8 de julho de 2013

A sombra dos clássicos


            Devia ser proibida a leitura de clássicos aos escritores neófitos. Não se preocupem, isto é apenas um chiste para chamar atenção a uma questão muito importante: a sombra imponente que estes autores consagrados e geniais fazem sobre aqueles que se arriscam nas primeiras palavras e linhas. Quando em contato com a inventividade linguística roseana ou a ironia machadiana, em algumas aulas na faculdade, senti vergonha das “besteiras wesleyanas”, ficcionais ou não, que já produzi. É através dos clássicos, claro, que descobrimos nossas preferências temáticas, estilísticas. Mas somos intimidados diante da genialidade destes autores tão fantásticos.
           O professor de Língua Portuguesa, no semestre passado, usou um conto de  Guimarães Rosa (o belíssimo Densenredo) para versar sobre “estilo” e mostrar que cada palavra (no caso do artesão que é Guimarães) não está ali por acaso e tudo se trata de questões e escolhas estilísticas. Na semana seguinte, o professor de Literatura Brasileira destrinchava um dos mais famosos livros de Machado (Memórias Póstumas de Brás Cubas) para mostrar o quanto o Bruxo do Cosme Velho se distanciou (para o nosso bem) das características e teorias deterministas que definiram o Realismo-Naturalismo brasileiro no século XIX. Além de fascinado com aquilo que estes escritores conseguiram como resultado literário cravando seus nomes na história com suas penas ou máquinas, também me senti um tanto quanto rebaixado, eu, o mais medíocre dos escritores (iniciantes ou não).
           Pensando bem, trata-se de um sentimento necessário. Afinal, muita gente acha que escrever é apenas esperar a inspiração baixar em si como um espírito ou uma encarnação para o escritor redigir seus textos (pelo menos comigo isto nunca acontece, não tenho vocação para Zíbia Gasparetto). Poucos encaram a escrita como uma prática contínua, árdua, a escrita como experimentação que não se limita ao tema, um misto intrínseco e inseparável dos dois. Forma e conteúdo caminhando lado a lado, por vezes dando-se as mãos, por vezes em rusgas e farpas soltas. Um tentar e um retentar. Um rabiscar, um borrar e um apagar e um novo rascunho aparece para talvez ser reescrito mais um vez, pela décima vez (hábito que cada vez mais sei que devo me cobrar). Esses clássicos maravilhosos e seus escritores voadores servem então como meta ou modelos, assim como certas pessoas são exemplos e influências para a nossa vida, não para poder escrever igual a eles algum dia, mas o de se chegar a tal ponto de aperfeiçoamento (desde que com nosso próprio jeito, desde que encontremos uma voz própria), não um Ctrl C/ Ctrl V.
O grande problema é frear tanta insegurança quando o clássico está ali na sua frente, folhas abertas, fazendo-o descobrir um mundo linguístico novo, e sequer sabendo como construir o seu próprio universo depois que, ao que parece, já o edificaram antes. Se os clássicos fossem proibidos teríamos também os clássicos que tanto contribuem para a nossa insegurança e nossas predileções? Machado de Assis e Guimarães Rosa, só para citar dois exemplos, teriam sido os escritores que conhecemos como o são?
Acredito que não. Afinal os gênios também foram neófitos como nós um dia.


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