25 de agosto de 2013

3 anos de "Escritos e Besteiras..."





3 anos!
Trinca de ases, trilogia, 3 é demais, os 3 mais e por aí vai. Três tem caráter uno: começo, meio e fim. A narrativa clássica, estrutura aristotélica. O blog continua na infância, muita coisa mudou desde o fatídico 25 de agosto de 2010. O blog transformou-se, engatinhou, caiu, levantou, chorou, caiu mais uma vez e está balbuciando, mesmo que de forma desconexa, as primeiras palavras. O cinema perdeu espaço, a crônica e a literatura ganharam atenção maior. Início, meio e fim. Então seria o fim? Se não fosse o “Escritos e Besteiras de Wesley Moreira”, por qual canal me expressaria? Ter um blog exige um tempo e dedicação que eu não disponho hoje em dia. Mas é algo que me obriga a sempre a me manifestar. Obrigação aqui soa antiquada, forçosa e o é. Por outro lado, se gostas do que fazes não reclamarás daquilo que te obrigas a fazer. Não é verdade? E não reclamo. Mas sinto uma necessidade de mudar o foco mais uma vez. Preciso fazer uma retrospectiva. Reler alguns textos publicados, rever alguns conceitos. Saber o que funciona e o que não deu certo. É tempo de fazer um balanço. Não se preocupem se este blog ficar silencioso por muito tempo. E obrigado mais uma vez por prestigiarem os seus escritos e as besteiras.

14 de agosto de 2013

Na Estante 10 - Suicídios Exemplares (Enrique Vila-Matas)


Livro: Suicídios exemplares
Coleção Folha Literatura Ibero-Americana
Autor: Enrique Vila-Matas
Editora: Media Fashion
Ano: 2012
Páginas: 192



O suicídio é um tema espinhoso, porém muito caro à literatura. Muitos escritores exploraram este assunto polêmico em maior ou menor grau de apuro. O principal risco de se abordar sobre o suicídio é cair no sentimentalismo e na autopiedade, afinal são diversas as razões, radicais e passionais, que levam a pessoa a cometer ato tão extremo: o de decidir quando morrer, o de por fim a sua própria vida. Enrique Vila-Matas, um dos grandes escritores espanhóis da atualidade, com este “Suicídios Exemplares” desenvolveu de forma brilhante contos que versam sobre o suicídio com uma precisão e um olhar distanciado de quem se solidariza, demonstra empatia, porém não toma o partido de suas personagens. Pessoas comuns são as protagonistas das envolventes narrativas: uma dupla de amigos, em que um deles tem um histórico de homens na família que praticam o suicídio e esta tensão percorre nas preocupações de ambos até à vida adulta; um ator fracassado em busca de uma dupla para reerguer a carreira; uma dona de casa influenciada por um quadro de Klee que tem diversas oportunidades de se matar no dia de seu aniversário; um homem que em toda sua vida tentou não chamar a atenção das pessoas e cuja participação como escritor numa publicação local traz o foco para outros escritos que ele tem guardado e sente-se seduzido pela notoriedade que, sem querer, conquistou; um jogador de futebol aposentado às voltas com uma espécie de clube do suicídio, do qual participou o pai de sua atual namorada (que possui uma doença terminal), entre outras estórias. Poderiam ser contos sanguinários, cheios de detalhes grotescos ou carregados de emoção desnecessária. Na verdade, são textos cujas elegantes descrições nos dão um painel de casos exemplares (como o próprio título adianta) de que também há dignidade em escolher morrer, basta a coragem e as motivações necessárias, é o livre arbítrio, misturado a uma série de fatores, o que conta nestes casos.

10 de agosto de 2013

Das cartas




Houve um tempo em que nos correspondíamos através de cartas. Atualmente, usamos o Facebook (antes era o célebre Orkut), o Twitter, o Skype, o MSN para a manutenção das nossas amizades e laços familiares. Recorremos ao celular, aos SMS’s e uma gama de possibilidades para encurtar estas distâncias e propiciar o contato mútuo. A tecnologia contribuiu para uma proximidade relativa, por assim dizer.
Mas se voltarmos a uns 20 anos atrás, vamos lembrar certamente de quando escrevíamos cartas aos nossos amigos e familiares distantes e ansiávamos pelo Correio, para que o carteiro depositasse em nossa caixa a tão esperada resposta dos nossos destinatários. O prazer de receber uma carta era inestimável. E lá íamos nós escrevermos nova correspondência e voltarmos ao drama da espera de outro retorno que sempre demorava mais que o período da carta anterior ou chegava somente depois que todos da casa recebessem o envelope selado que estavam aguardando.
Muitos dos bons romances na literatura foram estruturados na forma epistolar (por Balzac, Richardson, de Laclos entre outros), produtos de uma época em que a forma de comunicação mais popular era esta. Escritores trocavam correspondências, recebiam críticas e elogios de suas obras, faziam suas reflexões a parentes ou pessoas próximas através de cartas. Goethe recebeu algumas críticas do filósofo e poeta Schiller, através das antigas missivas, sobre o romance Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, em que ressaltou os problemas sobre a condução do protagonista no enredo do livro. Ao ler sobre este assunto, em uma obra que versa sobre o gênero romance de formação, fiquei pensando em como saberemos, nos dias de hoje, de relações como esta, contato entre escritores e pensadores, nas futuras biografias. Os biógrafos terão que recorrer, certamente, aos hackers para invadir contas de e-mail ou ao governo americano para espionar a vida dos escritores atuais. Hoje em dia, grande parte da comunicação se dá por e-mails, ou conversas em salas de bate-papo de redes sociais. No entanto, não dá para apenas confiar apenas em postagens esparsas no Facebook e em tweets pouco expressivos e sinceros como indícios biográficos, a vaidade fala mais alto nestes canais.
Minha intenção não é criticar os novos tempos, se estes são os recursos que nos cabem, façamos o bom uso deles, que ótimo que eles existam. A diferença é que o e-mail, por exemplo, virou um canal para coisas rápidas, informações superficiais ou precisas (enquanto na carta, nos reservávamos mais tempo para preenchermos as linhas de papel timbrado, até mesmo com banalidades). O risco que corremos é que saibamos das coisas de forma fragmentada, perdemos a cada dia o domínio da totalidade. Teremos ciência do outro, do próximo, assim, por pedaços. Para no final ser montado um Frankenstein da pessoa biografada, um painel um tanto quanto diferente do original.
São os novos tempos, são os hábitos que definirão aquilo que seremos. Os impactos já estamos sentindo e as cartas não estarão mais entre nós para registrá-los com toda a pena e o cuidado de uma boa caligrafia que ajude na leitura.