24 de julho de 2013

Pague Quanto Acha Que Vale


 
Aqui em São Paulo uma verdadeira festa para os leitores de plantão: são as máquinas de livros que geralmente ficam em diversas estações do metrô. Com a atrativa mensagem do “Pague Quanto Acha Que Vale”, a empresa responsável trabalha com sobras de editoras, livros não mais publicados, fora de catálogo, basta que você pague o mínimo de R$2,00 (pois a máquina aceita apenas nota de papel). Claro que existem muitos livros ruins, mas garimpando um pouco você encontra algumas raridades, além dos bons e velhos clássicos de nossa literatura. Por este motivo não me furto o direito de dar uma espiada nos livros que estão à venda, afinal foi assim que não perdi a oportunidade de encontrar, nestas olhadelas, por exemplo, Lygia Fagundes Telles, Nelson Rodrigues, um livro de ensaio do Paulo Ronai, uma biografia do Mário de Andrade, um livro sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto e Raul Pompeia. Eles estão lá escondidos entre ficções científicas estranhas, livros de receita, autores desconhecidos, livros sobre DST e romances policiais pouco célebres.
Independente do preço que você pague (eu sempre me armo com R$2,00 reais na carteira, vai saber o que vou encontrar naquelas máquinas), nada como uma leitura, por pior que seja, para a viagem de trem ou ônibus ser mais rápida, nos divertir em casa, despertar reflexão, melhorar a atividade cerebral, enfim, ter mais informação na sua vida, em algum momento dela você precisará utilizá-la: num bate-papo entre amigos ou com aquela pessoa em especial, numa entrevista de emprego, até mesmo para discutir sozinho com o apresentador do telejornal ou não se deixar levar pelo discurso retrógrado do comentarista da TV ou pelo comentário duvidoso de algum editorial do jornal ou revista.
Querendo ou não a leitura nos diferencia. Aumenta o léxico, diversifica nosso vocabulário, nos faz entrar em contato com diversas ideias, convergentes ou divergentes da nossa, nos definem, nos tira da indiferença e da ignorância e nos faz tomar posições neste mundo tão contraditório, nos faz enxergar estas contradições e não confiar nas aparências. Mesmo que involuntariamente, essas máquinas contribuem para o nascimento do novo leitor e o estabelecimento do velho.
Por isso não me impeço de pegar um livro que me interessa nestas máquinas, mesmo que depois a minha biblioteca pessoal fique entupida de títulos para ler no futuro, mesmo que essa leitura ocorra daqui a dez anos. Enquanto isso, uma motivação a mais me faz circular pelos metrôs que não só a obrigação do trabalho ou do estudo, afinal uma máquina de livros pode estar à espreita, só aguardando a minha olhadela ou a de qualquer leitor interessado ou o perdido transeunte que encontra ali uma forma de distração.

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