11 de novembro de 2012

A prece









A gente reclama da nossa correria (e me incluo nesta patota), mas a vida urbana pode proporcionar alguns momentos que beiram o lirismo e o inesperado, dependendo do ponto de vista. Estava eu, cansado, estressado, morrendo de sono em um banco do metrô, a cabeça titubeando entre levantar e cair. Os olhos seguindo no mesmo pesar. À minha frente, outras pessoas centradas em exercer o jeito paulistano de ser: casmurros, alheios, preocupados. Com tanta morte acontecendo, tanta violência a espreitá-los, não é de se surpreender que comportem-se assim. Guerra entre autoridades, policiais, bandidos, um disparar de tiros entre todas as partes e camadas sociais e uma população coagida e atingida mortalmente neste fogo cruzado. Chega de digressões, pelo menos por enquanto. À minha frente, além dos passageiros triviais do metrô, se encontrava um policial, na atitude séria de sempre, com a postura ereta e preparada para qualquer eventualidade. Imóvel e inflexível, desde a estação D. Pedro.
O trem chega à estação República, uma grande parte das pessoas seguem rumo aos seus destinos, enquanto outras entram pelo outro lado do vagão. “Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma, a pressa pode causar acidentes”, lembrou-nos o condutor com uma voz metálica, enfastiada talvez de repetir a mesma frase o dia todo e diariamente. Minha cabeça se levanta, não consigo me entregar ao sono nos coletivos, invejo aqueles que não temem o ridículo e ficam boquiabertos e até babam, dormem o sono das crianças, com o peso da vida adulta no corpo. Eu preciso me contentar com as breves “pescadas” que minha cabeça dá, os “peixes” rareiam mesmo quando o rio está farto deles e o sono implora repouso.
Eis que entra um jovem rapaz. Boa aparência, roupa social, cabelo cortado à última moda masculina. Aproxima-se do policial e repousa sua mão em seu ombro. Se eu fosse um fatalista ou paranoico, imaginaria um bandido, um homem em busca de vingança, quiçá um homem-bomba. No entanto, evito estes maus pressentimentos e preferi pensar que o rapaz tinha alguma dúvida e preferira perguntar ao policial onde que ficava determinado lugar que pretendia ir, talvez estivesse atrasado ou fosse a primeira vez que pisava os pés nesta cidade.
Ao contrário das minhas expectativas, até das mais otimistas, a cena que aconteceu foi mais interessante do que qualquer sanar de dúvidas. O rapaz se distanciou, esticou o braço e manteve a mão pousada no ombro do policial e começou a orar. Pelo menos é o que eu imaginava. Não orava ostentando a sua fé, como muitos religiosos o fazem. A cena comoveu pela sua discrição. A prece não durou mais que um minuto, tempo suficiente entre a estação República e a Santa Cecília. Depois de terminada a oração, o rapaz voltou à sua posição inicial, encarou o policial de vez em quando. Este agradeceu num tom muito baixo, não se moveu de seu lugar. Meio que constrangido. Meio que surpreendido, a cabeça na indecisão de qual atitude tomar. Preferiu a impassibilidade, afinal precisa demonstrar força e altivez. Acredito que seu interior estivesse num verdadeiro caos. Caos positivo, daquela instabilidade causada por gestos inesperados e gentis, o desconcerto pelo olhar recebido, pela atenção dispensada diversa daquela que os policiais estão acostumados todos os dia, cercada de respeito temeroso.
O policial teve a sua autoridade quebrada, a defesa caída não por ameaças infratoras, pela audácia dos bandidos ou pelo risco da morte, mas por um gesto afável, de solidariedade e empatia, por alguém que sabe que todos os eventos funestos atuais não estão sendo fáceis para ninguém. Gelo interno derretido por um gesto isento de posições políticas, de amor ou ódio aos responsáveis pela segurança da cidade e do estado. Um gesto que pede proteção e paz de espírito (e não quero fazer apologia a nenhuma religião aqui) a todos os envolvidos nestes conflitos sangrentos, que só conseguem encher as valas de corpos vitimados, gerar sofrimento às famílias e encher de pesar este estado já tão sobrepujado por diversas mazelas.

3 de novembro de 2012

Post para um cantor incomum da porta da universidade




Na saída da faculdade ele canta a plenos pulmões. A multidão indiferente de estudantes passa por ele ignorando o seu espetáculo, desfazendo-se de seu “talento” e “estilo” incompreendido. De frente a uma caixa de sapatos converte-se, em seu interior, num pop star, vociferando canções de amor! Desafinado! Ridículo! Louco! Estridente como uma sertaneja dor de cotovelo.
Questiono-me o que se passa em sua cabeça? Que pensamentos o conduzem à porta da universidade? O que ele faz após a rua esvaziar, sem que os transeuntes peçam sequer um bis? Vai para a casa e canta o seu repertório emocionante debaixo do chuveiro durante o banho? Decerto o banheiro lhe proporciona um público menor do que o estádio universitário de seu imaginário. Jam session de um crooner mal fadado. Turnê de inúmeros shows cancelados, não pela sua vaidade e vontade. Afinal ama seu público mesmo que este não retribua o carinho em gritos histéricos e pedidos de outras canções, no máximo a plateia graceja ou reclama de sua voz esganiçada. 
Turnê cujo único palco é ali, sem recordes de público  e com o esquecimento da crítica especializada, naquela calçada da saída da instituição de ensino superior, onde descobrimos que mora um coração dentro do peito daquele desafinado.