24 de março de 2013

Os dois mortos




Semana passada tinha um homem morto em frente à estação Pedro II. Relato este triste evento não porque o presenciara e, sim, porque uma amiga o vira minutos antes do que eu. Detalhe: o corpo ainda estava lá hirto e frio, sob a companhia da polícia militar que aguardava a perícia chegar, quando eu tinha passado pela mesma calçada rumo ao farol, tomado pelo cansaço, sono, mau humor e outras dessas doenças sociais que nos arrastam e nos fazem empurram pelos dias sem saber o que estamos fazendo exatamente. Lamentei o morto, mas o sentimento maior foi o de vergonha de mim mesmo. Preso às minhas preocupações sequer reparara no ocaso do falecido que se encontrava ali próximo a mim. Dizem que o sujeito esperava o filho retornar do trabalho todos os dias em um banco de praça em frente à estação, sempre por volta das 5 da manhã. Contaram que o senhor foi abordado por um ladrão que anunciou o assalto, porém o homem reagiu e o ladrão o apunhalou com uma faca direto em seu coração, a vítima cambaleou até a estação, porém não resistiu, expirando ali na calçada. O morto fora assunto durante todo o dia. Levantou preocupações entre os outros colegas de trabalho, uns relembraram assaltos anteriores na região. Em mim, apenas o constrangimento. Mortes servem para reavaliarmos nossa própria vida, como ela caminha, as nossas relações e aquela desagradável, porém necessária, empatia: e se fosse eu no lugar do infeliz senhor? Que vida eu deixaria naquele momento? Sabemos que a morte virá, só não sabemos o como e o quando. A lição que aquela fatalidade me deixou foi a de sair um pouco de mim às vezes e me levantou a dúvida sobre quem era o verdadeiro morto naquele momento: o próprio falecido ou eu?

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