25 de março de 2014

As dívidas, a pia e a sereia


Ao chegar decidiu fazer as compras. Impressionava-lhe quão caros estavam os produtos hoje em dia. O bolso a fazer suas lamúrias.  O cérebro a calcular as contas do mês seguinte e do mês subsequente. Todos os centavos do seu eterno prejuízo financeiro. A pobreza de sua conta bancária numa tenaz perseguição, a pobreza tão persistente quanto a famosa tartaruga da fábula. Aquela que vencera a corrida contra o veloz coelho. O coelho era ele mesmo, na empáfia de acreditar sempre vencer as dificuldades da batalha com o vil metal (em recebê-lo, multiplicá-lo), o parco do que ganha, o pouco-nada que sobra. O tudo que ainda está por quitar e resolver. Com um semblante patético percebera que não venceu a corrida mais uma vez, mais um mês.
A pia cheia de louças o recepcionou com um sorriso aberto. E mesmo que tentasse, fingisse a sua inexistência, ela estava ali, escancarada e suja, ansiando por esponja e detergente. Desta vez tinha que atender aos apelos dela e ignorar o seu próprio cansaço. Postar-se frente à pia e, calmamente, uma por uma, acariciar cada louça, cada superfície de vidro, plástico, metal e ferro, extrair-lhes a sujeira, areá-los, dar-lhes limpeza e dignidade.

Para esta tarefa, recorreu ao auxílio luxuoso de uma sereia. Ligou o aparelho de som, a música torna menos tormentosa as tarefas domésticas, a sereia ecoou com sinuosidade e encanto pelos cômodos (não demasiado alto, para não incomodar os vizinhos). Decidiu cantar num dueto comum e desigual com a bela figura folclórica. Sua voz não alcançava as mesmas notas, sua voz mal desejava sair, de vergonha. A sereia, antes de fazê-lo afogar-se na água doce que lava a louça, o chamava para o mar de sua extrema afinação. Melodia ímpar a cantar o amor e outras misérias da vida. Enquanto ele cuidava das suas tacanhas preocupações que iam do sono que pesava as pálpebras ao mais baixo da pia. 

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