14 de fevereiro de 2014

Na Estante 13 - Nós Matamos o Cão-Tinhoso (Luis Bernardo Honwana)


Livro: Nós matamos o cão-tinhoso
Autor: Luis Bernardo Honwana
Editora: Biblioteca Editores Independentes
Ano: 2008
Páginas: 156


 “O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.” (p. 13)

Nós Matamos o Cão-Tinhoso é um clássico da literatura moçambicana. Escrita e publicada no período em que a luta pela independência do país (o livro foi publicado em 1964) atingia seu ápice, esta coletânea de contos reflete bem este momento político. O livro foi escrito por Luis Bernardo Honwana enquanto estava preso e marcou uma nova fase para a então incipiente literatura do país africano que tem a língua portuguesa como língua oficial. Além do conto que dá título ao livro, o melhor de todos, temos outros textos que retratam a condição do negro (que o conto “As mãos dos pretos” expõe de forma original e poética), a tensão entre colonizadores e colonizados (muitos dos países africanos colonizados por Portugal apenas conseguiram sua independência na década de 1970) e a exploração e o preconceito existentes naquele país. O tom planfetário muitas vezes prejudica as narrativas em que a linguagem poética cede lugar ao discurso político, mas que são compreensíveis num período em que a luta pela independência se dava pela via armada e também pela palavra (Os escritores e poetas tiveram um papel fundamental nesta busca de países como Moçambique, Angola, Cabo Verde, entre outros, por liberdade, Honwana inclusive), tratou-se então de uma escolha coerente. “Nós Matamos o Cão-Tinhoso” retrata a estória de Ginho um garoto nativo assimilado (que convive e frequenta a escola dos brancos) que se sensibiliza e fica penalizado com figura do Cão-Tinhoso, um cachorro cheio de sarnas e feridas que incomoda a todos no vilarejo e é escorraçado até mesmo por outros cães. Até que o Senhor Duarte da Veterinária chama um grupo de crianças, a malta, para matar o cachorro e Ginho, por fazer parte do grupo e precisar também ganhar o respeito dos colegas, é incumbido de dar o primeiro tiro no animal. Houve quem interpretasse esta estória sob o viés de que o cão-tinhoso representasse o colonizador que precisa ser eliminado para ceder lugar ao colonizado e pôr fim a anos de opressão e houve quem considerasse o cão-tinhoso como o próprio nativo que incomoda e precisa ser eliminado pela metrópole não só através da violência mas pela aculturação e o apagamento de sua história e tradição. Ambas visões válidas para uma obra que ainda faz-se contemporânea e urgente, relevante até em terras tupiniquins que vivem intensamente as injustiças que, desde os tempos da escravidão, desde depois do fatídico 22 de abril, pesam nas suas questões sociais e raciais.

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