19 de janeiro de 2014

#Rolezinho




A classe média está em polvorosa. Acuada. Ameaçada em sua torre de marfim psicológica deu-se conta de que existe uma periferia (aquela que sempre ignorou e que por vezes a importuna em seu caminho). Que esta periferia invadiu os shoppings centers para seu desespero. O shopping que é o único refúgio onde não precisava se misturar com esta gentalha. Mais que um sentimento de superioridade de Dona Florinda, a classe média, com seu medo e suas medidas, munida de ações na justiça para impedir a entrada de jovens, contribui ainda mais para a segregação.
A história da sociedade é uma história de luta entre classes, já afirmara Marx e Engels no célebre manifesto do Partido Comunista. Frase bem propícia para estes atuais eventos. Sejamos francos: desde que o mundo é mundo foi assim. Os pobres querendo ser ricos. Os burgueses querendo ser nobres, a classe baixa desejando ser a burguesa. Pobres que tomam como modelo figuras do tipo de Eike Batista ou Roberto Justus. Compreensível que a classe que ascende nessas esferas também almeje aquilo que lhe garanta um status parecido daqueles que possuem privilégios, o de comprar, por exemplo, no local que é sinônimo disto: o shopping, aquele centro de vendas de produtos com preços acima da nossa capacidade pagadora.
O rolezinho seria uma forma de protesto? De dizer aos outros: eu existo? Ou são jovens que pretendem apenas se encontrar, se divertir, consumir e ir embora? Por que os jovens escolheram logo um shopping e não uma praça, um teatro, um museu, uma quadra de esportes? Porque o shopping é o atual programa de diversão de uma grande parcela da população nos fins de semana. Porque os endinheirados fazem assim também.
Alguns mais empolgados disseram que o rolezinho é uma continuidade dos protestos que mobilizaram o país em junho do ano passado. Não concordo que tenha sido esta intenção, ela foi bem mais despretensiosa do que se imagina. Existem algumas coincidências: Quando naqueles movimentados meses se protestava contra tudo e nada ao mesmo tempo, aqui os rolezinhos jovens dividem um espaço em comum com outras camadas da população e são cerceados de ir e vir sob o pretexto da propriedade privada e de um preconceito disfarçado. Assim como nos protestos, a polícia agiu de forma abusiva no rolezinho. Nos protestos e nos rolezinhos houve quem se aproveitasse da confusão e do desconforto para promover vandalismo e outros crimes. Muitas pessoas num mesmo lugar certamente vai dar tumulto. Não adianta tirar conclusões revolucionárias disso tudo: a preocupação maior desses jovens ainda é a roupa de marca e o tênis de R$500,00 e um boné maneiro para se exibir nas ruas. Uma celeuma se instalou. Porém não podemos nem ir tanto ao céu, nem tanto ao mar. A linha que os divide é imaginária.
O que esses jovens não perceberam é que eles não precisam dos shoppings para se reunir e se divertir (eles não são a única opção) e nem da aceitação de uma classe alienada como um passaporte para existir.

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