhum bicho de estimação, por mais que esbanje a arrogância felina por todos os seus pelos brilhosos, pois se distancia da simpatia que todo cão desperta no ser humano mais sensível. Mesmo assim, preciso levá-lo para sair todos os dias. O leão me acompanha pelas calçadas, nos coletivos, enfrentando a aglomeração dos vagões e a falta de educação das pessoas apressadas e atrasadas (espécie em superpopulação nesta cidade, quase uma praga urbana igual aos pombos). O rei das selvas segue-me no emprego, testemunha das idiossincrasias dos chefes e colegas de trabalho. Isto quando não tenta, faminto, usurpar meu almoço.
Em oposição à minha estafa física e mental, o leão persiste vigoroso, majestade que é, não perde a pose, zeloso de sua coroa, cioso de sua posição nobre, contrastando com a minha figura plebeia, pobre coitado, que não nascido em berço de ouro, nem imperador das selvas africanas, precisa ainda batalhar seus trocados e seu estudo.
O leão dorme cedo e influencia a minha vontade de descansar, uma briga interna e física contra o sono que insiste em se manifestar durante a aula. Por vezes, as mordidas do leão na minha perna me acordam quando nem sequer me lembro em qual lugar estou (faculdade, metrô, ônibus, até mesmo em casa). E assim prossegue esta relação estranha e nada amistosa entre humano e régio felino.
Impossível abater um leão por dia. Ele ressurge e renasce como uma fênix, ressuscita como Cristo, para sempre nos desafiar e nos empurrar à frente ou ao chão ou por-nos estáticos e medrosos diante de sua figura. Sem este leão como companhia, o que seria de nós, adultos, civilizados, meros súditos e peças de um jogo maior do que nós, maior que tudo aquilo que julgamos compreender?  Certamente a vida perderia sua usual opressão e se encheria de muitas outras possibilidades.
A morte do leão é utopia como aquela de que haverá um mundo melhor (em tempos de crise cada vez mais acentuada, parece que o fim é iminente). E assim aprendemos a conviver com ele, carregando-o para todos os cantos, de cima abaixo, mas sem nunca conseguir domesticá-lo ou abatê-lo com uma carabina.

Um comentário:

  1. Cinéfilo amigo,

    belo texto!

    O único leão que não consigo domar é o do MALDITO IMPOSTO DE RENDA!!!!!

    MUITA PAZ!

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