27 de janeiro de 2013

Santa Maria ou o fogo


O fogo queima e deixa marcas, consome a tudo, alimenta-se do que é inflamável. Prolifera-se, torna cinzas. Dele, não ressurgem fênix, o fogo não brota da boca de um dragão em fúria, nem das mãos de um bruxo pleno de sua magia. Pode irromper das mãos (ou ser causado por elas) de quem acima da plateia queria encantar o seu público com um pouco de pirotecnia, dar espetáculo que pipoca em faíscas que também podem originar uma combustão. Pode propagar um incêndio. O fogo, e seus derivados, destrói. Não somente resulta em queimaduras de segundo, terceiro grau, na deformação da epiderme que nunca mais será jovem. Jovem também seu público que passou, que entrou, ficou e não conseguiu sair. Que inalou fumaça, que pisoteou ou foi pisoteado por desespero, encarcerado pela fatalidade. Fogo que causou dor em quem sequer chegou perto de sua incandescência, de quem não sentiu na pele ou no peito as consequências de suas propriedades químicas. A dor de quem estava longe é diversa da carne em contato com o fogo, do pulmão a inalar gás carbônico, no entanto a conexão com ela era mais forte, pela intimidade que se tinha, pelos laços de sangue ou amizade que os aproximava. Pessoas dilaceradas e carbonizadas por outras propriedades, desta vez emocionais, tão igualmente difíceis de regenerar. Se há conforto depois de tudo isto? Se haverá punição ou uma forma de remediar tamanha devastação? Não se sabe exatamente. Resta o lamento... Somente...

24 de janeiro de 2013

Na Estante 1 - A Arte do Romance (Milan Kundera)


Livro: A arte do romance
Autor: Milan Kundera
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2009
Páginas: 160


“O romance acompanha o homem constante e fielmente desde o princípio dos tempos modernos. A “paixão de conhecer”(aquela que Husserl considera a essência da espiritualidade europeia) se apossou dele então, para que ele perscrute a vida concreta do homem e a proteja contra “o esquecimento do ser”; para que ele mantenha “o mundo da vida” sob uma iluminação perpétua. É nesse sentido que compreendo e compartilho a obstinação com que Hermann Broch repetia: Descobrir o que somente um romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre algo até então desconhecido da existência é imoral. O conhecimento é a única moral do romance.” (A arte do romance, página 13)

Não li nenhuma obra literária de Milan Kundera, autor de A Insustentável Leveza do Ser, porém a leitura de A Arte do Romance (Companhia das Letras, 2009) não exige tanto o conhecimento prévio dos seus textos mais conhecidos. Ele versa sobre os métodos de composição dos seus romances, porém também levanta reflexões sobre o próprio gênero literário desde o paradigmático Dom Quixote de Miguel de Cervantes até a obra original e inquietante de Franz Kafka. Kundera tece reflexões sobre o romance europeu, que teve seu pleno desenvolvimento nos séculos XVIII e XIX, como uma forma de entender os meandros da feitura de um romance como para compreensão da própria Europa, do como estas obras importantes refletem um estado de espírito, o momento histórico de uma época e deste continente como um todo. O livro é dividido em 7 partes compostas por ensaios escritos pelo autor (sobre Cervantes, sobre Kafka, sobre Hermann Broch), transcrição de entrevista concedida pelo autor ao jornalista Christian Salmon (da revista Paris Review), um dicionário de palavras-chave que definem a obra de Kundera desenvolvido pelo próprio. O livro não chega a ser uma obra fundamental da crítica literária, como os tratados de Mikhail Bakhtin, Georg Lukács, Antonio Cândido, Massaud Moisés, entre tantos outros, porém ajuda a entender esta difícil e fascinante arte que é a de escrever (é sempre uma delícia e muito curioso também ler um artesão das palavras versando sobre o seu próprio trabalho), lançando uma luz para aqueles interessados em aprofundar seus estudos teóricos sobre o romance literário.

Na Estante – O início

O Escritos e Besteiras de Wesley Moreira começa o ano com um desafio: o projeto Na Estante. Na verdade, este projeto não foge ao que já vem sendo escrito nestes dois anos de blog sobre livros e literatura: reflexões e críticas sobre as obras lidas recentemente. Não existe limite: pode ser literatura (poesia, prosa, crônica, teatro), teoria, filosofia, biografia, qualquer gênero. Livros que fazem parte da minha modesta biblioteca, emprestados por amigos, formato digital ou impresso. O que importa é a discussão e a difusão de livros visando o incentivo à leitura e a descoberta de novos títulos, autores consagrados, além das essenciais releituras das obras mais importantes.
E para a estreia, um livro que ganhei de presente no ano passado de um amigo: A Arte do Romance, de Milan Kundera. Obrigado, Eduardo Eulálio!

23 de janeiro de 2013

Da banalidade da morte e da vida


Pipocam nos jornais notícias de homicídios que assustam até mais pelos motivos que levaram os assassinos a tal atrocidade do que pelo próprio crime em si. Todos estes atuais eventos fazem-me lembrar de um dito antigo que meus pais e outras pessoas mais velhas costumam falar: “A vida não vale um centavo”. Numa sociedade onde crianças são criadas sem qualquer limite, onde os jovens crescem sem qualquer noção de responsabilidade, fica mais difícil de entender o valor da vida em nosso meio atualmente. Não podemos culpar apenas a contemporaneidade, as novas gerações, tudo vem acontecendo de modo cumulativo. A falta de respeito ao próximo, a pouca importância dada à vida é histórica.
Quando pessoas matam umas as outras por causa do preço da refeição (aí não importa se você é o consumidor que reclama ou o dono do estabelecimento que alerta sobre desperdício de comida no restaurante), devido a um assalto, mesmo estando a vítima nos últimos meses de gravidez, ou elas simplesmente invadem escolas e atiram a esmo ceifando a vida de crianças e professoras, algo está errado. Nada que nos surpreenda em alto grau já que passamos por diversos conflitos étnicos, chacinas, genocídios. Na verdade estamos numa saturação de tudo isto, fastio causado pela hiper-exposição de casos trágicos e sangrentos nos jornais, programas de TV mundo cão.
Lamentamos a morte e a vida prossegue no seu fluxo irreversível. Reclamamos até quando alguém tenta se matar no metrô ou no trem, por termos a nossa rotina abalada por este fato que deveria ser recebido com pesar e não o contrário, pois para nós é mais importante não chegarmos atrasados ao trabalho do que a integridade física ou a sobrevivência de alguém que resolveu recorrer a um ato desesperado. 
Momentos violentos e banais, como estas notícias de jornal, servem, ao menos, para nos paralisar, nos arrancar de nós mesmos (a empatia com familiares das vitimas é imediata), breves segundos em que até esquecemos do que estamos fazendo, mesmo sendo uma tarefa rotineira, um esmaecer da vida que fica mais sem graça e triste.