26 de maio de 2013

Na Estante 6 – Memórias de Um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida)


Livro: Memórias de um sargento de milícias
Autor: Manuel Antônio de Almeida
Editora: Moderna
Ano: 1996
Páginas: 203


O malandro sempre teve um lugar cativo entre as figuras representativas na cultura brasileira. Seja na música, no teatro, no cinema. Na literatura, Manuel Antônio de Almeida foi o responsável por introduzir esta personagem tão marcante, uma livre variante dos protagonistas dos romances pícaros espanhóis. Com Memórias de Um Sargento de Mílícias, o escritor retrata o Brasil dos “tempos do rei” (período em que a família Real Portuguesa estava no Brasil) e expõe uma galeria de personagens típicos que não faziam parte da elite da época: imigrantes portugueses, meirinhos, soldados, as beatas, vadios, vizinhas fofoqueiras. A periferia está ali, sob certo aspecto, representada em suas histórias. “Memórias de um Sargento” é um romance atípico, um corpo estranho numa época em que o nacionalismo, os retratos urbanos, os sentimentos exacerbados, a burguesia, eram retratados pelos autores e poetas do Romantismo. Primeiramente pela narrativa episódica, que usa a linguagem coloquial da época e a jocosidade para contar a trajetória de Leonardo, “filho de uma pisadela e uma beliscão” entre seus pais Leonardo Pataca e Maria, que o traia e o abandonou. Leonardo acabou sendo criado pelo seu Padrinho que encobria as suas más criações e tinha esperanças de torná-lo um padre ou um médico, enquanto a Comadre insistia que a melhor carreira deste era a militar. O romance acompanha a infância de Leonardo, um garoto peralta que aprontava diversas traquinagens, e sua vida adulta, marcada pelo amor que sente por Luisinha. Acima deles paira a figura imponente do major Vidigal, que tenta estabelecer a ordem no Rio de Janeiro e, obviamente será um obstáculo tanto para o Leonardo pai quanto para Leonardo filho, este último afeito a vagabundagem e à errância. Os quiprocós, o humor, o narrador que interrompe a história para fazer suas observações e interage com o leitor, quebrando a homogeneidade e a caretice dos livros de sua época, um romance de costumes que antecipa alguma das características do Realismo-Naturalismo. A influência de Memórias de um Sargento de Milícias somente cresceu em toda a literatura brasileira, inspiração para outros trabalhos marcantes (como o Macunaíma, de Mário de Andrade), um livro em que é apresentado, segundo as palavras de Antonio Cândido em seu famoso ensaio, "Dialética da malandragem", "o primeiro grande malandro que entra na novelística brasileira, vindo de uma tradição quase folclórica e correspondendo, mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cômica e popularesca de seu tempo, no Brasil".

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