27 de junho de 2013

Impressões de quem passou à margem dos atuais protestos


Não participei de nenhuma das manifestações que chacoalharam a cidade nas últimas semanas. Mas é óbvio que vivemos um momento histórico em nosso país. Cansados de reclamar apenas nas conversas de bar, em frente a uma notícia de televisão sobre mais um senador ou deputado corrupto, parte da população resolveu sair às ruas e protestar. O aumento da tarifa de ônibus, que em São Paulo foi de R$ 0,20, foi somente a gota d’água que faltava para o transbordar de milhões de mágoas acumuladas, são 500 anos de história em que a passividade fez parte da cartilha de como sobreviver às injustiças políticas e sociais neste país.
Foi lindo de se ver as multidões caminhando e exigindo respeito, fazendo barulho e mostrar que ninguém mais suporta abaixar a cabeça para os mandos e desmandos dos líderes de suas cidades e país. Foi irônico ver o estado e a prefeitura acuados e desorientados com as palavras de ordem, com a cidade a cada dia ocupada pelos protestos, usando a despreparada Polícia Militar como escudo, respondendo com violência atos que eram pacíficos. Foi engraçado ver a mídia como um todo denegrindo e invalidando os atos de protestos (classificando a tudo como atos de vandalismo) para, dias depois, mudar de ideia (pois senão iria ficar contra a opinião pública, a população, que concordava com as manifestações), separar o joio do trigo, peneirar os vândalos de seu discurso (mesmo que ele mantenha-se ali ainda intacto, sob o disfarce do apoio). Foi e ainda é triste que alguns grupos ainda achem que destruição do patrimônio público e privado vai levar a alguma solução (só aumentará o recrudescimento da polícia e fará todo o movimento perder sua validade).
Alguns gritam que o “gigante acordou” que o “povo acordou”, não vejo isso. Há controvérsias. Uma parcela da população saiu às ruas, enquanto a outra continuou a acordar cedo, a trabalhar, a ir para a faculdade (como foi o meu caso e lamento ), e ainda reclamando do fato destes protestos atrapalharem o chegar ao trabalho ou o voltar para casa para descansar (população esta que certamente agradecerá o fato das pessoas que atrapalharam sua vida nestes últimos dias terem conseguido a revogação do aumento da tarifa de ônibus).

Não são apenas os 20 centavos, o fato é que entra ano e sai ano, a tarifa sofre reajuste e o transporte não melhora, a saúde não melhora, a educação é um caos, olhamos a polícia não como protetora, mas como principal inimiga, a corrupção parece ser um requisito para quem se aventura na carreira política (com raras exceções). O povo perdeu a crença, já há muito tempo, nas instituições. O mesmo povo que não reconhece ainda o poder de suas escolhas nas urnas, o povo que ainda não acordou por completo, que ainda faz coro ao que o patrão acha, ao que a TV acredita, que se resigna e se espreme no metrô, aquele que não sabe cobrar e sim apenas reclamar. Mas a gente sabe a origem de todo este mal: vem de uma educação péssima, vem de uma alimentação subnutrida, vem de uma carga horária de trabalho extenuante, emprego que fica do outro lado da cidade. Gente cuja existência resume-se a acordar, trabalhar e dormir. Gente que, espero, acorde logo e tome boas decisões nas próximas eleições.


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