22 de dezembro de 2012

200 Crônicas Escolhidas – Rubem Braga



Rubem Braga é um fenômeno a parte na literatura brasileira. Foi o único que se notabilizou por ter escrito apenas crônicas e nunca ter enveredado por qualquer outro gênero literário (diferentes de nomes como Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues que produziram crônicas conhecidas além de ser grande poeta e autor teatral, respectivamente). Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, Rubem escreveu sobre o seu tempo nos diversos jornais deste país em que trabalhou na sua carreira de escritor e jornalista. As mulheres, cenas da vida no Rio de Janeiro, o saudosismo, a natureza, os animais, tudo era motivo para que escrevesse belas linhas e iluminasse um pouco a vida dos seus leitores com suas deliciosas palavras.

Li o livro 200 Crônicas Escolhidas (Editora Record), que traz o melhor do que foi produzido pelo autor entre 1935 e 1977. O encantamento acontece através do contato com sua poesia do cotidiano. Afinal somente os grandes poetas entreveem a poesia no caos, o belo na cidade grande a massacrar o homem, no homem a se maravilhar com a grandiosidade das coisas e o absurdo delas também e a incompreender seus próprios relacionamentos. Rubem Braga é antes de tudo um “lírico da prosa”. Aquele que enxerga o que nossos olhos tão anestesiados, tão acostumados à rotina, já não veem, de tanto conviver com o mesmo de sempre igual. A efemeridade é um risco para quem escreve sobre a época em que vive (imagino o que ele redigiria a respeito do fim do mundo maia que não ocorreu). Rubem Braga conseguiu eternizar a sua escrita, pois concentrou-se justamente no sentimento que resultava da experiência de tudo aquilo que vivia ou via e não apenas nos fatos, e esta sensação continua pulsante em nós (o espírito de seu tempo é quase o nosso também, as mesmas preocupações nos movem, o sentir-se deslocado do mundo e da sociedade, a nossa incredulidade perante ela, a vaga impressão de que muito pouco mudou daqueles tempos para cá).

 Rubem Braga sobreviveu. Suas crônicas não pereceram com o correr dos anos. São lembranças tenazes, as mesmas lembranças que o inspiraram em diversos textos de linguagem simples e direta, crônicas estas que incrustam de uma forma boa em nossa mente após a leitura que flui como água, ecoam em nossas cabeças por muito tempo, nos divertindo, comovendo, fazendo-nos refletir um pouco mais sobre nós mesmos.


Um comentário:

  1. Sobre a vida – e principalmente as circunstâncias que cercaram a a morte de Rubem Braga – vale a pena ler este excelente texto do mauro santayana, do Jornal do Brasil:
    http://www.maurosantayana.com/2013/01/rubem-e-o-poder.html

    ResponderExcluir