10 de agosto de 2013

Das cartas




Houve um tempo em que nos correspondíamos através de cartas. Atualmente, usamos o Facebook (antes era o célebre Orkut), o Twitter, o Skype, o MSN para a manutenção das nossas amizades e laços familiares. Recorremos ao celular, aos SMS’s e uma gama de possibilidades para encurtar estas distâncias e propiciar o contato mútuo. A tecnologia contribuiu para uma proximidade relativa, por assim dizer.
Mas se voltarmos a uns 20 anos atrás, vamos lembrar certamente de quando escrevíamos cartas aos nossos amigos e familiares distantes e ansiávamos pelo Correio, para que o carteiro depositasse em nossa caixa a tão esperada resposta dos nossos destinatários. O prazer de receber uma carta era inestimável. E lá íamos nós escrevermos nova correspondência e voltarmos ao drama da espera de outro retorno que sempre demorava mais que o período da carta anterior ou chegava somente depois que todos da casa recebessem o envelope selado que estavam aguardando.
Muitos dos bons romances na literatura foram estruturados na forma epistolar (por Balzac, Richardson, de Laclos entre outros), produtos de uma época em que a forma de comunicação mais popular era esta. Escritores trocavam correspondências, recebiam críticas e elogios de suas obras, faziam suas reflexões a parentes ou pessoas próximas através de cartas. Goethe recebeu algumas críticas do filósofo e poeta Schiller, através das antigas missivas, sobre o romance Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, em que ressaltou os problemas sobre a condução do protagonista no enredo do livro. Ao ler sobre este assunto, em uma obra que versa sobre o gênero romance de formação, fiquei pensando em como saberemos, nos dias de hoje, de relações como esta, contato entre escritores e pensadores, nas futuras biografias. Os biógrafos terão que recorrer, certamente, aos hackers para invadir contas de e-mail ou ao governo americano para espionar a vida dos escritores atuais. Hoje em dia, grande parte da comunicação se dá por e-mails, ou conversas em salas de bate-papo de redes sociais. No entanto, não dá para apenas confiar apenas em postagens esparsas no Facebook e em tweets pouco expressivos e sinceros como indícios biográficos, a vaidade fala mais alto nestes canais.
Minha intenção não é criticar os novos tempos, se estes são os recursos que nos cabem, façamos o bom uso deles, que ótimo que eles existam. A diferença é que o e-mail, por exemplo, virou um canal para coisas rápidas, informações superficiais ou precisas (enquanto na carta, nos reservávamos mais tempo para preenchermos as linhas de papel timbrado, até mesmo com banalidades). O risco que corremos é que saibamos das coisas de forma fragmentada, perdemos a cada dia o domínio da totalidade. Teremos ciência do outro, do próximo, assim, por pedaços. Para no final ser montado um Frankenstein da pessoa biografada, um painel um tanto quanto diferente do original.
São os novos tempos, são os hábitos que definirão aquilo que seremos. Os impactos já estamos sentindo e as cartas não estarão mais entre nós para registrá-los com toda a pena e o cuidado de uma boa caligrafia que ajude na leitura.

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