19 de julho de 2013

Na Estante 8 - O Cortiço (Aluísio Azevedo)



Livro: O cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Editora: Klick
Ano: 1997

Páginas: 175

Que O Cortiço é um clássico da nossa literatura é uma informação óbvia. Os professores, especialistas, críticos, até quem não leu o livro o consideram uma obra de grande envergadura na produção escrita tupiniquim. Então prefiro focar meu olhar sobre o romance no quanto me impressionaram as descrições do naturalista Aluísio Azevedo, a riqueza de detalhes não somente dos espaços e personagens retratadas, que se confundem uns com os outros, como também a ousadia de retratar o ser humano e o sexo. Talvez esta visão mais analítica do narrador, sob um viés científico, a questão determinista que dominou o pensamento naquele final de século XIX, tenha dado uma frialdade nas relações e nos contatos sexuais retratados com minúcia pelo autor, em seu olhar clínico. Porém ainda não deixa de “chocar” (na falta de qualquer outro termo mais adequado) o leitor mais desavisado. Eu, quando em contato com este, e outros romances da mesma época com semelhante descrição, sempre imagino que o leitor pudico daquele período tenha ficado consternado, considerando todos aqueles pormenores como uma indecência: os beijos, abraços, a penetração, o requebrar de Rita Baiana, o abuso sexual de Pombinha, a excitação de Jerônimo. Até hoje o sexo ainda é tabu e olha que, desde a publicação de O Cortiço, já se passaram mais de cem anos. Não podemos esquecer que as personagens são vítimas do olhar até de certa forma preconceituoso do autor, animalizando suas atitudes e trejeitos, como se aquela camada da população que lotava os recintos do cortiço fosse apenas instinto, como se fossem apenas estômago e sexo (tomando de empréstimo uma frase marcante do filme Amarelo Manga), evitando outros traços que poderiam também enriquecer mais aquele grupo marginalizado. Não o são. Mas temos que entender que O Cortiço é um romance de tese (assim como tantos que pulularam na Europa, como os trabalhos do francês Émile Zola, referência de dez entre dez escritores daqueles longínquos mil e oitocentos), por mais equivocada esta tese seja. Desfia-se em detalhes desenxabidos e corajosos para comprovar seu olhar sobre as pessoas daquele meio. Que vivemos numa sociedade patológica, isto sabemos, triste pensar também que ainda este olhar determinista ainda impera na mente das pessoas, daí resulta ainda a atualidade, o encanto e a perplexidade que O Cortiço ainda causa em seu leitor nos pseudo-modernos dias de hoje.

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