11 de maio de 2013

Na Estante 5 – Senhora (José de Alencar)



Livro: Senhora
Autor: José de Alencar
Editora: Penguin Companhia
Ano: 2013
Páginas: 336


“- A riqueza que Deus me concedeu chegou tarde; nem ao menos permitiu-me o prazer da ilusão, que têm as mulheres enganadas. Quando a recebi, já conhecia o mundo e suas misérias; já sabia que a moça rica é um arranjo e não uma esposa; pois bem, disse eu, essa riqueza servirá para dar-me a única satisfação que ainda posso ter neste mundo. Mostrar a esse homem que não me soube compreender, que mulher o amava, e que alma perdeu. Entretanto ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe-ei que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; consinta-me que eu o ame. Essa última consolação, o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor matou-me o coração, era justo que o prendesse ao despojo de sua vítima. Mas não desespere, o suplício não pode ser longo: este constante martírio a que estamos condenados acabará por extinguir-me o último alento; o senhor ficará livre e rico.”

Aurélia Camargo domina os salões que frequenta, cuja nossa atenção gravita em torno de si com a leitura deste clássico do Romantismo Brasileiro. Para muitos, a obra prima de José de Alencar, Senhora tem um gosto diverso dos romances açucarados da época, obras estas que o próprio Alencar escrevera também. Uma sutil ironia e uma suave crítica à classe burguesa da época, afeita às aparências, que privilegia o status, a quem tem dinheiro, desprezando e esmagando os que estão fora destas equações, tempera a trama. Aurélia era uma jovem e bela mulher, porém pobre, condição financeira que a fez ser preterida pelo namorado, Fernando Seixas, em detrimento de outra pretendente que possuía um dote maior. Após saber-se herdeira de seu avô, um rico fazendeiro, Aurélia não somente ascende socialmente como se vinga de Seixas comprando a sua mão em casamento por 100 contos de réis. Claro que Seixas paga um preço caro por sua escolha interesseira, antes de tudo. O rapaz é humilhado e tratado como um simples objeto adquirido pela protagonista que não perde a oportunidade de humilhá-lo e lembrá-lo da condição de uma pessoa que se vendeu à outra. Aurélia faz questão de mostrar à sociedade que agora a bajula e a aceita em seu seio que não mudou, mesmo depois de tornar-se rica ao mesmo tempo em que ostenta um casamento de aparências com Seixas, o grande amor de sua vida, que sequer foi concebido. À medida que as páginas avançam mais condenado parece este casal emblemático do romantismo, como outros que o escritor cearense criou em sua vasta e diversificada obra. Alencar descreve com riqueza de detalhes os luxuosos espaços que encerram Aurélia e Seixas, seu preciosismo em narrar os bailes, os convescotes, através de criativas metáforas, comprovam o diferencial que Senhora tem na literatura brasileira, mesmo que cedendo às convenções e aos exageros do Romantismo no final, o que não retira por completo o seu brilho diante daquilo que foi produzido no mesmo período.

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